quarta-feira, 26 de agosto de 2009

Revolução política ou emancipação social?

A emancipação política, resultante da revolução burguesa, cujo marco pode ser retraçado historicamente até a Revolução Francesa, é indubitavelmente um avanço substancial ao longo do desenvolvimento sócio-histórico da humanidade. Marx não o nega. Entretanto, pela sua própria natureza, pela sua essência classista, por se tratar de um processo que não supera, mas, ao contrário, traz também em seu bojo uma sociedade de classes, ainda que revolucionária na medida em que enterra de vez as atrasadas relações sociais do Antigo Regime feudal, a emancipação política é intrinsecamente limitada. No limite, o reconhecimento de que todos os homens nascem iguais em direito não se dá senão e tão-somente na esfera superestrutural jurídico-política da nascente sociedade burguesa, condição sine que non para o ser social capitalista se reproduzir. Trata-se de uma emancipação puramente formal dos homens, reiteradamente estruturados em classes, não se tratando, portanto, de modo algum de uma verdadeira e efetiva emancipação humana, assim como entendida por Marx e, de modo geral, pelos materialistas histórico-dialéticos.


Hegel incide precisamente nesse erro, ao considerar o Estado moderno como o princípio ordenador da sociedade civil, inerentemente anárquica, sobre a qual atua conferindo-lhe uma racionalidade externa. Espírito e sociedade seriam pólos contraditórios de uma mesma realidade, a tese e a antítese que encontrariam no Estado sua síntese mais acabada, a objetivação da razão no mundo. Inverter a equação é basicamente a crítica que fará Marx à Hegel, afirmando que não é o Estado que determina a sociedade civil, senão o contrário, a sociedade civil, cuja existência é reflexo dos homens que agem organicamente sobre a natureza para produzir e reproduzir suas condições materiais de existência e, ao assim procederem, estruturam-se em classes, o liame concreto sobre o qual “se levanta uma superestrutura jurídica e política, e à qual correspondem formas sociais determinadas de consciência.” (Marx, 1999, p.52). Evidente que essa superestrutura é o Estado, com tudo que, para Marx, isso significa, e as formas determinadas de consciência que passam pelo individualismo burguês e vão até a concepção dos direitos universais de liberdade e igualdade – dentro dos seus manifestos limites de classe, bem entendido.


Por partirem de concepções ontológicas diametralmente opostas, a filosofia burguesa e a filosofia marxista são irremediavelmente inimigas. Ao conceber o ser social como portador de determinações apriorísticas, inerentes à natureza do homem, em especial o individualismo, a “ascese burguesa”, a economia política clássica advoga que a melhor sociedade a qual essa natureza humana poderia se conformar é a sociedade capitalista. Excluí-se, assim, tudo para além do Capital, fazendo desse momento histórico específico o último, o fim da História. Como o capitalismo não pode subsistir sem uma superestrutura que, erigindo-se a partir das contradições e dos antagonismos das classes produtoras, corrobore tais contradições e impeça a desagregação das partes, concluem que o Estado democrático-liberal é por certo a expressão mais acabada da política e, sobretudo, da sociabilidade humana. Que sobra diante disso senão a vazia discussão weberiana da legitimidade do poder político, do político por vocação, enfim, da melhor política a ser adotada? Nada, porquanto a possibilidade de superação dessa sociabilidade específica, alienada no caso, foi suprimida.


Entretanto, não é isso que afirma Marx. Estado democrático-burguês e, sua contrapartida material, as relações sociais de produção capitalistas, não são eternos, muito menos são o remate, a coroação de um movimento histórico teleológico que tinha por fim encontrar a vida social mais pertinente a uma suposta natureza humana. Marx demonstra com sagacidade que essa realidade é mais um momento histórico, transitório como todos os outros, específico e determinado da humanidade.

segunda-feira, 24 de agosto de 2009

Quem trabalha, quem consome?

Trabalho estranhado, trabalho alienado. Compramos mercadorias inúteis, sem as haver produzido. Não compramos as mercadorias inúteis, mesmo tendo as produzido. Aquelas pobres almas, homens e mulheres, cujo sangue o Capital atravessou oceanos e continentes para sorver, laboram dia e noite para produzir uma infinidade de televisores de plasma, de celulares, de brinquedos eletrônicos, tudo da mais moderna geração, os quais, eles próprios, não podem usufruir. São explorados, desumanizados, bestializados ao longo de uma existência descartável. Os produtos de seu próprio trabalho lhes são estranhos. Que fazem estes produtos além de voltar-se contra seus criadores e escravizá-los?


Não bastasse vê-los todos os dias, aos milhares, a correr frente aos seus olhos, um por um, peça por peça, entrando pela esteira na forma de elementos de pouco valor agregado e saindo pronto, acabado, levando o seu trabalho cristalizado ao próximo comprador, esses trabalhadores são obrigados a vê-los também na mídia, no “horário comercial”, sendo trazidos reluzentes, como invólucros contendo felicidade, implorando para serem adquiridos. Mas, afinal, qual horário desse mundo capitalista não é comercial? Há algum momento, por menor sequer, em que qualquer coisa não esteja relacionada, motivada, determinada pelo valor, pela forma mercadoria?


– Pai, compra pra mim aquela boneca? – pergunta a criança, em chinês, inocentemente ao seu pobre pai, exausto, derribado num sofá roto, a olhar fixa e indistintamente o teto, sem nada a dizer. Como poderia? Como explicar à filha, incapaz de entender o mundo que a cerca, que não pode comprar uma das milhares de bonecas que faz todos os dias? São tantas, mas não são dele, não podem ser consumidas por quem as produz, são tão-somente valores-de-troca.


E essa cena repete-se abundantemente, senão de forma homogênea, pelo menos endêmica e espraiada pelas muitas periferias desse mundo. Quantos pais e mães não estão sobre esse jugo, a saber, do Capital? Cenas corriqueiras que não encontram paralelo em nenhuma fantasia dantesca, são, na verdade, reais. A mãe que, a pós contar as parcas moedas nas mãos, constata tristemente que não tem o suficiente para comprar um doce, um salgadinho, uma Coca-Cola, ou qualquer coisa que o valha para o filho que pede atrelado à barra da sua saia; ao mesmo tempo em que uma outra mãe cerca seus filhos de sufocantes paparicos, gastando a felicidade alheia. Eu mesmo, quem vos escreve, quanto da felicidade alheia consumo? Não trabalho e, portanto, não tenho uma existência produtiva, mas, no entanto, consumo, e relativamente bem. Quanto do que consumo é meu por direito e quanto deveria ser de outrem?

quarta-feira, 12 de agosto de 2009

Aniversário

Aniversário: data na qual se comemora o dia em que se nasceu. Data para receber telefonemas, alguns sinceros outros não, alguns de quem está perto, outros de quem só se fala religiosamente nesse dia. Dia de fazer votos de felicidade, de reiterá-los ou de simplesmente não renová-los. Dia de repensar os rumos que a vida veio tomando nesse último ano. Data na qual, por um momento de descuido e prazer fugaz, meus pais me trouxeram a esse mundo triste. Data que, para a criança, inocente e egoísta, significa ganhar um novo presente. Data boba, na qual nos achamos especiais, nos achamos merecedores de paparicos. Dia só seu e de mais milhões de outros aniversariantes. Dia de fazer promessas, muitas promessas que sabemos jamais conseguir ou mesmo tentar cumpri-las. Data para dizer a quem se ama: “eu te amo”. Dia entre tantos outros, com a diferença de estar um ano mais velho do que nos dias do ano anterior. Dia feliz para uns, infeliz para outros. Data na qual tem-se certeza que se está a fazer tudo errado. Data que dá vontade de ser regredida, refeita, referida a outro. Dia de dizer “obrigado”, embora se queira trancar-se no quarto e dizer “adeus”. Dia único do ano que não lhe pertence. Dia que me lembra tudo o que fiz de errado, mas nada daquilo que fiz de certo. Data na qual se percebe que a vida é um cronômetro em contagem regressiva. Data para se inventariar aquilo que ainda quer se fazer no tempo que resta. Data na qual, todos os anos, pago penitência a minha consciência. Data em cujo dia estou mais longe do começo e mais próximo do fim. Data que me lembra a solidão. Dia triste que espero que passe logo.

terça-feira, 11 de agosto de 2009

O mito da felicidade

É triste ver as pessoas tentarem ser feliz. Tentarem é a palavra correta? Não. Desejarem ser feliz. É isso o que elas fazem: lamentam seus desejos vãos e irrealizáveis de felicidades intermináveis. Acreditam que existe uma felicidade para além do horizonte, acima dos píncaros rochosos e frios, no final da estrada, num amor além-mar. Ou mesmo que haveria de ser encontrada na outra vida que as esperam, na labuta empreendida com afinco e sem reclamações, no final de uma das pontas do arco-íris. Enfim, seja qual for a forma desse sonho, ele traz consigo uma concepção irracional de felicidade: a de que a felicidade seria um bem maior, um bem supremo, prêmio máximo concedido à realização pessoal de cada alma desse mundo tenebroso pela coragem vitoriosa.


Envoltos nas trevas, a felicidade representaria a luz no fim do túnel para esses seres tão habituados e afeitos ao sofrimento. Nesse sentido, a felicidade é egoísta. Nada impede a um indivíduo qualquer passar por cima da felicidade alheia para conquistar a sua própria. Ou talvez roubá-la de algum descuidado. Afinal, em se tratando da felicidade, não valeria à pena lançar mão de qualquer meio, moralmente condenável ou não, para obtê-la? Os meios não justificariam o fim? A felicidade consiste num estado individual caracterizado, por um lado, pela completa ausência de sofrimento, e, por outro, pela mais absoluta presença de satisfação com tudo aquilo que é comumente considerado bom: o dinheiro, o amor romântico, o bem-querer de amigos próximos, a boa relação com familiares, a “saúde de ferro”, o sucesso profissional. Todos esses pequenos bens burgueses dos quais ouvimos tão bem e, tão cedo quanto possível, somos encaminhados e instados a persegui-los. É bem verdade que, para cada alma solitária desse mundo, este ou aquele desses objetivos pode ou não ser considerado bom, ou uns podem ser considerados melhores do que outros. Entretanto, isso não elimina o fato de que são essencialmente objetivos individuais, individualistas e individualizantes.


Como objetivos individuais que são, só podem ser alcançados pelas almas particulares que, travando uma encarniçada luta, disputam palmo a palmo as parcas reservas desses elementos compositores da felicidade de que dispõe nosso mundo. Em vista disso, tornam-se almas aguerridas e tendem sempre a desconsiderar que, por direito, a alma adjacente à sua também é merecedora da mesma coisa que si mesmo. Cada uma sofre candentemente por não alcançar aquele estado indelével de felicidade que lhe fora prometido. Como se, uma vez alcançada, a felicidade fosse um estado eternamente perene, de cujo usufruto jamais seríamos novamente despojados.


Mas não é assim. A felicidade é um conceito burguês. Ela não pode de modo algum ser plenamente realizada porque ela não é um fim, e sim um meio. É através dela que nos dispomos dia após dia a acordar cedo e a nos abalançar, sem uma clara noção das verdadeiras razões, para a insanidade do cotidiano servil e hipócrita que partilhamos. Fazemos isso, fazemos aquilo. Ora de bom, ora de malgrado Estudamos o que achamos que nos conferirá uma carreira coroada de sucessos. Se, por sorte ou por artimanha, conseguimos fazer a vida dentro da área estudada, esperamos que desse trabalho saia a satisfação, seja ela sentimental, pecuniária ou de qualquer outra natureza. Ao mesmo tempo, no meio dessa balburdia toda de suceder-se de fatos, surge o amor. Este é literalmente fogo de palha. Dura tão pouco quanto se acreditou sê-lo infinito e eterno. De repente vira rotina. Aquilo que pareciam ser qualidades viram defeitos, defeitos insuportáveis que sufocam o que antes parecia ser amor. Mas não é o amor que acabou. É a busca desesperada pela felicidade que, não sendo encontrada no amor, na profissão ou na família, volta-se raivosamente contra os meios que supostamente deveriam realizá-la. E enfim, eles assistem à novela, pois lá sim existe um final feliz, tomam remédios para o desequilíbrio mental que os acometem, maldizem tudo e todos, e, por fim, morrem amargos e ressentidos com o destino medíocre que lhes fora reservado. A felicidade é uma cenoura amarrada na ponta de uma vara, que, por sua vez, está amarrada ao dorso dos asnos, burros, jegues, jumentos e mulas que somos todos nós. Dela não podemos tirar mais do que diminutas mordidas insossas. A felicidade plena não pode existir, vai contra as leis naturais e sociais desse mundo. Talvez – repito, talvez – em um futuro cuja aurora seja a emancipação humana tenhamos da felicidade um pouco mais do que costumam nos dar de ração.