A nuvem virtual
Traz-me você de volta,
E eu confundo lembrança
Com memória.
Tua presença
(Vívida ou vivida?)
É tão real, mas impalpável,
Incorpórea,
Etérea.
Tal como o agora,
Perde-se num clique
Num bit de notícias
Vindas de além web
Não me entenda mal
É fugaz
Logo você novamente me escapa
Levando consigo nossas memórias
Como nuvens sopradas
Pelo vento inexorável
Isso não me entristece
A forma se perde
Mas eu acho graça
Da certeza que, para todos nós
A vida passa
E há sempre novas histórias
A serem contadas
Feitas de pessoas reais
Que um dia serão níveas nuvens
Flutuando pelo azul do céu
quarta-feira, 6 de abril de 2016
quinta-feira, 17 de março de 2016
Imensa mansidão
Não sou fera
Nem bicho
Sou manso
Talvez não tanto pedra
Dura
Impávida
Inflexível
Indiferente
Sou mais como mar manso
Fluído
Plástico
Tolerante
Mas mesmo sereno
Ninguém pensa atravessá-lo
A nado
A mansidão imensa
Sempre vence
O mais forte dos braços
Nem bicho
Sou manso
Talvez não tanto pedra
Dura
Impávida
Inflexível
Indiferente
Sou mais como mar manso
Fluído
Plástico
Tolerante
Mas mesmo sereno
Ninguém pensa atravessá-lo
A nado
A mansidão imensa
Sempre vence
O mais forte dos braços
quinta-feira, 8 de outubro de 2015
A mãe abandona(da)
Por medo de ser dispensada
Do emprego tão necessitada
A mãe abandona a cria
Recém-nascida
Ao relento da calçada
Desesperada
A mulher grávida
Pariu
Solitária
No quartinho de empregada
Mais uma herdeira da senzala
Mas a patroa
Diz que não viu nada
Pudera
Nove meses e a mulher
Ainda trabalhava
O pai onde estava?
Abortou
Nem bem o óvulo fecundara
Mas só a mulher será culpada
Pela justiça dos homens
Condenada
A criança, coitada
Pelas injustiças do mundo
É quem paga
Do emprego tão necessitada
A mãe abandona a cria
Recém-nascida
Ao relento da calçada
Desesperada
A mulher grávida
Pariu
Solitária
No quartinho de empregada
Mais uma herdeira da senzala
Mas a patroa
Diz que não viu nada
Pudera
Nove meses e a mulher
Ainda trabalhava
O pai onde estava?
Abortou
Nem bem o óvulo fecundara
Mas só a mulher será culpada
Pela justiça dos homens
Condenada
A criança, coitada
Pelas injustiças do mundo
É quem paga
sexta-feira, 17 de julho de 2015
Balanço dos 30
A 26 dias de completar 30 anos,
Achei oportuno fazer um balanço deste tempo vivido
Tão único, tão singular
Às vésperas do trigésimo aniversário,
Como me sinto?
Primeiro, mais jovem do que nunca
Os anos têm-me rejuvenescido
Tenho fome de vida
E quanto mais eu como
Menos ela me sacia
A dureza da sociedade
Não apagou meus olhos maravilhados de menino
Com tanta beleza e novidade
Que há pra se ver no mundo
Não queixo-me dos anos perdidos
Das besteiras ditas
E dos amores desperdiçados
Se em troca ganhei sabedoria
Aprendi que o objetivo, ilusório
É desimportante
Mais vale o próprio caminho
O ato de caminhar
Compreendi que não se avalia a viagem
Pelo peso da bagagem
A experiência ensina a levar somente o necessário
E com as costas leves
Se vai mais longe
Com o passado fiz a pazes
E do futuro não mais receio
Claro, nem tudo é alegria aos trinta
Mas aprendi a ser eu mesmo
Embora tenha falhado em praticamente tudo
E o resto ainda reste pela metade
Sinto orgulho daquilo que fiz de mim mesmo
Se você pensar nos 30 como o meio
Ele se parece com um fio de navalha
Sobre o qual a gente se equilibra
Entre passado e futuro
Alguns vivem no passado
Outros preferem o futuro
Eu escolho viver o presente
Achei oportuno fazer um balanço deste tempo vivido
Tão único, tão singular
Às vésperas do trigésimo aniversário,
Como me sinto?
Primeiro, mais jovem do que nunca
Os anos têm-me rejuvenescido
Tenho fome de vida
E quanto mais eu como
Menos ela me sacia
A dureza da sociedade
Não apagou meus olhos maravilhados de menino
Com tanta beleza e novidade
Que há pra se ver no mundo
Não queixo-me dos anos perdidos
Das besteiras ditas
E dos amores desperdiçados
Se em troca ganhei sabedoria
Aprendi que o objetivo, ilusório
É desimportante
Mais vale o próprio caminho
O ato de caminhar
Compreendi que não se avalia a viagem
Pelo peso da bagagem
A experiência ensina a levar somente o necessário
E com as costas leves
Se vai mais longe
Com o passado fiz a pazes
E do futuro não mais receio
Claro, nem tudo é alegria aos trinta
Mas aprendi a ser eu mesmo
Embora tenha falhado em praticamente tudo
E o resto ainda reste pela metade
Sinto orgulho daquilo que fiz de mim mesmo
Se você pensar nos 30 como o meio
Ele se parece com um fio de navalha
Sobre o qual a gente se equilibra
Entre passado e futuro
Alguns vivem no passado
Outros preferem o futuro
Eu escolho viver o presente
terça-feira, 2 de junho de 2015
Resumo
Acorda
Levanta
Passa café
Esquenta pão
Come pão
Bebe café
Serve outra xícara
Abre Facebook
Confere e-mail
Fecha tudo
Abre texto
Fecha texto
Abre texto
Fecha texto
Anota
Levanta
Outra xícara
Recomeça
Coloca música
Navega
Vê bobagens
Levanta
Alonga
Faz barra
Faz flexões
Abdominais
Levanta
Passa café
Esquenta pão
Come pão
Bebe café
Serve outra xícara
Abre Facebook
Confere e-mail
Fecha tudo
Abre texto
Fecha texto
Abre texto
Fecha texto
Anota
Levanta
Outra xícara
Recomeça
Coloca música
Navega
Vê bobagens
Levanta
Alonga
Faz barra
Faz flexões
Abdominais
Põe água no fogo
Lava louça
Faz almoço
Come
Assistindo seriado
Toma banho
Passa mais café
Senta
Lê
Estuda
Escreve
Na rua, alguma coisa pra fazer?
Não
Então toca guitarra
Mais barras
Leva a cachorra pra passear
Outro banho
Agora chá
Facebook
E-mail
Passaram-se meia hora
Fecha
Concentra
Lê
Estuda
Escreve
Janta
Mais um pouquinho da mesma coisa
Deita
Confere celular
Dorme
Quando foi que eu passei a ter a vida tão controlada quanto um rato de laboratório?
Ps: as aberturas de Facebook e a navegação em busca de bobagens estão grosseiramente subestimadas.
Lava louça
Faz almoço
Come
Assistindo seriado
Toma banho
Passa mais café
Senta
Lê
Estuda
Escreve
Na rua, alguma coisa pra fazer?
Não
Então toca guitarra
Mais barras
Leva a cachorra pra passear
Outro banho
Agora chá
Passaram-se meia hora
Fecha
Concentra
Lê
Estuda
Escreve
Janta
Mais um pouquinho da mesma coisa
Deita
Confere celular
Dorme
Quando foi que eu passei a ter a vida tão controlada quanto um rato de laboratório?
Ps: as aberturas de Facebook e a navegação em busca de bobagens estão grosseiramente subestimadas.
quarta-feira, 27 de maio de 2015
Multicolor
Uns querem vermelho
Outros, azul
Mas que chato seria
Acaso existisse, da cor
Apenas um
Tom ou outro
Sem variação
Sem diversidade
Vira tudo cinza
Pois a coloração é relativa
Ela só faz sentido
Pra quem vê
Arco-íris
Azul é belo
Porque existe vermelho
O contrário sendo igualmente verdadeiro
O que há de mais bonito
No diverso
É que se pode escolher
Entre tantas possibilidades
Aquilo que eu quero
E sobra todo um espectro
Pra ser novamente escolhido
Afinal, quem tem medo
Da diversidade
Se o mundo é todo colorido?
Entre tantas bandeiras monocromáticas
A única que representa toda a humanidade
É a da luta LGBT
Outros, azul
Mas que chato seria
Acaso existisse, da cor
Apenas um
Tom ou outro
Sem variação
Sem diversidade
Vira tudo cinza
Pois a coloração é relativa
Ela só faz sentido
Pra quem vê
Arco-íris
Azul é belo
Porque existe vermelho
O contrário sendo igualmente verdadeiro
O que há de mais bonito
No diverso
É que se pode escolher
Entre tantas possibilidades
Aquilo que eu quero
E sobra todo um espectro
Pra ser novamente escolhido
Afinal, quem tem medo
Da diversidade
Se o mundo é todo colorido?
Entre tantas bandeiras monocromáticas
A única que representa toda a humanidade
É a da luta LGBT
sexta-feira, 8 de maio de 2015
Acontecimentos
Todo acontecimento
Bem ou mal
É uma dádiva
Que sem aviso
Nos pega
Quando a guarda baixa
E do jeito que veio
Ele passa
Levando consigo
Misto de saudade
E amargura
Doçura e mágoa
Que numa noite
Fria e solitária
De vinho tinto
A boca amarga
E se chora
Por tê-lo perdido
Queria eu poder festejar
De peito aberto
Cada novo acontecimento
Toda vez que ele entrasse por aquela porta
Sem ser convidado
Trazendo outra oportunidade
E quando fosse embora
De minha parte
Não levasse
Mais que tão-só e unicamente
Agradecimento
Bem ou mal
É uma dádiva
Que sem aviso
Nos pega
Quando a guarda baixa
E do jeito que veio
Ele passa
Levando consigo
Misto de saudade
E amargura
Doçura e mágoa
Que numa noite
Fria e solitária
De vinho tinto
A boca amarga
E se chora
Por tê-lo perdido
Queria eu poder festejar
De peito aberto
Cada novo acontecimento
Toda vez que ele entrasse por aquela porta
Sem ser convidado
Trazendo outra oportunidade
E quando fosse embora
De minha parte
Não levasse
Mais que tão-só e unicamente
Agradecimento
sexta-feira, 24 de abril de 2015
Memórias de um esquerdo-macho
Quando me confrontaram
Com as minhas atitudes machistas
Dizendo que eu silenciava as companheiras
E que amiúde as assediava
Lembrei a todas que eu era comunista
Que a minha filha tinha nome de comunista famosa
Que eu era apenas engraçado e piadista
Que afinal eu era de esquerda
(E isso já não valia como um atestado de pessoa honesta e íntegra?)
Minhas credenciais pouco valeram
Então ataquei minhas acusadoras
Chamei-as de moralistas
De pequeno-burguesas
Disse que estavam dividindo e enfraquecendo o movimento
Pensei em chama-las de “mal-comidas”
Mas talvez soasse por demais reaça
E eu irmanar-me-ia com os machos lá do outro lado
Com os quais eu jurava nada ter em comum
Então exortei com fanfarronice a classe a se unir
Em torno de pautas mais centrais e importantes
Disse que a classe não tem gênero
Que o inimigo é a burguesia
Que a revolução se encarregará de acabar com o que restar de relações opressoras
(Isso não será uma alegria, companheiras?)
Minha fala foi ovacionada
E plenamente aceita pelos meus camaradas
Curiosamente, com especial entusiasmo do gênero masculino
Enquanto muitas companheiras quedavam visivelmente contrariadas
Céticas, com a impressão de já terem ouvido tais promessas
Antes, em outras assembleias
Em outras revoluções
Em meu íntimo, completei o discurso, triunfante:
E até lá deixem de histeria
Fiquem caladas
Que quem define as pautas
Que quem no movimento dá as cartas
Que quem diz o que é ser de esquerda
E até quem dá aval às feministas
Somos nós, os machistas
Os machistas de esquerda
Com as minhas atitudes machistas
Dizendo que eu silenciava as companheiras
E que amiúde as assediava
Lembrei a todas que eu era comunista
Que a minha filha tinha nome de comunista famosa
Que eu era apenas engraçado e piadista
Que afinal eu era de esquerda
(E isso já não valia como um atestado de pessoa honesta e íntegra?)
Minhas credenciais pouco valeram
Então ataquei minhas acusadoras
Chamei-as de moralistas
De pequeno-burguesas
Disse que estavam dividindo e enfraquecendo o movimento
Pensei em chama-las de “mal-comidas”
Mas talvez soasse por demais reaça
E eu irmanar-me-ia com os machos lá do outro lado
Com os quais eu jurava nada ter em comum
Então exortei com fanfarronice a classe a se unir
Em torno de pautas mais centrais e importantes
Disse que a classe não tem gênero
Que o inimigo é a burguesia
Que a revolução se encarregará de acabar com o que restar de relações opressoras
(Isso não será uma alegria, companheiras?)
Minha fala foi ovacionada
E plenamente aceita pelos meus camaradas
Curiosamente, com especial entusiasmo do gênero masculino
Enquanto muitas companheiras quedavam visivelmente contrariadas
Céticas, com a impressão de já terem ouvido tais promessas
Antes, em outras assembleias
Em outras revoluções
Em meu íntimo, completei o discurso, triunfante:
E até lá deixem de histeria
Fiquem caladas
Que quem define as pautas
Que quem no movimento dá as cartas
Que quem diz o que é ser de esquerda
E até quem dá aval às feministas
Somos nós, os machistas
Os machistas de esquerda
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