Mostrando postagens com marcador Crônica. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Crônica. Mostrar todas as postagens

quarta-feira, 9 de julho de 2014

Ser meio surdo

De início, deixemos as coisas bem claras: ser meio surdo não é igual a ser inteiramente surdo, de modo que eu agradeço pela minha meia surdez. Ser meio surdo é mais ou menos como, guardada as devidas diferenças, ser míope (o que eu também sou, diga-se de passagem): tem consequências ruins, mas que também não são tão ruins assim. É preciso saber conviver com a meia surdez.

Escutar uma piada por exemplo é um problema. Enquanto todos estão rindo às gargalhadas, você faz aquela cara de quem chegou no meio da conversa, embora esteja desde o primeiro “então, tinha um...”, porque não escutou justamente o trecho chave para a compreensão da piada.

Falar com uma atendente de telemarketing de call center é outra grande dificuldade. Você nunca entende exatamente o nome da pessoa, se é Josileine ou Josicreide, Cristiane ou Gislaine, Vanderson ou Vanildo, obrigando você a escolher um nome à revelia e se despedir do Joilson chamando-o de Jair. 

Dar aula pode ser uma das piores experiências para um meio surdo. Se fosse o caso de que todos os alunos perguntassem de uma vez, você poderia até ficar feliz. Mas na maioria das vezes o problema da meia surdez em sala é que é impossível ouvir a pergunta de uma ou duas meninas estudiosas enquanto o resto dos trinta e oito demônios fazem a terceira guerra mundial na sala.

Mas nada é mais embaraçoso do que tentar flertar numa casa noturna badalada ao som de um DJ ou banda de rock. Você não vai entender nada e vai ficar com aquela cara de bobo variando os meneios de cabeça entre sim e não junto com um indecifrável “ahan” de tempos em tempos. Essa é a maior causa de insegurança entre os meio surdos, situação que exige deles habilidades de leitura labial, filologia e um pouco de vidência.

Por isso, quando você, que tem a audição perfeita, se deparar com um meio surdo na balada e achar que vale a pena dar uns amassos, faça um favor para vocês dois, corta a papo e vai direto ao beijo.

segunda-feira, 30 de junho de 2014

O homem do saco

O pequeno Luca era ainda um neófito neste mundo. Era esperto, mas seus cinco anos de idade não lhe conferiam grande experiência para que pudesse discernir e compreender fatos básicos da vida e dos seres humanos. Por exemplo: porque aquele senhor passa seus dias sentado naquela calçada, uma das mãos estendidas e voltadas para cima, olhar suplicante, balbuciando coisas indiferentes para os passantes indiferentes? Porque, quando cai a noite, ele não volta para casa? Porque deita-se debaixo daquela marquise e, sobre papelão imundo, dorme, envolto em trapos? Não terá mãe? Será que ela ralhou com ele, como a minha ralha comigo, fazendo-o fugir de casa?

Entre as frinchas do portão do condomínio, Luca podia vê-lo, a algumas dezenas de metros de sua casa. Às vezes, perdia horas a observá-lo. Sabia que ele dormia ali porque, numa madrugada, saíra escondido do apartamento e descera até o portão para ter certeza. Quando saia para ir à escolinha, o carro passava rente ao homem mendicante, e Luca colava o rosto à janela para analisa-lo melhor. Isso era o mais perto que podia chegar. Inquiriu o pai sobre quem era aquele homem e o que ele fazia ali. A resposta que recebeu não aliviou-lhe em nada tantas perguntas cruéis, tantos mistérios:

– É só um vagabundo, filho. Não tem trabalho e, por isso, não tem onde morar.

E por que não tem trabalho? E o que o trabalho tem a ver com ter onde morar? E, afinal de contas, o que seria um vagabundo? Não somente não obteve resposta inteligível, como as perguntas se multiplicavam. Recorreu à mãe.

– Ele está nessa condição porque não estudou, querido. É por isso que você tem que estudar, pra ser alguém na vida.

Deu nelas por elas. Tudo isso não fazia o menor sentido para o pequeno Luca.

Um dia ouviu uma história estranha e assustadora sobre um tal “homem do saco” que sequestrava as criancinhas que não se comportavam. Lembrou-se do vagabundo-sem-trabalho-e-sem-estudo, como definira-o seus pais, que vira e mexe trazia e levava um saco grande e preto nas costas. Perguntou à tia como se parecia o homem do saco, e a reposta deixou-o atônito. A semelhança era tamanha que perguntou-se se não poderia ser ele, então, esse homem malvado a carregar criancinhas desobedientes no saco preto.

Certa noite o condomínio acordou em polvorosa no meio da madrugada. Choro, gritaria e um corre-corre de um lado pro outro. Luca sumira. Seu pai dava de dedo na cara do porteiro, acusando-o de negligência com suas obrigações, enquanto a mão, catatônica, era acudida por uma vizinha no hall do prédio. Uma voz lúcida atravessou a agitação com a razoável hipótese de que aquilo não passava de uma travessura de criança. Montou-se assim uma força tarefa de busca.

Reviraram o prédio de cima a baixo e nada encontraram. Ganharam a rua, e mal deram uns passos avistaram o menino ao lado do homem esfarrapado e sujo. Correram em direção a ele, com ódio nas ventas e prontos para linchá-lo, mas estacaram a alguns passos. Luca dormia tranquilamente e o homem nem parecia dar-se conta da sua presença. Em volta deles, Luca desenhara com um giz-de-cera colorido os contornos de uma casa, com direito até a chaminé e um sol radiante e sorridente.

segunda-feira, 23 de setembro de 2013

O livreiro de Rafah

Como sempre faziam todos os dias para irem juntos à escola, Samira e Ahmed encontraram-se com Kamal do lado de fora de seu prédio. Este os esperava impaciente.

– Vocês estão atrasados!

– Não foi nossa culpa, Kamal – respondeu-lhe, Samira. – No caminho havia uma rua interditada que tivemos que contornar. Tinha bombeiros e policiais por todo lado. Parece que um míssil israelense destruiu o antigo cinema.

Ao ouvir essas palavras, os olhos de Kamal injetaram-se de vermelho, um calafrio gelou-lhe a espinha, mas logo foi substituído por uma onda de calor que começou nos pés e foi terminar nas orelhas ruborizadas. Ele fervia de ódio por dentro. E a pressão escapou em vitupérios e anátemas:

– Malditos sejam esses sionistas, filhos da puta! Desgraçados! Eu vou matá-los um por um, eu juro!

Samira e Ahmed já não se assustavam mais com os acessos de ira e as ameaças vãs de Kamal. Conheciam seu temperamento. Sempre quando tomava conhecimento de alguma das muitas e recorrentes injustiças praticadas pelos israelenses contra seu povo, Kamal explodia em fúria cega. Samira não cuidava que um dia ele seria capaz de perder a cabeça de verdade a ponto de botar sua própria vida em risco. Por outro lado, sabia a admiração e respeito que o garoto nutria pelo Hamas e por seu braço armado, as Brigadas Al-Qassam, e tinha medo que um dia ele pudesse juntar-se a elas.

– Vê porque a jihad é o único caminho para a liberdade? Não é possível dialogar com esses criminosos! É preciso expulsá-los, esmagá-los!

Talvez por criação ou por influencia dos grupos mais radicais, Kamal via o mundo através das lentes da religião. Achava que o conflito entre palestinos e israelenses era antes uma guerra santa entre judeus e muçulmanos, cujo desfecho seria a retomada da terra sagrada pelo povo a ela destinado por Deus. Samira não gostava dessas ideias. Mas via em Kamal uma pessoa corajosa e fiel, e amava-o por isso. Enquanto ele discursava, ela tentava demovê-lo de seus planos.

– Você nem tem motivo para sentir tanto ódio, Kamal. Nada aconteceu com você ainda. Se alguém tem motivo aqui para se unir ao Hamas é Ahmed.

Mesmo ao ter seu nome mencionado na discussão, Ahmed não se manifestou. Permaneceu calado, com os olhos tristonhos voltados ao chão, como se não estivesse ali, a cabeça envolta em pensamentos. Era o mais novo dos três. Perdera toda a família durante uma invasão israelense há alguns anos atrás. Numa noite, soldados do exército invadiram sua casa e executaram seus pais, irmãos e irmãs. Não saberia dizer o porquê, nem recorda perfeitamente os acontecimentos daquela noite. Só se lembra de ter sido encontrado debaixo de uma cama e levado para longe de casa. Nunca mais viu nenhum de seus parentes. A família de Samira adotou Ahmed, e desde então ela tem sido sua irmã e protetora.

Diante do argumento de Samira, Kamal silenciou. Voltou os olhos para Ahmed, engoliu seco.

– Vamos à escola – Disse por fim. – Estamos muito atrasados já.

No caminho, Kamal permaneceu em silêncio, pensativo. Tinha uma missão importante para essa tarde, e sabia que Samira não aprovaria. Mas os três eram tão unidos, que se sentiu na obrigação de informá-la.

– Ouvi dizer ontem que explodiram um depósito perto da fronteira com o Egito. Parece que ele estava carregado de armas contrabandeadas. Hoje a tarde vou até lá ver o que encontro.

– O que? Você está louco? – protestou, Samira, enquanto seus olhos enchiam-se de lágrimas. – O que se passa por essa sua cabeça de merda, meu Deus? Você quer é encontrar um jeito de se matar, e não se importa com as pessoas que te amam!

Kamal não respondeu, apenas encarou, impassível, com seus olhos duros os olhos meigos de Samira.

– Eu vou com você – interveio de repente Ahmed.

Os dois voltaram-se para ele, incrédulos. Samira quis protestar, indignada, mas não conseguiu dizer nada. Kamal se sentiu culpado, não queria que ninguém se arriscasse por ele, muito menos seus amigos, mas obviamente respeitava a vontade de Ahmed.

– Então vamos – assentiu Kamal.

Samira, impotente, quis chorar, implorar, gritar, bater-lhes. Não viu, por fim, outra saída senão se juntar à expedição. Combinaram de se encontrar no portão de trás da escola após as aulas, onde Kamal havia amoitado picaretas e pás.

Já passara da hora do almoço quando partiram. Rafah, onde moravam, é uma cidade fronteiriça situada no sul da Faixa de Gaza. Entre ela e o Egito corre uma cerca alta, encimada por arames farpados, e coalhada de soldados armados até os dentes. A fronteira é estritamente controlada pelo governo egípcio, e o acesso entre os respectivos países é restrito. Depois da vitória do Hamas nas eleições, de sua subida ao governo e da expulsão dos moderados do Fatah para a Cisjordânia, o controle e a vigilância endureceu ainda mais devido às pressões de Israel, que considera o partido um grupo terrorista e teme pela segurança de seu país. Segundo o governo israelense, a fronteira em Rafah é a principal porta de entrada das armas que sustentam o Hamas. Cavam-se túneis clandestinos sob ela, e é por isso que a Força Aérea israelense frequentemente realiza bombardeios na região, a fim de destruí-los.

Kamal, Samira e Ahmed chegaram uma hora depois à rua onde ficava o depósito em que supostamente se escondiam as tais armas contrabandeadas. Espalharam-se sobre a montanha de escombros, que se estendia por quase todo o quarteirão, e puseram-se a escarafunchá-la aleatoriamente. De repente Ahmed encontra alguma coisa. Seus olhos, de ordinário macambúzios, tornaram-se curiosos e, por fim, maravilhados quando ele se deu conta que sob os escombros jazia uma pilha de livros.

– Mas... Mas são livros – balbuciou incrédulo, Kamal. – Porque Israel bombardearia um depósito de livros?

E, de repente, tudo fez sentido. A inteligência militar israelense havia se equivocado. Confundira contrabando de livros com contrabando de armas. Não era incomum que, sob o rígido controle fronteiriço, bens de consumo civis fossem barrados na alfândega. Acontecia até mesmo de itens alimentares esbarrarem na burocracia e estragarem esperando autorização para entrar em Gaza. O livreiro de Rafah, por essa razão, resolvera então se arriscar pelos túneis clandestinos, controlados pelo Hamas, o que teria levantado suspeitas de Israel. Afinal, não só armas passavam por ali, mas todo tipo de mercadorias.

Os três amigos passaram então os dias seguintes minerando o antigo depósito e recolhendo os livros como se fossem pedras preciosas. Com eles, montaram uma biblioteca nova na escola, que ficou sob os cuidados de Samira. Kamal esqueceu-se da guerra santa, e pensava agora em fazer faculdade. Segundo ele, existem outras formas de ajudar o seu povo. E Ahmed passava tardes e mais tardes na biblioteca, completamente imerso nas histórias fantásticas de reinos passados e distantes.

sexta-feira, 9 de agosto de 2013

Carta de alforria de um cidadão de saco-cheio

Por meio desta carta, faço saber a todos que estou partindo. Deixo esta vida miserável e aborrecedora para trás com o coração alegre e a consciência aliviada. Chega de escrivaninhas, arquivos, formulários, precatórios, protestos, petições, cartórios, protocolos, autos, despachos, embargos, mandados, processos. Chega de barba feita e cabelo impecavelmente alinhado. Chega de palavras de tratamento obsequiosas. Chega desta maldita gravata, deste sapato petulantemente engraxado, deste terno presunçoso, destas maneiras enfatuadas. Chega de jantares solenes, requintados, onde todos estão ocupados demais em pavonear-se para poderem ser sinceros de fato, blasonando um ar afetado de importância, como se fossem pérolas num mundo de porcos. É patético.

Enfim, chega desta vida vazia, de sorrisos falsos, de condutas simuladas, artificiais, de frases hipócritas. Esta carta é de alforria, mas podia ser de suicídio, porque vou tratar de matar minha antiga vida. Vou viver aquela que sempre sonhei, sem norte, indo aonde meu nariz apontar, com um violão debaixo do braço e um cachorro vira-lata ao meu lado. Nunca quis ser advogado, muito menos juiz. Formei-me em direito por razões exteriores a mim mesmo, aquiescendo às instâncias de meu pai, que era magistrado, tal qual o pai dele fora e assim por diante. À época, disseram-me que eu era ainda muito jovem, que não sabia nada da vida, que eles sabiam o que é melhor para mim. Agora, passados todos esses anos, não saberia dizer porque, uma vez satisfeito essa injunção, continuei pelo mesmo caminho, sem olhar para trás. Como foi possível esquecer-me de todos os sonhos de juventude? 

Não sei. Sei apenas que, num belo dia, acordei. Por acaso, enquanto vasculhava algumas caixas guardadas, ou melhor, esquecidas no depósito, deparei-me com um velho caderno dos tempos da faculdade, no qual escrevia crônicas e poesias, além de um diário. Era aí, no mundo das palavras e do papel, onde eu podia ser quem eu sou de verdade. Ler aquelas linhas preciosas foi como ter uma epifania. Me senti atordoado, como se tivesse levado um saco na cara. De repente, vi-me num emprego de merda, vivendo uma vida familiar de fachada, e neste dia compreendi que eu sou infeliz, que eu me tornei o que mais desprezava. Portanto, compreende-se que eu não possa mais continuar deste jeito.

Carla, é preciso que você saiba, agora que eu compreende tudo, que me casei com você por conveniência. Sempre achei que você era a mulher da minha vida, que havíamos nascido um para o outro, mas estava enganado. Casei-me contigo porque você tem sobrenome de alto preço, porque você advém de uma família tradicional, poderosa e influente sobre a vida política da região. Além disso, porque você é gostosa, formosa, o tipo ideal de mulher padrão. Você me vestia como uma roupa. Diziam que formávamos um casal lindo – estavam certos. Lindos por fora, podres por dentro. Sempre achei que os problemas conjugais que enfrentávamos eram normais, coisas pelas quais passa todo casal, e conosco não seria diferente. Enfim compreendi que existia algo além disso. Nunca compartilhamos nada exceto o apego à riqueza, ao prestígio, ao conforto e facilidades de quem vive na cobertura da hierarquia social. Mas não se preocupe. Deixo-lhe tudo o que você realmente ama: casa, apartamento, carros, ações. Para onde irei não preciso de nada disso.

Mãe, peço-lhe que, se possível, compreenda os motivos de seu filho, e se não for possível que ao menos o perdoe. Sei que, no fundo, a minha felicidade é o que mais lhe importa. Pai, sei que jamais ser-lhe-á possível sequer sentir o que eu sinto; não obstante, o que eu faço hoje, o faço por nós dois. Compraz-me cuidar que, se tivesse tido você esta oportunidade, agarrá-la-ia com o mesmo delírio que eu a agarro neste momento. Meus filhos queridos, no meio de toda essa desventura frustrada que é a minha vida, vocês foram a única coisa boa que me aconteceu. Por vocês eu faria tudo de novo; eu seria infeliz sem pesar apenas pelo fato de que essa infelicidade me deu vocês. Sem vocês nada disso teria valido a pena. Agora que já estão crescidos, deixo-os aos cuidados do mundo. Sei que me farão orgulhoso. Quanto ao resto da família, aproveito a oportunidade para manda-los à merda. Não me procurem. Por fim, aos funcionários do escritório peço desculpas por deixa-los desempregados, porém não sem antes agradecê-los na medida do possível: todos vocês terão uma agradável surpresa no próximo pagamento. 

Bom, creio que é isto. Hora de dizer adeus. Embora odiando a minha vida, amo as pessoas que fizeram parte dela. Entretanto, agora uma nova vida me espera. Com novas pessoas, novas histórias, novos amores, novas amizades. Como dizem por aí, o mundo é a minha concha. E dá próxima vez que cruzarem com um sujeito esfarrapado, aparentando fome embora de sorriso aberto e gratuito no rosto, tocando violão em troca de trocados, parem e deem-lhe um pouco de atenção, porque pode ser seu filho, seu pai, seu ex-marido.

quinta-feira, 1 de agosto de 2013

O nóia da vila

Na minha rua tem um nóia. Tem um nóia na minha rua. Um sujeito tão curioso que merece uma crônica. De fato, não se trata de um nóia convencional. Confesso que até pouco tempo não me condoía um nóia todo estropiado que por ventura encontrasse na rua. Condoía-me um trabalhador pedindo dinheiro, uma mãe portando uma criança à tira colo sem ter o que comer. Simpatizava-me mais com um bêbado esmolando uma dose de cachaça do que com um nóia.

Por falar em bêbado, lembro que, certa feita, necessitando de leda e fósforo, entrei num daqueles botecos fuleiros tipicamente frequentados por bêbados dos mais vagabundos e, antes de sair, fui abordado por um deles solicitando-me que lhe comprasse um corote. Não me fiz de rogado e mandei descer o corote pro tio. Não consigo descrever a alegria que ele sentiu diante de tão generoso auxílio para com um suicida – ou seria simplesmente por ter nas mãos o corote? Seja como for, o bêbado desdobrou-se em elogios à minha pessoa, e assegurou-me que eu era amigo dele de “mili ano”. Mas quando lhe pedi um trago, o sujeito fechou a cara no ato, olhando-me desconfiado enquanto afastava o corote puxando-o para o seu lado. Eu, indignado, retruquei: “porra, acabei de lhe comprar esse corote e você, mal agradecido, não vai me dar um trago?” Ao ouvir tal irreplicável argumento, o tiozinho desarmou-se e abriu um sorriso largo no rosto, passando-me o corote. E eu percebi que bêbados são capazes de compreender argumentos simples.

Mas voltando ao personagem principal desta história – o qual, sendo simplesmente nóia, não entra na categoria “nóia-alcoólatra” –, chamá-lo-emos de Honório, a fim de preservar-lhe a identidade verdadeira.

Como ia dizendo, na minha rua tem um nóia, mas não sou eu que o digo, é ele próprio. Segundo consta, no dia em que meu amigo e companheiro de moradia há sete anos mudou-se para a casa localizada na rua do nóia (antes de eu vir morar com ele), este acercou-se dele apresentando-se da seguinte maneira: “muito prazer, eu sou o nóia da vila”. Quando tomei conhecimento desse fato, meu conceito em relação ao Honório, confesso, subiu alguns bons degraus. Sujeito sincero, sem vergonha, íntegro. Tudo bem, íntegro já foi exagero e bondade da minha parte, mas sincero e sem vergonha ele é, e isso já faz dele um sujeito melhor do que muitos patrões, políticos e magistrados por aí. E isso porque Honório não tem vergonha de ser sincero, e é sincero porque não tem vergonha. Qualidade rara essa. Não lhe peja sua condição de nóia e vagabundo, condição que, aparentemente, foi escolhida livre e conscientemente por ele. Daí porque ele é um sem vergonha (no sentido que se diz às pessoas que não querem trabalhar). Em suma, o nóia da vila está muito bem resolvido com sua opção de vida, e vai muito bem como nóia, obrigado.

Não sendo trabalhador, resta-lhe pouquíssimas atividades com as quais arrecadar fundos a fim de sustentar seu vício. Uma delas é o furto. Mas Honório garante que não o pratica, e, a julgar pelo que eu vejo, sou levado a acreditar nele. Nada indica que o nóia da vila pertença à categoria “nóia-ladrão”. Na verdade, se fosse para enquadrá-lo em uma categoria específica, esta seria “nóia-empreendedor”, por mais estranho e curioso que isso pareça. Com efeito, Honório é praticamente um homem de negócios. Ele investe no setor de “bens descartados e achados na rua”. Seu negócio funciona da seguinte maneira: ele vaga pelas ruas da cidade atrás de itens velhos e/ou indesejados, descartados por seus donos, mas que podem ser reaproveitados por outros. Tal como um bom empreendedor, Honório farejou aí um mercado e deu entrada nos negócios.

Ele já me apareceu aqui em casa vendendo mercadorias das mais variadas espécies, desde revistas e livros, passando por LPs e CDs, até sapatos furados, carrinhos de controle remoto sem controle remoto e – pasmem! – garrafas de whisky sem whisky. Trata-se de um comerciante eclético, à semelhança dos antigos biscateiros, que iam de porta em porta oferecendo a última palavra em artigos para o lar. Eu, que tenho enorme dificuldade em falar não, já adquiri vários produtos desse inusitado comerciante, como dois sapatênis inúteis pela bagatela de dois reais. Mas já saí no lucro também. Por exemplo, a minha primeira aquisição foi uma mesa para computador em ótimo estado. Lembro quando ele me chamou à porta de casa e me perguntou se eu não estaria interessado. Fui com ele ver a tal mesa, meio desconfiado, imaginando que ao chegar lá não encontraria senão uma porcaria em estado deplorável, e qual não foi a minha surpresa quando me deparei com uma bela mesa cor mogno, praticamente nova. Ao apenas relar nela, entretanto, ficou claro que ela desmontaria com um simples sopro. Mas poderia ser consertada. Barganhei. Ele queria dez. Eu regateei e ofereci cinco. Ele meditou uns segundos e fez sua última oferta: seis – um real a mais para o cigarro, já que a pedra custa cinco. Achei justo e fechei negócio. E cá estou eu, escrevendo sobre a minha mesa cor mogno, que com uns preguinhos a mais ficou como nova.

Mas o que eu mais gosto de comprar mesmo do Honório são livros. Ele percebeu meu interesse e, agora, sempre quando acha livros na rua corre até mim para vendê-los. Tornou-se quase um fornecedor particular, um livreiro pessoal. Na maioria das vezes não me traz nada além de livros didáticos sem valor, ou livros referentes a áreas e temas completamente desinteressantes ou inúteis, entre eles, respectivamente, auto-ajuda e física da década de 50. E ele, como um bom vendedor, rapidamente inteirou-se a respeito dos meus interesses: ciências humanas, em geral, e, em particular, sociologia. Quando aparecia aqui com um livro para vender ia logo dizendo: “você que faz socialismo tem que ler este livro”. E, de fato, cheguei a adquirir um belo e conservado exemplar de Parceiros do Rio Bonito, de Antônio Cândido, junto com mais seis outros livros menos importantes por apenas doze reais. Eu ofereci dez. Ele, sabido, percebendo meu indisfarçável interesse, não fez por menos de doze. Bom negociante esse Honório. Teria dado um ótimo vendedor caso não tivesse entrado no mundo das drogas. Mas espere. Não é ele, de fato, um negociante habilidoso? Não é ele, efetivamente, um vendedor? Se você, caro leitor, entabulasse negociação com ele entenderia do que eu estou falando. Por exemplo, quando vai vender um livro, Honório lê o título com a mesma pompa de um intelectual erudito, cita o autor com o mesmo ar grave e solene com que um acadêmico cita um grande nome da sua área de estudo. Não dá para negar que fica-se com a impressão de que ele realmente sabe do que está falando.

Podemos não gostar de reconhecer isso, mas, com drogas ou sem drogas, o nóia da vila desenvolveu suas habilidades. Para ser sincero, já passei por muitos corretores de imóveis, lojistas de roupas, e nunca conheci um vendedor tão habilidoso como ele. Grosso modo, os vendedores não nóias fingem-se amigos íntimos de uma tal maneira que a artificialidade da encenação desagrada e aborrece o potencial comprador. Já o Honório não; é espontâneo, natural. Além disso, ele desempenha outra função social, de fundamental importância, que deve ser sublinhada: reciclador de lixo. O que é lixo para alguns, é mercadoria para outros, e dinheiro para Honório. O que ele faz com esse dinheiro, meros trocados, não interessa: se é comprar comida para uma criança ou se matar de fumar pedra. E não interessa mesmo sabendo que esse dinheiro vai ajudar a sustentar não apenas o vício de Honório mas também o tráfico de drogas. O problema do consumo de drogas e do crime organizado é muito complexo para ser tratado aqui. Digo apenas que não é evitando dar dinheiro a pessoas como Honório que a situação vai mudar. Ademais, quem acha que o burguês não consome drogas do crime organizado é muito burro ou muito inocente. A diferença é que burgueses viciados não enfrentam o estigma que recai sobre viciados pobres.

Não quero, com este texto, erigir em mártir ou modelo o meu vizinho nóia. Creio que, por óbvio, nem precise argumentar aqui que ele é parte de um enorme e complexo problema social para o qual devemos encontrar soluções radicais. Tampouco é preciso lembrar o sofrimento que ele suscitou nas pessoas que o amam. Preferia que, ao invés de nóia, Honório fosse um trabalhador esforçado e responsável. Só que neste mundo nem sempre é possível ser correto e fazer o que todos esperam que a gente faça. Escrevo essa crônica apenas para lembrar que pessoas como Honório são seres humanos como nós, com uma história de sonhos, tristezas, alegrias, e que, por mais fodidas que elas estejam, por maior que seja a cagada que fizeram com suas vidas, nem por isso deixaram de ser humanos. Tendo a acreditar que nada pode extirpar completamente a humanidade de alguém, nem mesmo uma droga como o crack. Honório é exceção, eu sei. Ele sustenta seu vício legalmente com criatividade e espirituosidade. Mas o que a sua história coloca em questão não é a capacidade humana de preservar a todo custo a sua humanidade, e sim o nosso olhar sobre pessoas como Honório, que cometeram erros, que não tiveram oportunidade, que não foram fortes para não se extraviar pelo caminho, e como esse olhar, de indiferença e estigma, ajuda a perpetuar histórias como a do Honório, o nóia da vila.

sábado, 27 de julho de 2013

A cirurgia

“O que é mais ridículo: um corpo feio ou a busca obsessiva por um corpo ideal?”, perguntou-se Carolina, num assomo de lucidez que raramente lhe ocorria. Pode-se ignorar a consciência, mas não é possível suprimi-la. E a lucidez é uma arma que o instinto lança mão quando ameaçado por algum perigo iminente.

Instintivamente, o corpo de Carolina buscava preservar-se da agressão que ela, voluntariamente, lhe faria. Afinal, não havia fundamento racional naquilo. Não havia necessidade médica para submeter-se a uma operação de risco daquele tipo; ao contrário, o risco estava precisamente em submeter-se a ela, sem mencionar o lento e penoso processo pós-operatório de recuperação. Seu médico não lhe desaprovara a decisão; como parte de seu papel de médico, contudo, havia-a colocado a par de todas as consequências possíveis implicadas nessa decisão. Naquele momento, Carolina fizera ouvidos moucos às suas palavras, obsedada como estava em emagrecer. Agora, encolhida ali naquela cama de hospital, à uma hora da cirurgia, ela sentia muito medo, e se perguntava se fizera a escolha certa.

Postado no alto, à sua frente, o relógio se arrastava lenta porém inexoravelmente. Ao seu lado, jaziam flores num vaso; votos de boa-sorte. No entorno, um silêncio de morte e aquele odor característico de hospital ressudando por toda parte. Alguém passou em prantos pelo corredor, enquanto, inconsolável, consolava-lhe um ombro amigo. Carolina sentiu a espinha gelar. O que diabos fazia ela naquele lugar?

Tentou resgatar na memória seus motivos, a fim de justificar a si mesma que não era a toa que submetia-se àquele sacrifício voluntário. Ora, que melhor motivo teria do que o fato de ser gorda? E, além de gorda, era baixinha, atarracada, cujos membros roliços pareciam saídos daqueles espelhos fanfarrões dos parques de diversão. Não era como os de algumas de suas amigas, delgadas e esbeltas, cujos braços pendiam suavemente dos ombros elegantes. Detestava sua bunda, seios e coxas. Da barriga, então, é melhor nem falar.

Desde quando, ainda criança, começou a dar atenção às suas formas, e a compará-las com as de outras mulheres, sobretudo às daquelas que a tevê exibe radiantes, Carolina sentia-se horrivelmente feia, desajeita, nada atraente. Conforme crescia, crescia também essa sensação, ao ponto de não poder sair de casa senão com roupas que disfarçassem os quilos em excesso. Comprar roupas lhe pareceu sempre um pesadelo, não uma diversão. Ficar de biquíni em público, então, nem pensar. Apenas a ideia lhe causava vertigem. A adolescência, fase da insegurança por excelência, fora particularmente angustiante. Carolina precisou de psicólogos e remédios para conseguir levar uma vida minimamente normal. Em partes, conseguiu superar o trauma, mas a obsessão com o próprio corpo calou fundo em sua alma.

E o diabo é que Carolina possuía um lindo rosto. Só que, assentado sobre seu volumoso corpo, como se fosse uma cereja apetitosa sobre um bolo disforme, ninguém parecia notar. Ou melhor, antes perscrutavam seu corpo para somente depois reparar-lhe o rosto. Superada as crises da adolescência e conquistada certa segurança e autoestima, Carolina mostrava-se uma pessoa extrovertida, carismática, traço herdado da infância e nunca completamente abafado. Agora, aos quase trinta anos, quem a conhecia logo se encantava com aquele seu sorriso largo. Mas a impressão inicial, baseada em seu corpo, ficava sempre pairando no ar, inscrita nas expressões faciais traídas dos interlocutores, ou assim Carolina imaginava. Embora se considerasse uma pessoa feliz, sentia como se faltasse alguma coisa para o quadro completar-se, algo de indefinido. E era esse vazio que ela pretendia preencher com a operação de redução de estômago.

Agora restava apenas meia hora. Logo a enfermeira adentraria pela porta para levá-la à sala de cirurgia. Enquanto isso a tensão aumentava, fazendo Carolina transpirar pelas mãos e seu coração palpitar desordenadamente. Virou o rosto de lado, procurando com os olhos os olhos da amiga. Deu com eles ternos e apiedados. Esta imaginava o que se passava pela cabeça de Carolina, e sentia pena dela por isto. Mas uma amiga é uma amiga, e por mais que discordasse da decisão de sua decisão, respeitava-a e, como não havia meios de demove-la, apoia-la era o que lhe restara. Ademais, como ela, que estava casada e feliz, poderia condenar a amiga, que nunca havia namorado na vida, por tomar tal decisão drástica? Uma amiga não substitui um companheiro, e jamais substituiria. Se Carolina achava que este era o meio para alcançar a felicidade, tornando-se mais atrativa aos olhos das pessoas, então que assim seja.

Às dez horas em ponto a enfermeira apareceu, acompanhada pelo médico, um sujeito grisalho de meia idade. Ministrada as últimas informações à paciente, com eles lá se foi Carolina. Sua amiga permaneceu alguns minutos a mais no quarto, arrumando seus pertences e deixando-o à espera de Carolina para quando esta regressasse com o estômago reduzido a um copo de café. Dali em diante, adeus aos prazeres gastronômicos da vida. Sua alimentação teria de ser rigidamente controlada, tanto em termos de quantidade, quanto de qualidade e de horário também. Carolina ficaria refém dele para o resto de seus dias, sendo que, ainda por cima, não havia garantia de que ela não voltaria a engordar. Em tese, este tipo de operação deve ser feito como última opção, e jamais com fitos puramente estéticos. Quando se têm dinheiro para pagar, entretanto, as prioridades se invertem, e não é difícil obter o serviço de médicos renomados. Carolina não era rica, mas também não era pobre, e com alguns sacrifícios financeiros foi-lhe possível juntar o dinheiro necessário.

Em três horas apenas Carolina estava de volta ao quarto. Dera tudo certo. Em três dias sairia do hospital, caso tudo corresse bem. E logo poderia voltar à sua vida normal. Mas nada seria como antes. Não apenas porque fisicamente fora alterada. Nem porque seus hábitos alimentares tivessem de ser drasticamente disciplinados. Antes porque sentia que as mudanças externas refletir-se-iam internamente. Com um corpo esbelto, aquele vazio desapareceria, aquela sensação de falta sumiria. Sentir-se-ia mais confiante e desenvolta. Olhar-se-ia no espelho sem raiva ou medo, mas com satisfação e prazer. Usaria as roupas que quisesse. Acima de tudo, as pessoas a olhariam de outra forma, com outros olhos. Não como antes, quando, ao entrar num ambiente público qualquer, podia sentir os olhares de repulsa a pesar sobre ela como chumbo, fazendo-a inevitavelmente evitar encará-los de frente, restringindo-lhe os movimentos por medo de dar qualquer motivo àqueles olhares inquisidores que pareciam dizer: “gorda asquerosa”, “para de comer, sua gorda”, “deve ser virgem, essa jamanta”. Quem sabe agora tivesse coragem até mesmo para abordar um homem solitário nalguma mesa de bar. Ou quem sabe algum homem solitário a abordasse num bar qualquer. Quem sabe? Carolina, satisfeita, sonhava com a vida feliz que o futuro lhe reservava, agora que entraria no mundo maravilhoso das pessoas magras.

segunda-feira, 22 de julho de 2013

Eu cago, tu cagas, nós cagamos: um outro olhar sobre a merda

Cagar é a ação vital mais prosaica que conhecemos, talvez até mais do que a ação de comer. Não é correto que o trivial, as coisas prosaicas da vida, devam ser descuidadas, olvidadas, desvalorizadas. Ora, comer é uma banalidade, algo que cumprimos religiosamente (quem tem, ao menos, condições), e nem por isso descuidamos das nossas refeições, ou comemos de mal gosto, tão-somente para matar a fome. Comer é um prazer, e a gastronomia está aí para nos lembrar que se trata, também, de uma arte. Pois bem, cagar também é um prazer e uma arte. Porque então essa desvalorização da merda? Porque essa negligência toda ou ojeriza em relação ao ato de cagar? É claro que no dia-a-dia a necessidade de alimentar-se é feita sem grande pompa. Não obstante, ao menos uma vez por semana queremos comer bem, preparar aquele almoço caprichado, sair para comer fora, de preferência com os amigos ou a família. Porque o ato de cagar não recebe o mesmo tratamento? Porque não temos o costume de, por exemplo, cagar fora? Eu, pessoalmente, adoro cagar fora. Na casa de amigos, no banheiro da faculdade, do consultório médico. Não existe banheiro melhor para dar uma bela cagada do que o de shopping. Aquele mármore reluzente, aquela temperatura amena, tudo muito asséptico e clean, é um convite para me demorar sobre o vazo. Ainda que eu não esteja com vontade, faço uma forcinha para não desperdiçar a oportunidade.

E o contrário é verdadeiro também: nada mais terrível do que, premido pelo chamado da natureza, ter de cagar num banheiro asqueroso, empoçado de mijo, sem papel higiênico, cuja porta não tranca. Nessas horas, quando não tem outro jeito, o jeito é bancar o malabarista: cagar sem relar as coxas no assento, as calças arreadas porém sem encostá-las no chão, com uma das mãos segurando a camisa enquanto a outra mantém encostada a porta do banheiro. A parte difícil mesmo, o último truque do malabarista, acontece na hora de se limpar, quando se tem de fazer tudo isso e ainda manusear o papel higiênico. E olha que, ainda assim, deve-se agradecer, porque pior do que isso é ter de cagar na rua, especialmente numa hora movimentada do centro da cidade. Antes de deixar chegar a esse ponto, meu amigo, não tenha vergonha: bata de porta em porta implorando pela solidariedade alheia. Mais vale uma cagada tímida num banheiro alheio, do que uma cagada desbragada na calçada. Só quem já passou necessidade, carecendo de uma privada, sabe o valor que ela tem, e por isso não recusaria a privada nem ao seu pior inimigo.

O ponto é que cada lugar, ou seja, cada banheiro e cada privada diferente, dá uma sensação especial. Tem lugar que a gente quer cagar o mais rápido possível e sair dali. Tem outros que a gente quer se demorar, deixar o tempo passar, esquecer o mundo que se desenrola para além da porta do banheiro. Por exemplo, cagar também é um ótimo meio de burlar o trabalho. Mesmo aqueles que costumam cagar ligeiro, aproveitam a deixa para relaxar. Cagar no trabalho é tão bom quanto fazer aquele intervalinho para fumar um cigarro. Para quem não fuma, resta o cocô. O ruim é quando não é possível sair para cagar. Aí é melhor cagar antes de sair de casa mesmo, porque ficar se contorcendo para segurar a merda que luta para vir ao mundo é um sofrimento só. Os peidinhos liberados na encolha durante esta batalha, à semelhança de uma válvula de escape, não são o bastante. E, de qualquer maneira, ninguém gosta de ficar brigando com os próprios intestinos. Ainda que em cada lugar e em cada banheiro a sensação da cagada seja diferente, não resta dúvida de que a melhor de todas consegue-se no conforto e segurança do próprio lar. Quando se trata de privada, o adágio popular segundo o qual a grama do vizinho é sempre mais verde não vale. Nada melhor do que a nossa privada, já amaciada e adaptada anatomicamente.

E porque esse medo da palavra “cagar”? Enquanto eu escrevo, o corretor automático do Office incansavelmente fica a me sugerir que eu substitua a palavra cagar pela defecar. Não, é cagar mesmo! Quem é que defeca neste mundo? Todo mundo caga! Alguém por acaso diz: “me dá licença, vou defecar”? Aliás, a maioria das pessoas não diz, de fato, nem um nem outro, e sim: “vou ao banheiro”. Faz-se muita coisa no banheiro, como banho, sexo, punheta, barba, cílios, maquiagem; entre elas, faz-se cocô também. Qual o problema em ser mais específico? E não vale dizer: “vou ao banheiro fazer o número dois”, exceto se você tiver até 12 anos no máximo. Tirando a sinceridade cômica que vige entre amigos íntimos, só os mais audazes e subversivos dizem sem rebuços: “peraí que preciso dar uma cagada”; ou contam desenxabidamente sobre suas histórias fecais para qualquer um. 

Percebe-se que existem mil maneiras de referir-se ao ato. Cagar, defecar, obrar. Podemos referir a ele, também, por metáforas: cortar o rabo do macaco, chapiscar o azulejo, passar um fax, ligar a máquina de churros, etc. E essas várias maneiras não são casuais, tampouco neutras; remetem a ideias construídas socialmente a respeito do significado e da natureza da ação de cagar. Não à toa, associamos essa ação a coisas ruins, desagradáveis, sujas, enquanto a ação de comer, que não existiria sem a ação de cagar e vice-versa, associamos a coisas boas, limpas, saudáveis. Como pode duas ações que só existem em relação entre si, jamais separadas, serem valorizadas de forma antagônica, como se uma fosse a antípoda da outra. Comer remete a saúde, cagar remete a doença. Será que não percebemos a contradição? Cagar é uma condição de saúde tão importante e necessária quanto comer. Quem já ficou semanas sem conseguir cagar (na linguagem popular, “ficou ressacado”) que o diga. Não é o meu caso, que cago muito bem obrigado. Mas parte expressiva da população, submetida a uma dieta rica em gordura e pobre em fibras, sofre diariamente com a dificuldade de cagar. Neste caso a culpa pela saúde ruim é do comer e não do cagar. E é a coitada da merda que leva a fama de ser imunda.

E existem mil maneiras de referir-se não apenas ao ato em si, mas também a algo através dele. Quem diz “tô cagando e andando para isso”, quer dizer que está pouco se importando com determinada coisa. Para transmitir um sentimento de medo podemos dizer: “quase me caguei todo”. Se você quer ofender uma pessoa, chame-a de merda ou bosta. E se você quer que ela se foda, sem, contudo, ser tão agressivo, pode dizer: “vai cagar”. E não esqueçamos que muitos discursos preconceituosos são muitas vezes construídos com base na ação de cagar, por exemplo, associando a cor da pele dos negros ao tom da merda. Quando alguém aludir ao ato de cagar através de expressões tais como “vou botar o Pelé para nadar”, “vou inscrever o Robinho na natação”, repudie-a taxativamente, e esclareça-a respeito do conteúdo racista de sua declaração. Podemos e devemos nos divertir com nossos excrementos sem sermos preconceituosos com isso. No mundo queremos, sem preconceito de qualquer espécie, não há espaço para fezes e ignorância ao mesmo tempo, ademais porque uma merda é precisamente a ignorância.

Ao parolar tão tranquila e naturalmente sobre o ato de cagar, pode parecer que eu mantenha com ele uma relação menos pudica do que a maioria das pessoas, mas não. Eu também tenho meus pudores, claro. Fomos criados para ser assim, para ter nojo, não apenas da merda, mas também de toda excreção corporal. Quando cago em lugares públicos, como no banheiro de um shopping, para retomar este exemplo, eu tento controlar ao máximo meu esfíncter para emitir menos barulho possível. Não me sinto confortável sabendo que as pessoas estão ouvindo a merda que cai do meu cu, especialmente quando a merda vem acompanhada de flatulência trovejante. Às vezes não tem jeito, definitivamente. A bosta vem com tal furor e intempestividade, como um tsunami, que arrasa tudo em seu caminho, fazendo um estrondo característico quando vem à luz. A pestilência espalha-se imediatamente e toma de assalto todo o ambiente. Fico imaginando o que passa pela cabeça das pessoas ao redor que têm a oportunidade de presenciar esse fenômeno da natureza. Já aconteceu de eu rir abertamente numa situação dessas, sem poder, naturalmente, explicar-me a elas. Como não rir de algo tão cômico? Aliás, cagar e peidar são uma espécie de piada fisiológica que o nosso corpo nos conta. Deixemos, portanto, de torcer o nariz, e botemos de parte nosso aversão pela merda, sobretudo em relação a da juventude, uma vez que sua repressão é uma das causas principais da sisudez adulta.

No entanto, se esse tipo de cagada é ruim de fazer em público, ele é talvez o melhor de fazer na privacidade total. Só a cagada-tsunami fornece alívio imediato e dá aquela inigualável sensação de bem-estar. Às vezes chega-se mesmo a emitir involuntariamente um gemido de prazer. Talvez por isso também nos referimos ao ato de cagar como o ato de “se aliviar”. Considere, por exemplo, a raiz etimológica da palavra “enfezado”. Ela vem de fezes, e significa, literalmente, “pessoa cheia de fezes”. Por óbvio, uma pessoa prenhe de fezes é uma pessoa irritada, daí a derivação do verbo “enfezar” como “zangar-se”. Portanto, cagar é um prazer. Mas nem sempre. É irritante e frustrante quando se caga à prestação, bolinha por bolinha, como uma cabrito, ou quando a merda sai maior que a encomenda exigindo demais das pregas do cu. Isso para não mencionar a diarreia, ou outras manifestações anómalas da cagada. De meia em meia hora toca acudir ao banheiro, com aquela terrível sensação de que qualquer peidinho mal liberado pode redundar em tragédia (e quem já não foi vítima de uma?). Por isso, o ideal é que a merda esteja no meio-termo, equilibrada, nem mole nem dura demais, nem grande nem pequena – se bem quem conheço mais de uma pessoa que contam vantagem de cagadas de magnitudes supostamente colossais. Assim como as histórias de pescador, as de bostas épicas também são lendárias. Um ou outro registra a obra em vídeo ou em foto para provar, para o Guinness se preciso for, que não se trata de lorota de pescador, quer dizer, de cagador.

Desculpe-me se lhe parece intimidade demasiada escrever uma crônica sobre o ato de cagar. Mas esse é também um texto político. Faço aqui uma apologia à boa cagada; tento resgatá-lo da infâmia fisiológica à qual foi relegada pelo homem moderno. Se você se ofende com essas palavras é porque é presa, justamente, dessa moral que reprime a merda, que resseca os intestinos e que faz do cu um pecador. Daí a necessidade de um libelo pela liberdade de cagar! De um manifesto contra o recalque fecal! Em todos os sentidos, essa crônica é um laxante em palavras. Chega de se envergonhar ao sentir prazer cagando! Chega de tergiversar sobre o assunto nas conversas de família! Chega de mentir e esconder as trágicas e/ou cômicas memórias de cagadas insólitas! Afinal, todo mundo caga, não caga? Eu, você, minha avó, o Papa, a princesa Kate Middleton. E cagam tão fedido quanto! Cagar é o ato socialista por excelência, a expressão literal do princípio de igualdade que ensejou as duas maiores revoluções que esse mundo já presenciou, e que consta na Carta dos Direitos do Homem e do Cidadão: na hora de cagar, todo mundo é igual, ricos ou pobres, celebridades ou anônimos.

Dito isso, deve-se observar, por outro lado, que, se a cagada é, em si, uma necessidade universal, tal qual a bosta feder, as circunstâncias em que o ato acontece são diversas, e inúmeras são as variáveis que influenciam sobre elas e sobre o resultado final, ou seja, a merda. As variáveis mais importantes são sociais e culturais. Entre as sociais, sabe-se que o rico caga num verdadeiro trono acolchoado, limpa-se com papel mais macio que veludo (não fosse algo embaraçoso, ele pagaria uma doméstica para fazer o serviço por ele), e tem à disposição perfumadores de ambiente para que não venha a ter o desprazer de inalar o odor de sua própria criação. Já o pobre está condenado a cagar em banheiros mal iluminados, com privadas nodoadas e rústicas, cuja caixa-de-descarga muitas vezes não dá conta do serviço, obrigando-o a recorrer ao trabalho extra de buscar água no balde para arrematá-lo. E não esqueçamos do tipo de papel barato, que mais parece uma lixa de parede, com que o pobre é obrigado a limpar a bunda, quando não lhe resta apenas o jornal puro e simples. Para o pobre, essa já é, seja dito de passagem, uma condição razoável, porque há miseráveis que só Deus sabe como cagam (até porque não comem nada para ter o que cagar depois). No sertão nordestino, por exemplo, o banheiro é o arbusto, não tendo o sertanejo uma folha de bananeira sequer à disposição para limpar a bunda. E aqueles banheiros antigos das casas de fazenda, que ficavam separados da sede? Imagina quão aborrecedor não deveria ser acordar no meio da noite para cagar! E isso me faz lembrar as privadas de cadeia, que os detentos chamam de “boi”. Não há separação nenhuma entre elas e as celas. Coitados dos presos recém-chegados que, à mingua de conceito com o resto da bandidagem, tem de dormir no pior canto da cela, ou seja, ao lado do boi.

Cagar dá pano pra manga. Poderia discorrer eternamente sobre o assunto. Faltou falar, por exemplo, dos tipos de cagadores. Tem aqueles que negligenciam o ato, ou têm de cagar várias vezes ao dia, de modo que mantêm com ele uma relação quase protocolar, formal. Tem aqueles tipos intelectuais – categoria na qual eu me enquadro – que não conseguem sentar-se à privada sem um texto em mãos, e, na falta de um, são capazes de ler o rótulo de xampus e pastas de dentes. Tem aqueles que só cagam de manhã, e aqueles que não podem sentir o cheirinho de café sem uma privada por perto porque a vontade bate forte. Tem casais que cagam juntos, outros ainda não chegaram a tal nível de intimidade. Pois é, cagar dá pano pra manga. Tanto, que, ao invés de dizer “cagar dá pano pra manga”, poderíamos dizer – se mantivéssemos uma relação mais natural e menos recalcada com as nossas fezes – “cagar dá bosta pro cu”. E aqui entra em cena o cu, mas aí já é outra história. Fica pra próxima crônica.

sábado, 20 de julho de 2013

A aldeia

A nossa aldeia fica numa região de magnífica beleza natural – que vocês chamariam de região remota do território brasileiro. Cortada por rios que nos abrem caminhos e nos fornecem alimento – que vocês costumam comparar a estradas e/ou geradores de energia. Cercada por rica e preciosa fauna e flora – e que vocês veem como simples ativos econômicos. Alguns de vocês dizem que a civilização ainda não chegou por estas bandas, e que é preciso ou impedir a sua eventual chegada, ou nos integrar harmoniosamente a ela. Outros dizem que ela chegou, fazendo de nós tão capitalistas quanto o resto do Brasil e que, por isso, não podemos ser tratados diferentemente dos demais brasileiros conforme um estatuto especial. Compreendo que o termo “civilização”, o qual vocês usam para referirem-se a si mesmos, é bastante etnocêntrico. Ora, também somos uma civilização. O problema é que a vossa civilização não consegue conviver com a nossa. Diferentemente do que dizem muitos de vocês, a (sua) civilização chegou sim até estas bandas, assim como chegou a cada rincão deste mundo, mas, tal como Jano, ela tem duas faces, e a nós mostrou apenas a face mais perversa. Sua chegada, entretanto, não anulou a nossa civilização, embora tenha corrompido-a completamente. Os mais velhos quase não se reconhecem mais nos mais novos. A tradição foi, hora pra outra, destruída. Eu pertenço a essa nova geração, e discordo em muita coisa do que pensam os antigos. Queremos ser tratados como todo brasileiro da cidade grande, e ter garantidos os mesmos direitos; queremos ter assistência médica, acesso à educação, condições de vida descentes para sustentar nossos filhos; não queremos nada mais do que a lei garante e a cidade oferece. Eu, pessoalmente, sonho em fazer faculdade, quero me formar em medicina. Contudo – e neste sentido faço coro com os mais velhos –, apenas não queremos ter de abrir mão da nossa cultura; não queremos que isso signifique o fim das nossas tradições, dos nossos ritos, costumes e crenças. Vocês estão errados quando dizem que somos atrasados, quando afirmam que, para nos integrar, para nos tornarmos um de vocês, temos de abrir mão de tudo aquilo que faz sermos o que somos.

Nossa aldeia já passou por muita coisa, já teve muitos inimigos e já enfrentou muitas guerras. Mas vocês são de longe o inimigo mais temível. E temo que não podemos ganhar. Já nem é possível mais recordar o tempo em que tínhamos por inimigo apenas a tribo do litoral. Isso foi há muitas e muitas luas atrás, antes de vocês de chegarem. Quando vocês apareceram, vieram doenças, guerras, fome, escravidão; sem mencionar o genocídio cultural empunhado na ponta da cruz. Mas isso também foi há muito tempo; antes mesmo de nascerem os anciãos da nossa aldeia. Relativamente, tivemos sorte. Enquanto milhões dos nossos irmãos desapareceram da face da Terra, mortos ou absorvidos por vocês, permanecemos aqui, preservando na medida do possível o nosso modo de vida. Agora chegou a nossa vez. É hoje que enfrentamos a maior ameaça, que travamos nossa maior guerra. Primeiro foi a colonização, nos anos 70, que trouxe grileiros e latifundiárias para cá. Junto com eles vieram o gado e as madeireiras. Depois foi a soja. À medida que roubavam nossas terras, nossa terra sagrada, ancestral, íamos sendo cada vez mais empurrados para pequenos espaços que vocês chamam de reservas – reservas, como se fôssemos animais em extinção (aliás, a palavra “animal” não tem para vocês o mesmo significado que tem para nós). Pois bem, essas “reservas” não são suficientes para sustentar nosso modo de vida. Quase não caçamos mais, e nossas roças mal dão para a subsistência. Vivíamos muito bem até isso tudo acontecer; vivíamos na fartura, mas agora vocês olham para nós e dizem que somos indolentes, que nosso modo de vida é pobre e precário. Não costumava ser assim. Agora dependemos da ajuda do governo para sobreviver. E nem preciso dizer-lhes que o vosso governo pouco ou nada olha por nós.

Infelizmente, isso não é tudo. A mais nova ameaça vem de construtoras, empreiteiras, grupos de investidores, que lograram um bom negócio levantando hidroelétricas no meio da floresta amazônica, entupindo suas veias e derramando seu sangue na forma de lagos tão grandes quanto pequenos oceanos. Vão levantar uma próxima daqui, e nossa terra será inundada, restando apenas um exíguo espaço para onde transladaríamos a aldeia, que, segundo o consórcio construtor, seria de alvenaria, teria água encanada e luz instalada. No começo, todos ficamos empolgados com a boa-nova. Achávamos que a tal da civilização de vocês havia chegado trazendo, enfim, outra cousa que não a humilhação, a dor e o sofrimento. Disseram-nos que construiriam escolas para nossos filhos, hospitais para nossas famílias. Prometeram mundos e fundos, e a maioria do meu povo, exceto os mais velhos, que sabiamente permaneceram céticos, foi arrastada pela mesma doença da qual sofrem vocês: a ganância. E não me refiro ao sonho de uma vida melhor, mais digna. Não preciso lembrar-lhes a situação precária em que vocês nos deixaram. Refiro-me à ganância pura e crua pelo dinheiro e por luxo. Porque se a água, a luz, as escolas e hospitais só ficaram no papel, o consórcio nem pestaneja quando se trata de nos comprar com bugigangas que vão desde pick-ups a celulares e notebooks. Como o governo não fiscaliza o consórcio para que ele cumpra as contrapartidas sociais em compensação aos impactos decorrentes da obra, ele negocia diretamente conosco porque é muito mais barato nos dar bens de consumo do que construir e manter uma infraestrutura para que nos sustentemos sozinhos. Mas como todo bem de consumo acaba, uma hora tudo isso acabará e nos veremos sem nada novamente, numa condição ainda pior do que nos encontrávamos. Seria esta uma versão contemporânea da burla com que os vossos antepassados lograram os nossos?

De qualquer forma, ela tem funcionado. As mercadorias e o dinheiro que invadiram a aldeia têm divido as famílias, ensejado querelas e disputas, fomentado a discórdia. Nem em meus piores pesadelos imaginaria um modo tão fácil de nos corromper. Ninguém trabalha mais, vivemos dos presentes. Nosso único trabalho é ir à cidade cobrar do consórcio mais e mais presentes. O cacique, responsável por esse trabalho, está enriquecendo, e todos estão desconfiados. Circulo pela aldeia e vejo tevês sintonizadas em programas que exibem, como uma vitrine virtual, imagens da opulência em que vocês vivem, da alegria e festa que é a vida de vocês. Na cidade grande tem bares, restaurantes, cinemas, shoppings, condomínios, clubes. Fico imaginando se todos vocês vivem assim mesmo. Não importa, isso tudo seduz o meu povo. A nossa aldeia está, de fato, diminuindo, e ninguém sabe se se extinguirá um dia. Os jovens estão todos a abandonando e indo para a cidade para fazer a vida, como vocês dizem; sonhando com glamour e conforto. Assistem à tevê, vêem a caminhonete 4X4 turbo que nosso cacique dirige, os computadores, etc., e cuidam que, se isto é só um pequeno gostinho do que a civilização de vocês pode oferecer, seria burrice continuar ali, naquele fim de mundo, vivendo uma vida atrasada. Quando chega notícia de algum jovem índio lá na capital, elas não são muito animadoras. Mas como está a maioria empregada, ganhando um salário mínimo, dizem que não querem voltar, que é melhor assim, e o ciclo de ilusão recomeça. Ironicamente, muitos dos que saíram da aldeia por causa da barragem agora trabalham nela, ajudando a construí-la. Os que ficam se entregam à bebida ou à vagabundagem. Quase ninguém mais liga para os rituais, para os costumes e práticas, como se eles tivessem se tornado, dum dia para o outro, bobagem, tolice de índio. Os mais velhos estão desolados.

Olho para esses jovens que agora escutam músicas estranhas, pintam o cabelo e o cortam a la Neymar; que usam roupas diferentes, coloridas e com palavras estranhas, e me pergunto como tudo isso aconteceu. Foi tudo tão rápido, nós nem vimos acontecer. Existe esperança, no entanto. Ficamos sabendo que existem outras aldeias na mesma situação, e elas estão se organizando para lutar contra isso tudo. Pessoas do mundo de vocês também estão conosco, organizando-se e ajudando-nos a se organizar em coletivos e movimentos sociais. Um dia até paramos as obras da usina, e vamos parar novamente. Quantas vezes for necessário. Já até declaramos guerra ao governo federal, fizemos documentários, realizamos congressos, fomos ao exterior denunciar o que acontece aqui. Agora sabemos que é possível fazer diferente, é possível mudar o sentido das coisas. Não desistiremos; resistiremos. Ou nos tratam com dignidade e respeito, ou podem enterrar-nos aqui mesmo.

sexta-feira, 14 de maio de 2010

A solidão e a rua


Uma pessoa caminha solitária pela rua. Presumi-se que a noite esteja iluminada. Ela não saberia dizer em que fase a lua está.

Com passos mecânicos, caminha em direção ao ponto de ônibus. Por um momento detêm-se defronte a uma vitrine onde, por poucos instantes, sonha com um conjunto de blusa e saia. “Apenas 59,90”, observa. Segue em frente.

Uma viatura policial passa apressada e quebra o silêncio. A prostituta parada à esquina assusta-se. Logo atrás alguns jovens mexem com ela.

Seus pensamentos caminham ao lado. Pari passu. Não consegue livrar-se deles. Ela acelera o passo, mas eles lhe acompanham paralelamente. É inútil.

O relógio eletrônico prostrado no meio da rotatória aponta uma e meia da manhã. É hora de partir. Sempre é hora de partir.

Automaticamente ela prognostica o dia de amanhã em sua mente. Será basicamente igual ao de hoje. Não muda nada. Nunca muda nada.

Num relampejar a mãe vem-lhe à cabeça. Como estará? Ela andava se queixando de dores no peito. Queria vê-la. Queria deitar a cabeça em seu colo protetor.

Seus pensamentos são interrompidos por uma dolorosa visão: uma família inteira deitada ao relento, dividindo trapos e fazendo-os de cobertor; tentavam se unir para debelar o frio da noite.

Ela para por alguns instantes. Seus pensamentos enfim somem à esquina.

Anda em direção à família. Todos a olham perplexos. Nunca ninguém havia se dirigido a eles. Ela não diz nada. Observa-os detidamente, como quem aprecia a tristeza da solidão. Sem dizer nada, a moça senta ao lado da mãe, puxa parte do cobertor sobre si, aninha seu corpo contra o dela, a cabeça põe aconchegada contra o peito da mulher, e dorme.

Amanhã tudo será diferente.

domingo, 27 de dezembro de 2009

Dias mortos

Naquele dia ele acordou meio confuso, incapaz de distinguir a data que nascia pela manhã. Foi direto a cozinha e tomou um copo d’água gelado. Olhou ao seu redor e, sem grande surpresa, constatou que este era um dia como qualquer outro. Os pássaros cantarolavam cantigas urbanas esgarçadas, o sol tocava morno o solo ainda úmido pela madrugada, seus cachorros atracavam-se como de costume.


Ainda sonolento, encheu a leiteira com água e a pôs sobre o fogo para fazer café. “Mas que diabos”, pensava, “alguma coisa está errada!”. Mas não havia absolutamente nada de errado, tudo estava impecavelmente organizado e limpo. “Exatamente!”, deduziu, “eis o quê está errado”. Pois estaria certo em seu pensamento? Talvez sim posto que ele não fosse um homem lá muito organizado e limpo. Na verdade, sua casa vivia eternamente numa arrematada imundice. De fato, a casa, o quintal, os cachorros, até as nuvens estavam demasiadamente limpas. “Ora, que coisa mais estranha...”.


A água já efervescia na panela. Coou o café, bem forte como de costume, pegou uma xícara bem grande (também como de costume) e saiu para o quintal. Aquela sensação de estranheza acompanhava-o. Exceto a lerdeza dos movimentos, como em câmera lenta, tudo estava absolutamente perfeito. A luz, a harmonia do som ambiente. Por um momento passou-lhe pela cabeça que estivesse morto.


Resolveu esquecer isso e pôs-se a trabalhar. Pôs feijão na panela enquanto dava banho nos cachorros; varreu as folhas secas que caíam do frondoso flamboyant que majestosamente irrompia do solo; almoçou; lavou roupa; tomou banho; fez de um tudo. Mas aquela sensação insistia em lhe perseguir os pensamentos.


“O quê será que está faltando?” E, num assomo, deu-se conta de que faltavam pessoas, vozes, olhares. Não escutava absolutamente nada afora o som ambiente do vento e dos pássaros. As crianças não corriam espevitadas pela rua, os carros não passavam apressados com seus motores, o telefone histérico não tocava.


“Por que isso?”, indagava-se confuso o homem. Algo muito fora do comum acontecera. Ele não conseguia lembrar-se de nada que concerne aos homens em sociedade. Não lembrava de trabalho algum que já tivera feito ou que deveria fazer. Tampouco lembrava de seus parentes e amigos, nem nomes nem rostos. Não lembrava do amor.


“A quanto tempo estivera assim, completamente inerte?”. Não sabia dizer. Tudo parecia infinito, eterno, perene e imutável. “Havia parado no tempo?”, “estava numa outra dimensão?”.


Quanto mais se perguntava mais não encontrava respostas. Desistiu de procurar saber. Continuou suas tarefas acriticamente. Extenuado ao fim do dia, com aquela mesma sensação a lhe fustigar a mente, esticou as pernas por sobre a cama. Aquele mesmo som ambiente só foi substituído por uma roupagem noturna. Ainda sem vozes, sem rostos dos quais pudesse se lembrar. Foi deitar-se inquieto com os cachorros aos seus pés. Enfim, num suspiro de desalento, dormiu triste. No outro dia o relógio voltaria a lhe despertar no mesmo horário, sem rostos, sem vozes, sem sorrisos.

quarta-feira, 28 de outubro de 2009

Histórias de um futuro próximo

Lembro-me bem quando, ainda criança, ouvia e via pela televisão apelos para que puséssemos fim ao aquecimento global. Faziam conjecturas sombrias sobre um futuro particularmente sem saídas, beco no qual a humanidade estaria condenada. Mas eram somente conjecturas, diziam, isto é, baseados no modo que produzimos e vivemos, ou mudamos radicalmente nossa relação com o mundo, ou perecer-nos-emos. Parece que falhamos fragorosamente.


Suas antevisões de certa maneira se concretizaram. Estamos hoje reduzidos a cacos do que fomos um dia, vivendo dos restos materiais de uma sociedade outrora vencedora. Espalhados, esgueirando como ratos, os homens perderam sua posição privilegiada no planeta. Como afinal essa catástrofe foi acontecer?


Contudo, aquelas vaticinações terríveis do passado viam na causa um mero efeito, e culparam sujeitos inocentes pelo apocalipse. Cobravam atitudes corriqueiras e triviais de homens igualmente banais, o que, segundo diziam, seria suficiente para evitar o pior. “Faça sua parte”, era a frase de ordem mais utilizada. Mas o que poderiam fazer aqueles homens, pobres coitados que mal tinham o mínimo de condições materiais para se sustentarem decentemente, diante da iminência do problema? Absolutamente nada. Metade dos seres humanos daquela época vivia com menos de dois dólares por dia. Vocês crianças certamente não sabem o quão pouco isso significava, porém, acreditem em mim, era pouco, bem pouco. O que deveriam fazer, parar de respirar e morrer?


Enquanto isso, homens privilegiados e reduzidos numericamente, cujos bens utilizavam para explorar aqueles, gastavam os recursos do mundo insaciavelmente. Seus carros, enormes e elegantes, com motores turbo lançavam ao ar mais CO2 por dia do que qualquer operário produziria em toda sua vida. Suas fábricas, ligadas vinte e quatro horas, fabricavam milhões e milhões de mercadorias descartáveis a cada minuto, consumindo matéria natural, cada vez mais e mais, mercadorias que não satisfaziam aos interesses humanos, mas sim à necessidade insidiosa de um ser chamado de capital, o qual acumulava e acumulava, até implodir, como vocês bem sabem. Queimaram as florestas tropicais, caçaram as baleias até a extinção, poluíram rios e mares com lixo não-biodegradável, plantaram bilhões de hectares com culturas nocivas ao equilíbrio ambiental, fizeram isso e aquilo, “pintaram e bordaram”, como dizia minha finada avó. Vocês vêem o resultado. Podem apreciar o que lhes deixaram de herança?


De qualquer maneira crianças, a história de hoje teve apenas uma intenção: fazer justiça aos seus pais, trabalhadores insuspeitos que foram devorados por uma lógica estranha ao ser humano, uma lógica que criaram, embora jamais imaginassem a onde levariam seus descaminhos.

quarta-feira, 22 de julho de 2009

Nossa pequena história

E foi assim a história: tão singela quanto verdadeira. Quem viu, assim como as duas almas que a escreveram com linhas tímidas, jamais poderia prever os rumos que tudo tomaria. Rumos desconhecidos. Somente engolindo muita coragem pela manhã para segui-los bravamente dia afora. Ainda assim, não houve um momento sequer de hesitação, no qual um dos dois pudesse desistir e voltar atrás.


Olharam para eles de modo desconfiado, incrédulos. Poucos compartilharam ou poderiam compartilhar da crença em um amor aparentemente tolo e inocente. As pessoas têm medo de se arriscarem e não querem que outros façam o mesmo. Acusaram-lhes de heresia e pretenderam jogá-los na fogueira da incompreensão. Resistiram, pois sabiam que um grande amor não nasce todo dia. E no final, ambas as vidas haviam sido transformadas completamente e nada mais seria como antes. Veio a primavera e coloriu de múltiplas cores e tons o cinza invernal que secava os seus corações.


Parece pouco coisa, um amor, diante da imensidão do mundo? Talvez sim. O fato é que, para quem ama, o mundo fica pequeno, tão pequeno que poderia ser pego por uma das mãos e dado de presente à outra que, com ela, compartilha os mesmos sonhos.

terça-feira, 14 de abril de 2009

Dois amantes que se perderam por aí, como tantos outros...

Costumávamos deitar na varanda lá pelas tantas da madrugada, olhávamos para as estrelas e ficávamos a tecer teorias. Dizíamos: “está vendo aquela estrela? Pois bem, na órbita daquela pequena estrela tem um planeta, muito parecido com o nosso e, nesse exato momento, dois amantes estão, assim como nós, olhando para o céu estrelado e, de todas as estrelas possíveis de se ver, estão olhando para cá, para nosso pequeno sistema solar e dizendo: ‘assim como nós, num pequeno planeta daquela estrela tem um casal olhando para nós dois aqui e desejando que sejamos muito felizes’”.

Naquela época nos sentíamos tão fortes juntos que o mundo era pequeno e o universo era passível de ser conquistado. Éramos tentados então a deixar esse mundinho, queríamos voar por aí, transformar-nos em luz. Quase conseguimos. Mas depois, sem mais nem menos o mundo cresceu, cresceu e ficou tão grande que envergou todo seu peso sobre nossos ombros e agora não conseguimos mais olhar para as estrelas. Na verdade, nem lembramos mais delas. Andamos com passos de anões e orgulho de gigantes. Trabalhamos para plantar novas porcarias na terra, das quais não precisamos, e as nossas antigas histórias que crescem insistentemente feito ervas daninhas, como para nos dizer: “estamos aqui ainda, recorde-me, recorde-me!”, nós as arrancamos e dizemos: “não preciso mais de vocês!”.

Hoje, quando por um acidental resvalo, olha para aquela estrela e penso: “será que os dois amantes estão lá ainda, olhando para nós aqui com ar de reprovação por termos falhado? Será que ficam tristes porque abandonamos o sonho de alcançar as estrelas? Será que ainda torcem por nós?”

terça-feira, 7 de abril de 2009

Um dia qualquer no ônibus

Por entre os carros neurastênicos que costuravam as veias asfaltadas do centro da cidade, entrecortava um ônibus suburbano tipicamente prosaico. Dentro dele, um observador e, ao seu entorno, uma vívida realidade social cotidiana se desenrolando, a qual comumente não se dá valor algum.


Ao lado do observador, duas mulheres de idades distintas sentadas juntas conversavam. Pelo cabelo desgrenhado e mal-cuidado, impregnado de preocupações, pelo rosto sem maquiagem e profundamente sulcado, pelas roupas simples cujas peças não combinavam entre si, e pela bagagem acondicionada em sacolas de plástico que ostentavam em impresso um slogan de algum supermercado qualquer, podia-se inferir decerto a origem social daquelas mulheres, de onde vinham e para onde iam – potencialmente.


A julgar pelo diálogo, eram vizinhas de muro, situados nalgum bairro periférico qualquer, aonde se varrem para além das vistas aqueles cuja existência insiste em ser negada, ao mesmo tempo em que, paradoxalmente, são indispensáveis na medida em que constituem a base necessária para a reprodução da vida daqueles cuja existência insistentemente é glorificada.


Aqueles que mais têm, mais apegados se tornam àquilo que lhes possuem, e menos estão dispostos a dar.


A mulher mais jovem contava à senhora de mais idade que lhe acompanhava sobre seus infortúnios:
- é amiga, a situação num tá fácil não. O salarinho magro do marido não tá resolvendo. Só por Deus mesmo pra ter misericórdia de nóis!
- pra mim também não tá fácil não viu, Margarete. Minha única renda continua sendo só a pensão do finado. Depois que eu saí da casa dos Rodrigues não consegui mais emprego de doméstica. Se pá é coisa ruim que lançaram pra cima da minha pessoa.
Após uma breve pausa, como quem engole à seco o fel segregado pelos pensamentos pungentes, elas continuam:
- mas quem tá mal mesmo é minha irmã, sabe dona Maria. Aquele pilantra safado sem-vergonha do meu cunhado continua bebendo até a mãe dele se for preciso! Num tem cristo que dê jeito. Ela me diz que não vê a hora de sair daquele lugar, entende? Pegar as crianças e cair no mundo. Eu até que dou razão. Afinal, quem que güenta isso por muito tempo? Mas a praga diz que se ela fizer isso ele sai de pexera na mão e acaba com a vida dela.


Dona Maria, sem aparentar muito contristada, retruca:
- ah minha filha, no meu tempo num tinha esses tipo de questionamento não, tinha de agüentar mesmo, calada e olha lá! Porque se falasse alguma coisa que “ele” num gostasse era tabefe na oreia na certa!
- pode até ser viu Maria. Talvez as coisas sejam melhores do que antes. Quanto a mim, fui abençoada pela glória do Senhor!
Ouve-se um “amém” intercalado, e ela continua:
- minha menor tá espichando rápido, e, do jeito que é esperta, vai me ajudar bastante, se Deus quiser!
Outro “amém”, pra se ter certeza.
E com um profundo pesar carregado na face jovial,mas ao mesmo tempo resignada, Margarete continua:
- cê sabe né Maria, vou pagar os meus pecados com a mais velha, que nasceu especial.


As duas pequenas sentadas inocentemente no banco da frente permaneciam alheias à conversa tempestuosa das adultas atrás de si. Apenas observavam a paisagem da cidade que transcorria como num filme: tudo tão grande, tão magnético e luminoso, tão diferente de onde moravam.


O ônibus para num semáforo. Ao seu lado emparelham um grupo de motoqueiros, montados em nomes estrangeiros dos mais variados: suzukis, hondas, kawazakis, e por aí em diante. Era um belo dia para desfilarem com suas jaquetas de couro e seus motores portentosos. Zumbindo e rufando, seus motores não significam trabalho, mas sim diversão, e as ruas representavam seu GP. Para quem pode, a vida é bacana e despreocupada.


Nem as mulheres, nem os motoqueiros tomam conhecimento da existência de uns dos outros. E a vida segue seguindo...

sexta-feira, 13 de março de 2009

A história de Jorge

- Caralho, mano! Os verme tão subindo!


A movimentação dos soldados-bandidos sobre a laje das toscas construções fez-se frenética nem bem os rojões de treze tiros espocaram pelo ar. Cada qual, de sobreaviso pelas carreiras de cocaína aspiradas ao longo de toda a noite passada, assumia apressadamente seu posto no campo de batalha ante o alerta geral dado pelos fogueteiros. Soldados e vapores formavam a linha de frente do front aos brados de “atividade, atividade porra!”, ditados pelo gerente da boca. O som metálico das armas sendo engatilhadas, misturado às batidas do rap compunha uma trilha sonora minimalista, sucessora daquelas dos antigos filmes de faroeste. A tensão transpirava pelos poros aguerridos dos esfarrapados soldados e espraiava pelo ar, indo diluir-se no clima de pavor que instantaneamente tomava de assalto a favela. Ouviam-se as janelas e portas sendo fechadas. Aqueles desapercebidos que tiveram a infelicidade de serem pegos de sobressalto, rapidamente se escafediam pelas vielas ou buscavam refúgio nalguma das poucas portas ainda não cerradas pelo medo.


Esse estado de guerra fria perene, que para alguns pode parecer fantasia ou mesmo um eco à distância, faz parte do cotidiano daqueles pobres homens e mulheres condenados à existência miserável dos guetos modernos. Contudo, antes de fazê-los fraquejar, forjou ânimo de aço no bojo dos seus corações. Acostumados como estão a esses constantes dissabores, imprimidos diariamente à ferro e fogo em seus semblantes à guisa de um ferrete, resistem estoicamente às agruras daquela vida como você e eu jamais seriamos capazes de suportar. Com exceção das mães – as quais são muitas –, o clima de pavor logo dá lugar ao de indiferença e trivialidade em face de mais um capítulo dessa novela, a qual a Rede Globo não se atreve a encenar.


Num piscar de olhos, tudo começava e, no piscar seguinte, acabava-se. Era como um lapso na malha do tempo-espaço cotidiano, cuja gravidade que emanava da densidade daquela matéria social paralisava o tempo de tal maneira que a sensação era de infinidade. Mas, segundo nosso sistema de medição de tempo, era tudo muito rápido. A polícia dificilmente se arriscava para dentro do coração da favela, restringindo-se amiúde ao entorno. Ora, aqueles meninos-soldados são bem armados, irascíveis, com ódio na veia e prontos a atirar. Com efeito, quem em sã consciência, com filho e mulher, seria suficientemente insano para invadir aquela ratoeira e trocar tiros à queima-roupa com eles? Haveria de ser muito idealista ou igualmente raivoso. Não, não. É melhor disparar à distância, ainda que os riscos inerentes sejam demasiados onerosos aos civis. Toda a favela é transformada, assim, em uma enorme trincheira urbana, na qual cada lado combatente descarrega sua munição através da “terra de ninguém” – como era chamada a extensão de terra balizada por duas trincheiras na Primeira Guerra Mundial. A diferença é que muitas histórias de vida moram ali.


Da laje do seu barraco, o pequeno Jorge observava a tudo com um arrebatamento íntimo que misturava emoção e ansiedade. Olhos fixados na movimentação constante daquele jogo que opunha homens de fardas contra moleques de andrajos, ele perscrutava e esquadrinhava cada canto desse cenário bélico apinhado de casebres, civis e cachorros vira-latas, aonde se desenrolava a ação. Aquilo era verdadeiramente muito mais empolgante do que os filmes – que ele sabia falsos – de guerra exibidos domingo à tarde na televisão. Jorge tinha esse espírito aguerrido que certos humanos carregam impresso desde o nascimento na personalidade. Alguns acabam consubstanciando-o em 9mm de ferro cintado. Ademais, esse espírito é sempre mais vivo na tenra idade, ainda não dilapidado pelo superego social e ávido por aventuras homéricas. Afinal, quem nunca se divertiu na infância brincando até o esgotamento de polícia e ladrão? Era emocionante traçar planos de fuga engenhosos, prender vagabundos que perturbavam a ordem ou fazer as duas coisas ao mesmo tempo. Eu, de minha parte, preferi sempre o lado criminal. Contudo, depois de crescermos, ou a brincadeira fica séria ou perdemos a graça e o entusiasmo pela coisa.


O pequeno Jorge, protegido sempre por um santo forte como fora, já dava sinais de que a brincadeira logo se tornaria séria, talvez ainda cedo demais. Não completara nem a casa decimal e já poderia ser flagrado fazendo pequenos “bicos” para a boca vizinha à sua casa, o chamado “avião”. Em troca de alguns trocados, que para ele pareciam uma fortuna, Jorge buscava refrigerante, entregava recados, buscava “peças” entocadas. Mas o melhor pagamento mesmo era ganhar o respeito daqueles bravos homens, cujo calibre faz a lei, e cuja vida desafia diariamente a ideologia apregoada pelos mantenedores do status quo, evidenciando a lógica que a sociedade teima em velar. Ele recebia cafunés na cabeça, agrados de todo tipo, ganhava doces, lanches, ensinavam-no a atirar em latinhas, davam-lhe dinheiro para levar à mãe, e ai de alguém que tirasse onda com a sua cara na escola. Os traficantes da boca apelidaram-no de “psico”, dado a intrepidez com que desempenhava as funções e a vontade indelével de fazer carreira no mundo do crime. Jorge era um guerreiro, e a vida para ele só tinha sentido se você a tomasse pelas mãos e a obrigasse a dar-lhe o que pedia; se necessário for, na ponta de um revólver. Fora assim que aprendera, como um bicho-do-mato ataca quando encurralado contra o sopé de uma árvore. A vida é selva, e ele prometia para si mesmo tornar-se leão. Evidente, portanto, que seu espírito dava mostras promissoras de outro líder paralelo cultivado desde cedo no ventre das inoportunidades concedidas como esmolas àquele povo. E isso é inadmissível para a sociedade auto-proclamada do “bem”. Agora, o mau, ah sim, se pudessem, queriam mais era escaldar o coro de delinqüentes primaveris como Jorge. E, de fato, era isso mesmo que faziam. O rancor de Jorge ainda era diminuto perto de tudo o que a sociedade ainda tinha para lhe ensinar e fazer medrar em seu coração. Seu tempo era pouco, porém faria bom proveito dele. Ele seria o escarro da hipocrisia voltando em dobro, triplo, à cara daqueles porcos.

sábado, 7 de março de 2009

A história de dona Salete

E foi por não ter mais para aonde ir que dona Salete decidiu, novamente, partir. De mais a mais, haveria outra solução? Pensou ela que não e, acostumada como estava à vida de retirante caçadora de parcas oportunidades, arriscou-se a seguir as recomendações do pessoal diretor da empresa – agora “sua” ex-empresa. Pois então, haveria de se tornar uma pequena proprietária, associada de uma cooperativa. Pelo menos, foi isso que haviam lhe dito.


Antes disso, ao longo de quase uma década ela havia destinado todas as suas forças e sonhos àquele emprego. Mãos extremamente hábeis para a costura, Salete não demorou a ocupar uma vaga em uma das centenas de máquinas overlock localizadas no setor de confecção de uma grande multinacional têxtil na grande São Paulo, após dias penosos no pau-de-arara. Sua mãe até tentara dissuadi-la daquela idéia maluca, onde tantos foram e jamais voltaram, mas nem o mais sagrado dos conselhos pôde declinar a sua obstinação. E, para fazermos justiça, foi devido a uma razoável dose de sorte que a migrante consegui se estabelecer relativamente bem no famigerado Sul. Que fique claro, relativamente bem para uma retirante fugida da fome e da seca do sertão nordestino, sequiosa por fazer um destino melhor do que aquele que sua mãe lhe deixara de herança. Ora, ela não conquistara grande êxito material, mas tinha um barraquinho próprio em um extremo periférico da maior cidade brasileira, de modo que isso não poderia, relativamente, ser considerado como uma vitória? Faltava-lhe um sem-número de itens dos mais variados bens de consumo que a televisão (isso ela havia conseguido comprar) lhe oferecia todos os dias, porém, na medida do possível, sentia-se feliz com o pouco que seu suor pôde adquirir.


E agora lá estava ela a ouvir com pesar o discurso retórico do funcionário-chefe, encarregado de passar aos funcionários não tão graduados como ele os resultados da reestruturação do setor produtivo da empresa. Os tempos eram difíceis, dizia ele, e por isso os executivos tiveram que tomar decisões igualmente difíceis. Não faziam aquilo senão com uma tristeza solene, contudo a situação urgia por tais medidas drásticas e elas seriam levadas a efeito pelo bem geral. Segundo o funcionário-chefe, que naquele momento fazia o papel de porta-voz da empresa ou de capitão-do-mato, como queira, a empresa não era mais capaz de manter o seu setor produtivo, o qual havia se tornado demasiado oneroso e, portanto, deveria ser terceirizado como parte da meta de corte de custos. Essa era a tendência geral segundo a qual centenas de empresas vinham procedendo a partir do último quartel do século passado. Além do mais, as ordens vinham de cima, não sendo, portanto, negligenciáveis. Isso porque, na verdade, a empresa em que dona Salete laborou com tanto afinco e fé não era, de fato, uma multinacional, mas sim uma das muitas filiais subcontratadas de uma das seletas corporações transnacionais que oligopolizam o setor. Ela costurava o cós e a barra das calças da afamada marca – as quais ela própria não tinha dinheiro para comprar – que, por sua vez, seriam vendidas mundialmente. Desse modo, quem efetivamente produzia não era a marca propriamente dita, mas empresas sem-nome espalhadas pelo Terceiro Mundo todo, como a de dona Salete. A lógica disso, entretanto, escapava-lhe da compreensão. Como meio de aumentar seu poder sobre o mercado interno, ao mesmo tempo em que barateava o custo produtivo das mercadorias voltadas para a exportação, os CEOs da empresa-mãe decidiram inverter parte do fluxo de investimento externo direto naquela empresa brasileira, ao invés de apenas subcontratá-la. Noutras palavras, a multinacional incorporou a empresa menor que empregava Salete, comprou-a. A estratégia de aumentar a acumulação baseando-se na exploração do trabalho não parava por aí, naturalmente.


É sabido que, nos setores produtivos com menos desenvolvimento tecnológico e, consequentemente, com utilização mais intensiva da mão-de-obra, como é o caso do setor de confecção, as estratégias de aumento do lucro baseiam-se na exploração sem limites do trabalho. E para isso, nada melhor do que a riqueza humana que irrompe do solo de países emergentes, com abundância de mão-de-obra barata, alguma proteção social pública que mitigue ligeiramente a pobreza, e com leis trabalhistas flexíveis e/ou facilmente burláveis. Eis aí a cobiça que nosso imenso território tupiniquim desperta. Claro que não estamos sozinhos, evidentemente, China, Índia, México, e outros desafortunados nos acompanham. Contudo, aqui o retorno é promissor demais, com garantias e risco zero. Pergunte ao FMI, ele irá concordar com essa afirmação. Dirá que somos ótimos devedores porque pagamos em dia e sem protestar acerca dos juros e spreads; que os investidores não correm riscos em face do nosso governo, visceralmente avesso à revoluções e sempre complacente com as demandas do capital internacional – especialmente o financeiro; e que os macacos brasileiros são vigorosos trabalhadores, satisfazem-se com pouco e, o melhor de tudo, são reacionários inatos. Pode perguntar, o risco do Brasil é nulo!


Naquele dia, ao tomar o primeiro ônibus urbano que a levaria novamente para a favela, o cortiço moderno aonde a grande São Paulo varre para debaixo do tapete todas as noites aqueles miseráveis que a sociedade civil insiste em ver só ao longo do dia na forma de trabalhadores, os pensamentos de dona Salete sobre o acontecido eram uma mixórdia desordenada e ininteligível. Suas colegas de trabalho ficaram extasiadas com a possibilidade de ascenderem da posição de empregadas de pouca monta para a de proprietárias – ou co-proprietárias – do próprio negócio: a cooperativa. Mas Salete, cuja vida tinha sido ensinada pela mais arrematada carência e como lição aprendera a subserviência, cultivava certos receios. Afinal, se essa mudança haveria de ser boa, por que o sindicato advertia sobre a depreciação dos direitos trabalhistas, que a cooperativa acabaria por menoscabar? Os diretores da empresa afirmavam que o salário maior que elas receberiam na cooperativa compensaria a falta dos benefícios sociais como o décimo terceiro salário e o fundo de garantia, e tudo o que elas teriam que fazer era se esforçarem ao máximo para produzirem bastante, ganhando cada qual proporcionalmente em razão do montante produzido. Ademais, elas seriam donas da sua própria empresa! Mas toda a incerteza que lhe fustigava a mente deixava dona Salete preocupada e, somando-se a isso os problemas familiares com um dos dois filhos e com o ex-marido, seu coração seguia apertado pelas ruas esburacadas da grande São Paulo.