Outro dia insulso Desenxabida vida Um fuá cá dentro Rotinas e desditas Dores e dessabores Tantos ex-amores Havia expectativas Restou lembranças Do tempo de criança Medo da realidade Medo da verdade Dê-me esperança Lídima ansiedade Sobre o que virá Coisas da idade Que, de repente, Chega sem avisar E nos vemos nós Cada vez mais sós O futuro a avizinhar A azucrinar-nos Então, o que serás? E não há tempo Ou não há mais E aquilo que eras Não será jamais
Tanta pressa pra chegada Quantas delongas na saída A morte é tão-só passagem Híspida e fria é esta vida
Mas necessita-se coragem Entre encontros e partidas Tantas idas e muitas vindas Ao acaso e sabor da viagem Bastante bela é esta estrada Mas ainda mais bela é a vista Em meio a matas e pradarias Ergui minha casa e moradia
Há fim, e para além do fim da linha Restam-nos magros sonhos solitários E outros tantos amores imaginários
Vivia a poesia que escrevia, Vida que, como tal, era falsa e vazia. Aos seus ouvidos, Ela soava demasiado chinfrim, Quando não falsa e mesquinha. Assim como a poesia, Seu sorriso era morno e sem alegria. Eis que, num dia qualquer, Contemplava o movimento da via, E via que, de idas e vindas, Da multidão ela se enchia. Sentiu-se de repente transbordando de vida, E disse a si mesmo que, Embora tímida, valia a tentativa. No quarto, trancar-se-ia, E só novamente escreveria quando, Por inspiração divina, Pensasse alguma coisa de valia. Mas a graça da escrita não vem de Deus, Ele o sabia. Vem do povo, vem do mundo, Vem, destarte, dos seus. A certeza gelou-lhe a espinha. Mergulhar-se-ia em todos e em tudo. E daquele poço, daquele poço fundo, Encontraria a substância que sua poesia pedia
As pessoas que encontrei por essas andanças, As noites tristes e as cheias de esperança, As brincadeiras e cantigas de criança, Tudo, tudo eu levo na lembrança.
Os sonhos e os descobrimentos da infância, Entre travessuras e meninices, roubei-lhe um beijo, Ciúmes não havia, nem melindres nem ganância, Nada entendendo da vida, sentia apenas desejo.
A gente cresce, mete os pés pelas mãos, Crescer é ficar cada vez mais só e turrão, A alegria finda e ficamos a procurar uma razão, Se houver uma, creiam, o esforço não é vão.
No sertão nordestino a seca grassa novamente. Pergunto-me como anda o sertanejo crispado pelo sol. Haverá mudado alguma coisa em sua vida deste que a caatinga é caatinga? Ainda andará com as mesmas pernas finas, com o mesmo ventre crescido, a mesma cabeça grande? Ainda seguindo as contas do rosário, de vila em vila, fugindo da seca e da fome? Ainda imolado pela mesma sina, a cova rasa, com palmos medida, envolvendo seu corpo parco, cansado de esperar pela terra dividida? Ainda esquecidos... A vida e a morte dos tantos severinos é um poema épico, é morte e vida severina.
Refulge o sol através da janela fina, Reluzindo o ar pejado de partículas O suor emplastra-lhe a carapinha, Anunciando o entrar de um novo dia
A mesma cama solitária e vazia, Não afaga e não lhe faz carícias, Nem mesmo um abafado bom-dia, A outro ramerrão que se avizinha
O desjejum modesto é praxe Uma chávena de café fraco, De sabor dulçoroso e acre Acompanha pão velho e chocho Ele engole o repasto insosso E sai
Saudade das manhãs com a esposa, Deixada naquela imensidão agreste Nalgum chão batido de terra roxa, Seu único filho bate bola e envelhece
Corta, serra, assenta, aplaina, cava, Perfura, aparafusa, solda e empilha, À hora do almoço, dessaboroso da vida, Não pensa, contemporiza e se cala Atenaza-lhe a terra a perder de vista, Que a represa quer ver engolida.
A lida rotineira exige estoicismo É seviciadora e pouco alvissareira Na algibeira, nem um troco furado Nada que se possa ter por salário
Sua força lhe vem de longe, à distância Da mulher que dele espera uma criança Do filho ainda na boca da infância É daí, daí que ele tira a esperança
Quero dizer, é possível racionalizar um sentimento
tão indefinível e, ao mesmo tempo, tão universal quanto a saudade?
Quem quiser conhecê-la terá de experimentá-la.
Portanto, não se pode conhecê-la mediante definições
ou fórmulas sintéticas.
Mas, conhecer, neste caso, não é a mesma coisa que
entender.
Pode-se chegar a conhecer a saudade – e todo mundo,
de fato, a conhece –, sem chegar a entendê-la.
Trata-se de um sentimento imediato, que se vive
empiricamente, mergulhado na vida cotidiana.
Pergunte para qualquer pessoa o que ela entende por
saudade e você terá variadas respostas, sempre, todavia, fruto de experiências
concretas e imediatas.
Mas a mesma pessoa não saberia definir e encerrar o
sentimento saudade em uma fórmula acabada.
Talvez mesmo nem se trate disso.
Talvez estejamos a fugir da verdadeira questão ao
colocá-la nesses termos.
A saudade é um sentimento muito poderoso, quem sabe
seja, com efeito, o sentimento mais poderoso de todos, porque ela junta todos
os sentimentos possíveis, passados e presentes, num mesmo momento.
A experiência da saudade consiste na fusão, na
justaposição entre passado e presente.
Trata-se de uma revivência: revivência de
reminiscências.
E, como tal, implica na rememoração.
Quando se revive um momento, um sentimento, uma
história, em suma, uma lembrança boa, feliz, está-se sentindo saudade.
Saudade daquele momento, daquele sentimento, daquela
história.
Coisas que passaram, que ficaram no passado, cuja
experiência tem-se vontade de experimentar novamente.
Mas as lembranças nem sempre são fiéis, ao
contrário.
Na maioria das vezes, são sempre refeitas,
idealizadas.
A saudade, assim pensada, parece uma farsa.
Tem-se saudade de algo que não aconteceu, ou que,
pelo menos, não aconteceu exatamente da maneira pela qual se tem saudade.
Seria justo pensar desta maneira?
Por outro lado, que diferença faz?
Se tal ou qual fato que está na base de tal ou qual
lembrança feliz não irá voltar nunca, de modo que não se poderá vivenciá-la
concretamente de novo, o que interessa agora é a lembrança em si mesma, seja
verdadeira ou falsa.
Se ela vem com feições novas, lapidada e polida,
tanto melhor.
Parece ser esta a essência da lembrança: consiste
num fato (momento, sentimento, experiência, história) filtrado pela
subjetividade daquele que o viveu, ao mesmo tempo em que se acrescenta tudo o
mais que se viveu mas que não tem relação com aquela lembrança em particular.
Saudade e lembrança...
As lembranças são sempre pessoais, e não importa o
fato de que os fatos que lhe dão azo sejam sempre coletivos.
Dizem que a experiência da morte é a experiência da
vida, condensada num só instante.
Deve ser este o maior e mais intenso sentimento que
se possa experimentar.
Há que se ter uma vida o mais plena possível para se
ter também uma morte o mais plena possível.
Por vezes a saudade irrompe em profusão das
entranhas da mente, instada por um porre, por um composto químico lisérgico,
etc.
Se tivéssemos uma vida mais prenhe de sentido, mas
humana, ela viria com mais facilidade?
Neste mundo, nesta vida, neste cotidiano, o presente
impera.
Mal temos tempo e – ainda menos – o costume de olhar
para o céu, de perscrutar as estrelas.
Ou seja, mal temos tempo e costume de sonhar.
Quem dirá reviver o passado?
Eu gostaria de sentir tudo aquilo que eu vivi, sejam
momentos bons ou ruins, alegres ou tristes, num único feixe fulminante de
lembranças.