quarta-feira, 3 de dezembro de 2014

O que significa que os homens devem se manter fora da luta feminista?

Advertência: essa breve reflexão não tem por objetivo falar pelas mulheres; trata-se apenas de uma tentativa de racionalizar logicamente um argumento defendido por elas, o qual eu aceito, buscando determinar, assim, seus pressupostos e implicações. Mas, acima de tudo, é uma tentativa de racionalização que visa refutar as críticas advindas do campo masculino a esse argumento. Essa advertência não teria qualquer valor se ficasse apenas na declaração formal, afinal as palavras de não pretensão podem esconder uma pretensão de fato. Deve-se então partir do suposto de que essa racionalização não revela nenhuma verdade, senão é apenas uma forma possível de fundamentar logicamente um argumento. Alguma mulher pode ou não incorporar essa racionalização ao seu argumento. Feita essa ressalva, avancemos. Acho que agora eu entendo melhor o argumento das feministas, com o qual já estava de acordo, de que o homem deve se manter fora da luta feminista. O argumento se baseia em duas ideias: 1) a mulher deve ter autonomia sobre si mesma, já que esta é exatamente a finalidade da luta (e autonomia em relação quem? Ora, em relação exatamente ao homem); 2) como essa autonomia implica que reflitam sobre suas experiências e ajam por conta própria, a presença do homem distorce na melhor das hipóteses e impossibilita na pior essa autonomia. Isso, no entanto, não significa que as feministas não queiram criar homens feministas. Do contrário a luta não faria sentido, a não ser que fosse concebida como uma guerra entre inimigos mortais cuja vitória de um implica a destruição do outro. Não se trata, portanto, de essencializar as posições – ora, desconstruir ideias essencialistas, seja sobre a natureza da mulher ou da do homem, é precisamente uma das condições de sucesso da luta feminista. O homem não pode tomar parte diretamente dessa luta não pelo simples fato de ser homem; se fosse isso, a luta cairia novamente em ideias essencialistas segundo as quais o homem é homem porque tem pênis, e a mulher porque tem vagina, sendo que seu comportamento – machismo e feminismo – seria deduzido dessa condição imutável. Porque ela é imutável, determinada biologicamente, a luta não faria sentido, já que toda luta social pressupõe a possibilidade e a capacidade de transformar uma condição que é, na verdade, uma situação social. Se se parte de um pressuposto essencialista, conclui-se então que o homem e a mulher são machista e feminista por natureza, e a luta entre ambos se reduz a um cabo de guerra onde a vitória de um pressupõe a derrota do outro e vice-versa; e já que homens e mulheres existem e não podem ser simplesmente destruídos, seria forçoso concluir que essa luta é natural e eterna. Esse tipo de raciocínio nos leva, portanto, a um beco sem saída. Portanto, não se trata de essencializar essas posições. Disso não se conclui que elas não existam. Elas existem, e importam porque têm implicações para a luta feminista. É precisamente este o ponto do argumento das feministas. O feminismo, pensado como um projeto de sociedade onde as relações de poder entre os gêneros estão ausentes, implica a participação do homem, porquanto só com a criação de homens feministas pode uma tal sociedade vir à luz, e para que tais homens surjam é preciso que eles tomem parte da luta, ou seja, que eles se criem pois, como seres humanos que são, é impossível que simplesmente sejam criados por uma força exterior. Por outro lado, o feminismo enquanto modo e espaço de organização e luta política de uma categoria social específica, a mulher, implica a ideia contrária, isto é, que as mulheres tenham autonomia e completa liberdade para refletir sobre suas próprias experiências, necessidades e objetivos. Daí que, embora o feminismo tenha o mesmo sentido tanto para a mulher quanto para o homem (feminista), seu significado para uma e para o outro são em tudo distintos. E como na disposição de poder entre os gêneros o homem ocupa o polo dominante e a mulher o dominado (independentemente se esse homem se vale ou não conscientemente dessa posição de poder), cabe a ela tomar a posição ativa e insubordinada, e o homem a posição passiva e subordinada, e isso pressupõe que o feminismo enquanto luta política (no sentido que dei acima) seja, em princípio, exclusivo da mulher. Dessas novas posições políticas, que subvertem as posições sociais tradicionais, é que deriva o papel e o lugar de cada um dos gêneros nessa luta. Portanto, a defesa de que os homens mantenham-se fora da luta feminista é um princípio político, do qual alguns movimentos feministas se aproximam mais e outros menos, desde os que negam veementemente qualquer participação masculina até aqueles que a aceitam em pé de “igualdade” (as aspas são minhas). Esse princípio político não quer dizer que os homens não tenham algo a dizer sobre o feminismo/machismo, ou que as mulheres não querem ouvir. Entretanto, o fato é que o feminismo quer nos colocar justamente na situação oposta: agora são as mulheres que falam e os homens escutam (pelo amor de jah, homens, não confundir isso com a ideia infantil de que as oprimidas querem, assim, se transformam em opressoras; o que elas querem que escutemos é o seu ponto de vista).
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