quarta-feira, 3 de dezembro de 2014

Da série: entendendo o próprio machismo

Há alguns meses, publiquei aqui uma pequena anedota que sucedeu comigo e da qual afirmei estar orgulhoso: tinha sido chamada de mulher por uma garota. No auge da minha alegria vim a público declarar-me como mulher. Recebi críticas de um lado, e elogios de outro. Uma grande amiga me disse que eu estava sendo ofensivo. Na ocasião não entendi exatamente onde estava a ofensa. Ocorre que, orgulhoso com os resultados positivos da minha própria jornada pessoal de desconstrução de meu habitus machista, provavelmente não quis entender. Ao ser chamado de mulher eu estava sendo elogiado, mas quando eu mesmo me declarei mulher não estava elogiando as mulheres. Refletindo sobre o episódio agora, percebo que a mulher que me chamou de mulher estava querendo dizer que eu era o HOMEM mais mulher que ela conhecia, mas obviamente não uma mulher. E isso muda tudo. Com efeito, uma terceira mulher (nessa história toda) me fez ver depois que eu não apenas sou um homem, mas me identifico como tal e, no fundo, gosto de ser um. Percebi que eu não preciso me identificar com o modelo social machista e sexista de homem para ser um. Não me identificar com esse modelo de homem não faz de mim mulher. Como essa outra amiga me disse, se estou com calor tiro a camisa e ponto; se estou apertado, abro a braguilha e faço xixi na rua sem medo algum, eu simplesmente faço e não penso sobre os significados desses atos privilegiados. Mas há, ainda, comportamentos muito mais sérios, como pressionar a parceira a fazer sexo sem camisinha, quando esse ato têm consequências muito mais negativas a ela do que a mim exatamente pelo fato de ela ser mulher e eu ser homem. Quando faço isso não apenas estou sendo egoísta, estou sendo machista. E sem dúvida poderia multiplicar os exemplos de pequenos comportamentos e atitudes, aparentemente inofensivos, mas que são opressivos do ponto de vista da mulher, tais como gestos físicos, inconscientes e implícitos, de intimidação masculina. Daí porque me declarar uma é extremamente ofensivo. É ignorar todas essas diferenças e, pior ainda, é ignorar a minha própria condição de homem e meu papel, não obstante crítico e reflexivo, na reprodução cotidiana do machismo. Tudo isso me fez compreender melhor algo que eu já aceitei mas que talvez não tenha percebido todas as suas implicações e consequências: que a minha condição de homem é determinante, e eu nunca vou saber – porque nunca vou experimentar – como pensam e sentem-se as mulheres. Disso decorre um corolário essencial: elas têm de pensar e falar por si mesmas, e isso supõe que os homens estejam em princípio fora da luta contra o machismo. Em princípio, porque essa participação, para além da sua própria desconstrução pessoal, se faz limitada pela sua condição de homem e pelo que esperam dela as mulheres. E tudo isso reforçou em mim também a certeza de que a luta contra o machismo, ao menos de uma perspectiva individual, é diária e se faz em minúsculos campos de batalhas da vida cotidiana. Os homens que se consideram realmente feministas devem entender que, muito mais do que levantar bandeiras, gritar palavras de ordens, apreender princípios abstratos e argumentos teóricos ou decorar dados estatísticos, somente irão começar a compreender profundamente o patriarcado e o seu próprio papel na sua reprodução ouvindo atentamente as mulheres com quem dividem a vida cotidiana – colega, amiga, namorada, irmã, mãe, etc. –, e com elas se colocando numa relação de alteridade e empatia. E isso já é um papel bastante ativo, uma vez que essas mulheres não precisam ser feministas e ter consciência crítica do machismo para que o homem que se coloque do seu ponto de vista entenda como suas crenças e atitudes são machistas. Empatia e alteridade, embora seja uma postura de quem ouve e não de quem fala, depende da iniciativa do homem, ou seja, depende de uma vontade pessoal do eu de se refletir n@ outr@. Mas quando se trata de mobilização, organização, discussão das suas próprias experiências entre si, troca de ideias e valores, definição de objetivos, nisso o homem tem um papel quando muito exterior, passivo e subordinado. Chegamos, assim, a três premissas básicas que devem nortear a ação do homem feminista: 1) sua condição de homem é determinante para a sua percepção e entendimento tanto do machismo quanto do feminismo; 2) dessa condição (que, vale lembrar, não é inerente, mas trata-se de uma escolha; eu, por exemplo, escolhi ser homem) decorre um papel específico e subordinado na luta pró-feminismo; 3) o melhor lugar para o homem compreender e atuar contra o machismo é a nível cotidiano, nas relações próximas e nas atividades do dia-a-dia.
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