sexta-feira, 7 de novembro de 2014

Sobre o sovaco da Grazi e a bebedeira da Letícia

Por que tanto barulho em torno do sovaco não depilado da Grazi ou da bebedeira sem culpa da Letícia? É por que adoramos perseguir celebridades, a quem atribuíamos um status de semideuses que devem se comportar sublimemente? Ou seria por que os moralistas de plantão estão sempre prontos a policiar todo comportamento alheio que fuja aos padrões da “moral e dos bons costumes” (e isso seria ainda mais verdadeiro no caso de celebridades, as quais supostamente deveriam dar o exemplo)? Pode ser, também, por causa do simples prazer de fofocar e falar mal da vida alheia, como que para satisfazer o nosso ego e o nosso orgulho? Ou poderia ser por causa da heterofobia que nutrimos em relação a tudo o que é diferente, que destoa da “normalidade”, de tal modo que nos normalizamos através da “anormalidade” do outro? Todas essas perguntas são em alguma medida pertinentes. Mas não esqueçamos do óbvio: Grazi e Letícia são mulheres. E o que se espera de uma mulher é que mantenha seu corpo liso, cheiroso e magro para servir aos homens, e que não beba “como um homem” (sic) ao ponto de rolar pelo chão, pois isso não é coisa que “mulher direita” faça. Afinal, uma mulher que fica bêbada e deita na rua não pode se queixar se for estuprada, porque foi ela que não se deu o devido respeito. E uma mulher que não se depila não deve culpar o marido pela traição sexual, afinal foi ela quem não se esforçou para ser sexualmente atraente para ele. Grazi e Letícia talvez não saibam, mas o que elas fizeram, mais do que ignorar as exigências éticas de uma sociedade moralista a fim de fazer algo com que se sentem bem, foi reivindicar seus corpos, reapropriá-los e reintegrá-los a si próprias como mulheres. Foi um ato de rebeldia contra a dominação masculina que se exerce através da domesticação do corpo feminino. E cada manifestação negativa, que chamou a Grazi de “nojenta” (os homens são nojentos por ter pelos, por acaso?) ou a Letícia de “sem-vergonha”, é uma reação a esse ato de rebeldia, uma tentativa de recolocar a ordem no lugar ao mostrar que atos como esse não serão tolerados. Que Grazi e Letícia permaneçam firmes em seus libelos corporais. Que a solidariedade entre as mulheres prevaleça. Que vença o amor, bêbado e sem-vergonha, de punho cerrado em riste e sovaco cabeludo.
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