terça-feira, 4 de novembro de 2014

Onda conservadora: primeira aproximação

Depois das manifestações de massa de junho de 2013 a conjuntura político-social do país parece ter se alterado substancialmente. Mesmo que alguns não falem no evento como um marco histórico, de uma forma ou de outra todos referenciam-se nele para explicar os novos (e velhos) fenômenos políticos e sociais no brasil, da renhida, passional e polarizada eleição nacional deste ano e das surpresas que ela guardou ao longo dos três meses de campanha ao avanço de grupos e setores conservadores no que alguns têm chamado de “onda conservadora”.

Embora deva-se assinalar que se trata ainda de uma “marola”, eu tendo a concordar com essa hipótese – mas, vale reforçar, trata-se ainda e apenas de uma hipótese. De pseudojornalistas boçais sentindo-se livres para despejar ignorância e falácia em colunas de tradicionais veículos de comunicação à direita (alguns deles meros panfletos partidários), à poderosa e barulhenta bancada parlamentar que confunde dogmas religiosos e discriminação com interesse público; de manifestações de rua iniciadas por movimentos de esquerda e virtualmente invadidas por bandeiras pequeno-burguesas, à enxurrada de opiniões discriminatórias, coléricas e execráveis que inundam as redes sociais, os indícios de uma reconfiguração na mentalidade e no comportamento das pessoas começaram a pulular de algum tempo pra cá.

Paranoia e delírios a propósito de um fantasioso espectro comunista a rondar a nação; oposição ferrenha à defesa de direitos humanos básicos negados a grupos desprivilegiados e oprimidos; moralização dos problemas sociais e políticos e, paradoxalmente, defesa de soluções imorais, autoritárias e retrógradas para tais problemas compõem tais indícios. Não sabemos exatamente o que ou como, mas alguma coisa aconteceu, não há dúvida. Nem que se esse algo, esse acontecimento, apenas revela outro, o conservadorismo que já existia e que, em razão de determinadas condições, permanecia latente. Se essa onda conservadora ainda não tem cabeça, forma ou conteúdo definido, disso não se conclui que ela não seja real – ou melhor, potencialmente real. Por onde começar a desvelar essa complexa problemática? A destrinchar esse fenômeno? Onde está o seu início e fim, e sobretudo o seu nó-górdio? A seguir eu avanço uma breve análise preliminar.

Como se trata apenas de um fenômeno recente e cuja manifestação se dá ainda por indícios vagos e desconexos, as primeiras respostas só podem ser tentativas. Precisamos limpar e organizar o campo de análise e ter cuidado para não contaminá-lo com nossas próprias preferências políticas, filiações partidárias, visões de mundo, etc. Um exemplo dessas armadilhas está em como muitas pessoas de esquerda, especialmente as identificadas com o PT, tem usado São Paulo como tipo-ideal e bode-expiatório da tal onda conservadora.

Eu evitaria passar a minha resposta pela hipótese correntemente aventada, porém bastante questionável, que atribui ao paulistano uma personalidade conservadora. Acho difícil supor que um paulistano é mais conservador do que um pernambucano ou um baiano, por exemplo, só porque aquele vota há décadas no PSDB. Do ponto de vista lógico, essa é uma suposição contraditória, porque tem na sua origem justamente uma noção que ela procura denunciar, isto é, parte de um preconceito. Ademais, conservador, dito assim tout court, sem qualificativos, passa uma ideia vaga e confusa. É preciso que nos entendamos em relação a que opiniões, comportamentos, valores nos referimos com o termo. Por exemplo, o preconceito em relação aos habitantes do norte e nordeste é negativo e tende a gerar atitudes e comportamentos xenófobos. Trata-se de um preconceito real, que gera descriminação e se impõe como explicação fácil e falsa num momento de forte antagonismo político. Mas preconceito e discriminação não é necessariamente conservadorismo, embora sejam comumente associados ao campo da direita. No que tange a outras questões, como a liberdade sexual e o direito reprodutivo por exemplo, deve-se se supor que os nordestinos são mais ou menos conservadores do que os sulistas? O ponto aqui é que operamos no terreno de uma suposição impressionista, do “achismo” de cada um, que, como tal, é inferido menos de evidências concretas da vida real do que das próprias opiniões de quem faz tais suposições. Isto é, afirmar que um paulistano é mais conservador do que um outro cidadão qualquer do Brasil diz mais sobre quem afirma do que sobre os paulistanos.

É claro que os paulistanos, assim como todo habitante de qualquer outra cidade, participam de certas experiências próprias à cidade de São Paulo que ajudam a informar um imaginário social coletivo do qual eles tomam parte em alguma medida. São Paulo gira em torno do dinheiro e do consumo, convive com contradições inconciliáveis e desigualdades gritantes, e isso pode se tornar estímulo a uma cultural individualista, competitiva e rancorosa. Contudo, por mais que em São Paulo encontramos exacerbados esses traços, que cidade grande ou média não convive com esses mesmos estímulos?

Mas porque estou falando em São Paulo e paulistanos? Porque se evitarmos as armadilhas do pensamento essencialista, que isola arbitrariamente alguns traços – tidos como importantes não pela coisa em si mas pelo olhar de quem a vê – e os generaliza na forma de estereótipos, São Paulo e os paulistanos nos dão pistas interessantes sobre o que está acontecendo.

Nesse sentido, particularmente interessante tem sido a reação de parte dos paulistanos à política de mobilidade implementada pelo prefeito Haddad, especialmente as faixas exclusivas de ônibus e as ciclovias. Duas medidas que não resolvem por si o gravíssimo problema da mobilidade urbana na cidade, mas que, no entanto, rompem com a lógica individualista e privatista que domina a cultura brasileira desde que o nosso moderno parque industrial foi constituído em torno da indústria automobilística, além de afrontar poderosos interesses econômicos constituídos. Duas medidas primárias, autoevidentes, inquestionáveis, urgentes e extremamente atrasadas em relação a boa parte do mundo, mas que a despeito disso enfrenta a resistência de cidadãos comuns, não necessariamente apenas das camadas mais abastadas, mas também das anchas camadas médias e trabalhadoras, as quais, em tese, teriam muito a ganhar com elas. Como explicar isso?

Às pessoas foi dito desde sempre que ter um carro é sinal de boa situação de vida, de cobiçada posição social, e agora que muitas delas, que até então estavam excluídas deste mercado, podem adquirir um, dois carros, as ruas estão apinhadas e intransitáveis deles. É natural que, pra essas pessoas, medidas que beneficiem o transporte coletivo ou individual não automobilístico e que necessariamente vão afetá-las no já “insuficiente” espaço de que dispõem (pode parecer absurdo um grupo composto por 30% dos citadinos que ocupa 80% das vias queixar-se de espaço, mas por mais ridículo que soe é assim que essas pessoas vivenciam esse fato) sejam recebidas como uma declaração de guerra. Haddad teria indícios altos de aprovação, ao invés de vê-los despencar, se tivesse adotado a política tradicional de ampliar vias, erguer viadutos e construir túneis. Essa é uma posição conservadora? É. Mas ela é fruto de condições sociais, culturais, de experiências e vivências. E, não apenas condená-la, é preciso que compreendamos essas posições em sua própria racionalidade. Rotulá-las de conservadoras no mais das vezes fecha qualquer possibilidade de diálogo e transforma uma posição adversária, que pode ser convencida do contrário, num inimigo, que só pode ser derrotado pela destruição física.

No entanto, para além disso, eu gostaria de chamar a atenção para o fato de que tais posições foram, por assim dizer, “despertadas”, ou seja, aguerriram-se e exaltaram-se em função de avanços no outro campo, o campo adversário. A tal onda conservadora, assim, ao invés de ser um fenômeno abiogênico (surgido por geração espontânea) ou já dado previamente mas não percebido, a onda conservadora é gerada numa relação dialética com outros processos sociais que lhe são antagônicos. Ou seja, toda reação – neste caso, uma contrarreação – implica outra ação oposta. Os grupos oprimidos, equivocadamente chamados “minorias”, através da sua organização e luta vem conquistando espaços, direitos e oportunidades significativos na sociedade e no Estado, e isso leva à contrarreação não necessariamente de grupos opressores, que de alguma maneira beneficiam-se da situação daqueles, mas das pessoas que, independente das posições sociais que ocupam, veem tais conquistas sob uma ótica moral e cultural – mas não funcionalista, como seria de se esperar se as posições se resumissem apenas à relação instrumentalista entre opressores e oprimidos.

Em outras palavras, as pessoas não são, via de regra, conscientes das relações de opressão em que estão inseridas, seja como opressoras ou oprimidas, ao contrário dos valores, crenças, práticas e costumes que sustentam tais relações. Uma vez que tais ideias e ações são hegemônicas, essas pessoas tendem a se colocar contra quaisquer outras ideias que aparentemente representem uma ameaça às suas certezas tradicionais. Essa resistência tem que ser quebrada, para usar um conceito de Chantal Mouffe, na luta política agonista.
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