terça-feira, 4 de novembro de 2014

Nota para uma investigação do cenário político atual

Essa eleição está parecendo uma montanha-russa; é surpresa atrás de surpresa. E não me refiro à morte de Eduardo Campos, à meteórica ascensão e queda de Marina, à virada do Aécio ou à virada da virada de Dilma. Claro que tudo isso contribuiu para fazer desta eleição uma das mais incertas e encarniçadamente disputadas da nossa breve história democrática. Mas para além de constatar a imprevisibilidade desses movimentos fenomênicos, temos que formular questões que os expliquem. Parece que o marco fundamental de análise é junho de 2013. O clima ideológico, as preferências políticas, e os alinhamentos partidários no país se modificaram muito desde então. Não se trata de um raio em céu azul, naturalmente. Havia, sem dúvida, energia cinética para tanto, que vinha acumulando-se há anos. Gestando-se abaixo da superfície, nós não a percebíamos. No entanto, essa concepção processual dos fenômenos não pode perder de vista o fato de que ele só é quando acontece, e que a análise dos elementos que o formaram ajuda explicá-lo a posteriori, mas não é suficiente nem determinante. Um fenômeno social não é uma coisa ou um corpo que se desenvolve organicamente. Nesse sentido, embora o marco inicial da análise seja junho de 2013, apenas durante a campanha eleitoral se configurou o fenômeno que estamos vendo.

Uma das questões mais interessantes a ser explicada é: como um povo tradicionalmente apático e desinteressado em relação ao mundo da política, de repente sai dessa apatia e se torna significativamente interessado e engajado? A segunda questão é: como explicar o realinhamento dos eleitores em torno dos dois polos político-partidários principais que organizam o sistema de partidos desde 1994, os quais até então haviam perdido em muito a sua capacidade de mobilizar sentimentos, identidades e preferências políticas? Ou seja, dois projetos político-partidários e dois atores que vinham sofrendo com descrédito crescente, expressado pela procura de uma terceira via por uma parcela significativa do eleitorado e pela alienação de outra parte, de repente se mostram novamente capazes de mobilizar os eleitores de forma até mesmo passional.

Até a morte de Eduardo Campos, essa parecia mais uma eleição muxoxa, cujo resultado provável (a vitória do PT), já garantido de antemão, apenas havido sido abalado pelas manifestações de massa de junho de 2013, porém não negado. É certo que havia certa expectativa no ar, mas virtualmente nada autorizava supor que seria uma eleição distinta da série de outras que conferiram o Palácio do Planalto ao Partido dos Trabalhadores. Depois da queda do avião em que viajava o candidato “socialista”, essa eleição não seria mais a mesma. A primeira coisa a explicar aqui é a comoção que tomou conta do país e que alçou a ex-senadora Marina Silva ao favoritismo do certame. Foi a grande imprensa que fabricou, com provável fito eleitoral, uma nova versão, burlesca, de Tancredo? Se foi, eu não consigo explicar como ela conseguiu fazê-lo – uma vez que Eduardo Campos era praticamente desconhecimento fora de Pernambuco e não havia sido eleito primeiro presidente civil pós-ditadura –, apenas constato que foi muito bem sucedida. O fato é que, a partir de então e com intensidade crescente, a eleição nacional deste ano começou a atrair muita atenção e a despertar reações cada vez mais fortes. Quem canalizou essa energia potencial liberada foi a candidatura de Marina Silva. Mas, diante dos duros ataques tanto do lado da situação quanto da oposição tucana, e das dificuldades em que a candidata mesma se colou, essa candidatura se mostrou frágil e insustentável. A questão, entretanto, é que PT e PSDB ainda não despertavam os sentimentos que passaram a despertar às vésperas do primeiro turno e, sobretudo, após. Chegamos ao segundo turno num clima de “tudo ou nada”, de “oito ou oitenta”, de “fla x flu”.

Como explicar que pessoas que nunca haviam se interessado pela política, pessoas que tinham asco de tudo que cheirasse a política, com a qual não queriam ter nada a ver, de repente estivessem tão engajadas, de forma voluntária e independente das respectivas máquinas partidárias dos seus candidatos, na defesa dessas duas candidaturas? Ao ponto mesmo de motivarem agressões morais e físicas e rompimentos afetivos. Pessoas que não militam em nenhum desses partidos de repente passaram a militar em favor deles de forma independente e voluntária. Isso é mais visível no campo petista, que serviu de polo de atração de eleitores de esquerda os quais, como tal, são mais engajados politicamente, mas também no campo tucano, que, identificado com a direita, atrai pessoas mais truculentas, intolerantes e autoritárias. , Pode-se tentar explicar esse fenômeno do seguinte modo: dependendo dos valores que uma pessoa esposa, por mais que ela compactue com uma perspectiva antipolítica e portanto tenha aversão aos partidos, ela está mais propensa, num cenário de polarização e de exacerbação dos ânimos políticos concomitantemente a um clima de desejo de mudança e de esgotamento de velhos paradigmas, a abraçar um dos dois campos em disputa, e isso a leva a adotar a identidade partidária que, em outra situação, ela não adotaria, ao contrário, rechaçaria. Ou seja, essas pessoas, apolíticas, detestavam ambos os partidos apenas por falta de oportunidade, e quando o clima de politização e polarização se instalou suas identidades políticas brotaram naturalmente do solo dos seus valores e opiniões e fizeram com que elas alinham-se com um dos respectivos campos.

Entretanto, essa parece ser uma explicação circular. Afinal, se as pessoas despertaram e se engajaram partidariamente em função do clima político polarizado e exacerbado, como explicar essa polarização/exacerbação já que ela pressupõe pessoas despertas e engajadas? Uma saída seria supor que se trata de processos que se realimentam mutuamente e que não há, portanto, sentido cronológico determinado: primeiro as pessoas se engajam e depois o clima polariza ou vice-versa. O engajamento partidário nessas eleições por parte do eleitorado é tanto resultado como pressuposto do cenário político propício ao engajamento. No entanto, há uma dimensão que segue um sentido lógico nesse processo: se, primeiro, as pessoas estavam mais conscientes politicamente e mais propensas a se engajar em torno de um projeto e um ator político, apenas num segundo momento essa propensão se consolida num ator e num projeto político específico a ponto de gerar uma identidade partidária. O próximo passo é, portanto, explicar as condições dessa propensão. Há várias questões a ser analisadas aqui: os sinais de esgotamento de um projeto político há 12 anos no poder que já não exibe a mesma vitalidade de poucos anos atrás; o papel de uma nova geração de jovens que se tornaram adultos nesse interim e que não tem a mesma ligação sentimental com o PT das lutas populares e das disputas eleitorais da década de 1990, uma vez que não passaram por essa experiência; o inconformismo de uma classe média e alta diante do que consideram perda de privilégios e de posições sociais face à ascensão de um contingente enorme de pessoas que os setores governistas passaram a chamar, impropriamente, de nova classe média.
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