terça-feira, 4 de novembro de 2014

A crise hídrica em São Paulo em três explicações

Eu tomava banho e, enquanto a água caía, pensava na crítica situação dos paulistanos e cidades vizinhas; pensava em como não é nada impossível que estejamos à beira de uma das maiores tragédias sociais pela qual esse país já passou (se bem que o semiárido sofre a décadas, séculos com a seca e ninguém daqui do sul se preocupa. Dito isso contudo, a súbita escassez de água numa megalópole que abriga mais de 20 milhões de pessoas teria consequências catastróficas inimagináveis). Eu não quero parecer catastrofista, mas talvez ainda não tenhamos atinado para a criticidade da situação.

Mas além de me condoer pelos paulistas, pensava também no meu lugar em tudo isso. Quer dizer, com que direito eu continuo gastando irresponsavelmente a água que utilizo? O resto do país vai assistir à tragédia como se não tivesse nada a ver com isso? Será que seremos capazes de aprender com ela?

Se vamos continuar elegendo políticos corruptos e defensores de seus próprios interesses e dos seus amigos ricos, políticos que vão gerir mal nossos mais preciosos recursos, que vão fazer dele uma mercadoria e uma fonte de lucro, então que ao menos reflitamos sobre o nosso papel individual no problema: nosso nível alto, irresponsável e leviano de consumo. De 2002 para cá o Brasil cresceu enormemente em termos de população e capacidade/nível de consumo. Mas a mentalidade não mudou. Com efeito, em linhas gerais ela é a mesma ainda do século XIX. Imagina o impacto disso sobre os nossos recursos. Uma revolução nos hábitos e nas atitudes é mais do que urgente.

Eu vejo muita gente culpando o governador do estado de São Paulo e a dinastia tucana pela situação, e com toda razão (ainda que por motivos insuficientes, a saber, partidários apenas: com efeito, se estivesse o PT no poder a situação seria muito diferente? A questão é antes de tudo questionar a lógica da política aplicada e não somente quem a aplica). Mas isso não explica tudo.

Até agora vi apenas duas explicações para crise. Uma culpa a natureza e a outra o governo. Cada uma dessas explicações se articula com um campo político e seus interesses partidários. No entanto, ambas são parcialmente corretas, mas apenas parcialmente, e ainda falta um terceiro elemento.

A natureza é um fator exógeno, que nós não controlamos e cuja capacidade de previsão é limitada (mas isso também é um pressuposto questionável: nós exercemos impacto sobre a natureza e deve-se considerar a hipótese de a estiagem dos últimos três anos ser consequência desse impacto, para além das variações cíclicas normais do clima). Prevê-la e se precaver é tarefa dos governantes e dos órgãos e empresas responsáveis por gerir esse recurso. A população brasileira aumentou muito em tamanho e em capacidade de consumo na última década. Que isso significa impactos tremendos sobre o sistema hídrico é óbvio. E já é de conhecimento corrente que os técnicos e agentes públicos sabiam e alertavam para os gargalos nesse sistema e se não se tomou medidas foi por decisões políticas, entre equivocadas e basicamente criminosas.

Aqui entre a segunda explicação para crise: o papel das autoridades públicas. Por mais que se sabia da pressão sobre o sistema hídrico, sobre a possibilidade de um esgotamento e de uma crise iminente no caso de estiagem, os agentes públicos diretamente responsáveis por tomar medidas que corrigissem esses problemas não o fizeram. Não apenas por negligência, mas por dar preferência aos interesses de investidores e executivos. A água é um recurso primário e estratégico com uma óbvia função social, mas ao invés de ser tratada como um bem e serviço públicos foi tratada como uma mercadoria no sentido estrito do termo, isto é, como meio de obter lucros. Os enormes lucros que a Sabesp percebeu na última década ou mais foram usados para enriquecer investidores e não para investimentos no setor.

Tudo isso é verdade. E é odioso. Não se pode por um segundo sequer se esquecer ou minimizar a responsabilidade dos políticos e burocratas diretamente responsáveis pela crise. E isso implica dar nome aos bois: a conta da crise hídrica em SP, que pode se transformar a curtíssimo prazo numa tragédia de proporções épicas, é o PSDB, o Geraldo Alckmin, o José Serra e demais figurões do tucanato ligados à gestão de 20 anos do executivo do estado. Além de sucatear a Sabesp, não fazer os investimentos necessários no setor, negligenciar os riscos e preterir o interesse público em favor de interesses privados, esses senhores ainda administram a atual crise da forma mais criminosa e cínica possível. Ao invés de reconhecer publicamente a gravidade da situação e de tomar medidas contundentes, os tucanos estão mais preocupados com os reflexos eleitorais negativos que tais medidas e reconhecimento podem fazer surtir. Pensando nas eleições, o governo do estado omitiu e maquiou a situação, fez manobras populistas, e com isso colaborou para piorar a situação, pouco importa a que custo social e humano, já que seu cálculo é político, eleitoral e partidário. Um crime grotesco.

Não obstante, em que pese tudo isso, não podemos nos resignar a uma visão autocomplacente em relação ao papel individual e comportamental das pessoas. Aqui entra a terceira explicação para a crise: ela é cultural e muito mais difícil de ser tratada. Sua causa é toda uma complexa concepção equivocada da nossa relação – isto é, da sociedade – com a natureza; as ideias de que a sociedade é exterior à natureza e não parte constitutiva dela, de que a natureza constitui um estoque de recursos que pode ser explorado e consumido infinitamente, de que o modelo sobre como produzir e consumir esses recursos deve ser dado pela lógica do mercado e não pelo interesse coletivo, de que viver bem é consumir o máximo possível, etc. Nossa forma de consumir a água, por exemplo, esse bem tão essencial, é absurdamente irracional, ineficiente, leviana. E não digo isso apenas pensando em pessoas que lavam calçadas com mangueira ou que lavam a louça com a torneira aberta, mas a falta de estruturas básicas que aproveitem de modo mais eficiente a água, como reutilização de água do banho, por exemplo, para limpeza da casa.

Não sou técnico nem engenheiro, de modo que não sei o que poderia ser feito neste sentido. Mas é óbvio que muita coisa pode ser feita e é absolutamente urgente que a façamos. Não é possível que vamos atravessar essa crise sem repensar o essencial: a nossa forma de se relacionar com a natureza e de conceber essa relação. É preciso pensar a sociedade e a natureza como uma totalidade viva e dinâmica que dependem uma da outra e nós como fazendo parte dela e responsáveis pela sua preservação. É preciso entender que o ato individual de cada um afetada esse sistema. E é preciso que sejamos responsáveis. Claro que devemos punir governantes que tratem a coisa pública com fins privados e particulares. Mas não basta substitui-los por outros, menos corruptos e privatistas, e continuar a sustentar níveis irreais de consumo. Não basta resolver os gargalos do sistema. É preciso também diminuir a pressão sobre ele. E isso cabe a cada um de nós também.
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