domingo, 31 de agosto de 2014

Sobre racismo e racistas (ou: de te fabula narratur)

O episódio de racismo envolvendo a torcida do Grêmio e o goleiro do Santos gerou uma onda de revolta e indignação que tomou as redes sociais. Mas é duvidoso se essa é uma resposta correta.

A minha timeline foi inundada por fotos e vídeos de uma garota xingando de “macaco” o jogador santista. A título de explicação, acompanhando essas fotos e vídeos não vi nenhuma ideia ou argumento profundos, além de mais xingamentos, ameaçadas e desejos de “punição”. 

Linchamentos e caças a bruxas são respostas emocionais que se orientam por preconceitos e que buscam expurgar o mal através da violência ao personificá-lo em determinadas pessoas claramente identificáveis e responsabilizáveis. Nisso, não se distinguem do próprio mau ao qual se opõem: os linchamentos públicos racistas de jovens negros e pobres acusados de crimes seguem precisamente a mesma lógica. E o exemplo perfeito disso é que de anti-racistas muitas das declarações na rede mostraram-se machistas e, em casos extremos, misóginas e violentas. 

Se houvesse coerência nisso tudo, deveríamos caçar e linchar também quem chamou a garota de “vadia” e “vagabunda” que merecia “ser estuprada” – e não foram poucos. Nada no comportamento dessas pessoas, aparentemente comprometidas com a justiça, se distancia do comportamento daquela que tomam por réu: foram preconceituosas, discriminatórias, odiosas, e se protegeram covardemente atrás da massa e do anonimato virtual. 

Uma vez que a impunidade e o anonimato incentivam comportamentos ofensivos e racistas como o da torcedora gremista, é necessário identificar e punir seus responsáveis onde e quando ele ocorrer. Mas isso de modo algum deve ser feito como uma turba ensandecida exigindo que alguma cabeça seja cortada como reparação. Por mais difícil que seja, deve ser feito racionalmente e com dignidade. 

É como se de repente o racismo se personificasse numa única pessoa. A turba confortavelmente esquece, assim, que, tal como 99% do crime de estupro é cometida não por homens desconhecidos em algum beco escuro mas por homens próximos da vítima (maridos, pais, tios, amigos), 99% do racismo não é praticado ostensivamente mas por atitudes veladas e sutis. Assim, o racismo deixa de ser um problema social para se tornar um problema individual, moral, de caráter. 

Aparece aqui claramente o mecanismo de expurgo e expiação dos próprios pecados através de sua atribuição ao Outro: uma vez transferido todo o mau e todo a culpa a uma pessoa claramente identificada, pode-se, de um lado, eximir-se de toda responsabilidade por ele, assim como, de outro, destruí-lo ao destruir a sua personificação. 

Com isso, os justiceiros podem ir dormir o sono dos justos, imaginando que nada têm a ver com o racismo, e que o mundo agora é um lugar melhor porque uma racista foi destruída. Mas quantos deles podem honestamente dizer que nunca tiveram um pensamento ou uma atitude racistas?
Postar um comentário