domingo, 3 de agosto de 2014

Religião e ciência

Quando se afirma que a religião é uma ideologia com consequências negativas para o ser humano, um limite para a emancipação humana, como afirmam muitos pensadores de esquerda, isto é, de que toda religião é má em si mesma (o “ópio do povo”), estamos reproduzindo um mito do pensamento moderno, qual seja, a ideia de que o conhecimento derivado da ciência é superior, e que o pensamento religioso é arcaico e equivocado, quando não mistificador. Reproduz-se também a ideia de que somente a ciência, a única capaz de captar a verdade objetiva, pode libertar a humanidade da opressão, do sofrimento, da miséria. Quem defende essa afirmação adota, quer queira quer não, acriticamente a própria representação que a ciência faz de si mesma. Hoje, após o Holocausto (para mencionar apenas um genocídio feito por meio da ciência e legitimado por ela), o quanto a ciência contribui para a escravidão e destruição da espécie humana. Essa representação ignora, por exemplo, o papel da ciência na criação da noção de raça e no seu subsequente desenvolvimento nas teorias e ideologias racistas. Ainda mais importante do que isso, ela ignora que tais ideias se batiam exatamente contra a doutrina cristã da unidade da humanidade, e que uma das condições necessárias para que surgissem era a secularização da sociedade e do pensamento, processo no qual a ciência teve papel central. Ou seja, a derrota da religião e a vitória da ciência é que deu origem a sistemas de representações e práticas talvez muito mais homicidas e terríveis do que a Inquisição Espanhola. E até hoje, a despeito da crítica pós-moderna, estratégias ideológicas de proteção da ciência impede a plena compreensão disso. Impede a compreensão de que o Holocausto, por exemplo, não foi um regresso do barbarismo fanático de tipo religioso: foi a realização plena da ciência. Assim, reescreveu-se a história com base no discurso modernista centrado na ciência, e apagou-se o fato de que o racismo moderno é muito mais um produto da ciência do que da religião. Isso não quer dizer que não existia uma espécie de proto-racismo derivado de práticas de exclusão entre grupos definidos religiosamente, como era o caso do antissemitismo pré-moderno. Não vamos cair na vulgaridade de inverter o argumento. Essa estratégia dicotômica implica uma escala de valores. Mas não se trata de definir qual forma de pensamento está certo ou errado, ou qual delas é mais positiva ou menos nociva para a humanidade. É precisamente essa escala de valores, onde a ciência ocupa o topo, que deve ser desmontada. Para isso, é preciso desconstruir os mitos que a ciência criou e legitimou para si mesma. O fato de que até hoje muitas tradições de pensamento ainda defendam princípios modernistas, como a fé na ciência, no progresso, na secularização, demonstra a força desse mito e desse discurso. Questioná-lo é fazer justiça tanto à religião quanto à própria ciência.
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