quarta-feira, 6 de agosto de 2014

Problematizando a noção de sionismo

Nas últimas semanas vi muitos posts fazendo distinção entre judaísmo e sionismo. Essa é uma visão otimista, porém injustificada. Ela tem, sem dúvida, um objetivo instrumental: desautorizar as acusações retóricas de que se opor à política israelense e apoiar a luta palestina seria antissemitismo, acusações que se aproveitam da benevolência e condescendência irrestritas dadas aos judeus como compensação ao Holocausto (e como baluarte de defesa dos interesses ianques no estratégico Oriente Médio). Neste sentido, trata-se de uma distinção justificada. Mas é muito difícil hoje sustentar que judaísmo e sionismo sejam coisas absolutamente distintas. Separar uma coisa da outra é cair no anacronismo. Embora tenham raízes históricas distintas, como religião e ideologia, como cultura e projeto político, ambas se fundiram completamente na figura do Estado de Israel. Pesquisas feitas no calor do momento são sempre suspeitas, mas é inegável o suporte enérgico dado pelos israelenses ao massacre empreendido por seu governo em Gaza: 90% da população, sendo que apenas 4% acha que o exército tem usado "força excessiva". Esses que apoiam e comemoram o genocídio sionista são quem senão judeus orgulhosos? Se nós acreditarmos que os judeus não são sionistas, o que se passa então? Como um grupelho sionista fanático tomou o poder e empurrou goela abaixo dos judeus a doutrina sionista? Acho que somos nós que estamos tentando dizer ao judeus que eles não são necessariamente sionistas. Mas eles mesmos dizem outra coisa. Na verdade, o argumento acima pressupõe um sentido amplo para o termo sionismo. Não somente como uma ideologia e um projeto político sistemático, mas como uma crença difusa na legitimidade do Estado israelense e na necessidade da sua defesa; uma representação negativa dos palestinos e uma justificação para discriminá-los. Isso parece muito com a discussão que Pierre-André Taguieff faz sobre o racismo, ou seja, de como ele deixou de ser uma teoria bem definida e construída sobre bases biológicas pseudocientíficas e se tornou atualmente um discurso sutil e velado que se reveste de anti-racismo ao aparentemente afirmar o direito às diferenças. Essas estratégias pós-racistas permitem às formas novas de racismo escapar da crítica e da luta anti-racista que se baseiam ainda numa concepção clássica do racismo. A mesma coisa vale para a luta antissionista: se o sionismo é uma doutrina teórica particular sobra relativamente poucos defensores seus a combater, na medida em que ninguém mais se vale do discurso sionista clássico, anterior à II Guerra. Quem não consegue apreender a novidade dessa forma velada de sionismo, incorporada às representações cotidianas das pessoas, acaba caindo em duas alternativas: ou é obrigado a admitir que o sionismo não existe mais, ou é obrigado a supor que apenas os detentores do poder político são sionistas, suposição que descamba em um maniqueísmo grosseiro.
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