sexta-feira, 1 de agosto de 2014

Por que Israel não quer destruir o Hamas?

O primeiro ponto que temos de entender é que Israel, nomeadamente a extrema direita no poder, tem um objetivo, e este certamente não é destruir o Hamas, e tem um plano para atingi-lo. O objeto é manter o controle sobre as terras palestinas e ampliar sua posse sobre elas. O principal modo prático de fazer isso é fomentar a colonização (sim, para quem pensa que colonização é uma prática arcaica, do passado, Israel faz isso atualmente sem remorso ou pudor). Além disso, Israel precisa manter sua própria população palestina em uma posição de cidadãos de segunda classe, inviabilizando sua influência política e ideológica. Outro objetivo, a longo prazo, é inviabilizar qualquer possibilidade que comporte uma “solução de dois Estados”. Isso é absolutamente crucial para Israel. Seu comprometimento formal com essa solução é puro diversionismo. Um terceiro objetivo seria impedir algo que, nas atuais circunstâncias, parece um sonho impossível: o regresso das centenas de milhares de palestinos expulsos durante a guerra de 1948. Para a consecução desses objetivos o Hamas é um elemento estratégico essencial. De fato, sem ele, tornar-se-ia cada vez mais difícil para Israel justificar seu militarismo e, acima de tudo, sua sabotagem sistemática de qualquer acordo de paz.

Como se sabe desde tempos imemoriais, uma guerra é o melhor jeito de abafar divisões internas e unificar a população. Melhor que uma guerra, só uma guerra fria, que não se sabe como termina, nem se sabe mais ao certo como é que começou. A guerra fria parece sempre ter estado lá, e essa presença aparente é traduzida na ideia de que os beligerantes sempre foram inimigos eternos. E isso já impõe de saída a suposição de que uma solução que não implique a destruição de um dos lados seja sequer factível. A guerra, ou a suposta ameaça de guerra, permite sustentar a preeminência de razões de Estado e medidas de segurança nacional sobre o direito internacional, a democracia ou princípios humanistas. Tudo isso por sua vez, gera e mantém a atmosfera de tensão, medo e ódio que leva as pessoas a abdicar do juízo e a seguir como cordeiros assustados seus líderes mais radicais.

O papel que o Hamas desempenha, involuntariamente, nessa estratégia é bastante óbvio. É verdade que inimigos e ameaças não são difíceis de inventar, tanto mais no Oriente Médio. Antes do Hamas era a OLP, e antes da OLP eram indistintamente todos os árabes ao redor. Mas cada circunstância tem suas exigências, e atualmente sem um inimigo claramente identificável, com praticamente todos os países árabes apoiando indiretamente através da omissão o sionismo israelense, Israel precisa de uma ameaça e um inimigo claros. Hamas serve perfeitamente de bote expiatório. E isso especialmente devido a fato de que ele controla apenas a Faixa de Gaza – ou alguém acredita honestamente que Israel a desocupou em 2005 para demonstrar boa vontade? Gaza é irrelevante diante da meta maior que é a Cisjordânia. Eu não quero soar como teórico da conspiração, mas não ficaria nada surpreso se Israel fizesse vista grossa para o contrabando de armas e material para foguetes que passa pela fronteira com o Egito, uma vez que todo o restante encontra-se sobre forte controle israelense. Desde 2007, as agressões e bombardeios feitos contra Gaza não são simples retaliações ou medidas para debilitar o Hamas, mas fazem parte dessa estratégia geral. Além do fato de que os casus belli alegados por Israel são geralmente decorrentes de provocações deliberadas por parte do próprio Estado de Israel. De resto, Israel cria uma situação tão absurda e desesperadora que provoca respostas igualmente desesperadas dos palestinos. Essa resposta Israel usa como justificativa, gerando um ciclo vicioso.

A compreensão disso tudo – de que Israel não deseja uma solução de dois Estados, que nem mesmo deseja uma solução para o “conflito” que não seja a completa expulsão dos palestinos e a apropriação de suas terras – é uma premissa sem a qual nenhuma discussão sobre a “questão palestina” é possível. Essa ela é a reiteradamente suprimida pelas grandes mídias nacionais e internacionais, que fazem o possível para preparar a opinião pública para engolir a agenda política de Washington e de Tel-Aviv.
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