quinta-feira, 28 de agosto de 2014

Intolerância tolerante

É muito interessante notar como as formas de intolerância contemporâneas se valem de certas estratégias discursivas a fim de se fazer passarem por tolerância. Dois exemplos nos ajuda a pensar essa questão: um em relação à homofobia e o outro à xenofobia. Em ambos os casos, a postura tolerante do indivíduo membro do grupo dominante é sempre condicional à própria representação esteriotipada que ele faz dos membros do grupo dominado, os quais são divididos em aceitáveis e não aceitáveis. Em termos práticos, o homofóbico tolerante aceita que o gay seja gay, desde que não seja bicha, isto é, desde que ele seja parecido com um homem; do mesmo modo que o xenofobico tolerante aceita que o estrangeiro viva em seu país, desde que ele se aproprie plenamente da língua e da cultura enquanto abdica das suas. Ou seja, a alteridade do Outro é aceita desde que ela seja negada; o Outro é aceito desde que seja como o Nós. Assim, pode-se perfeita e paradoxalmente ser, a um só tempo, tolerante e intolerante, inclusivo e discriminador.

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