sábado, 30 de agosto de 2014

Eleições 2014 (II)

O tempo pode passar duas idéias distintas: por um lado, sugere experiência e, portanto, capacidade; por outro, sugere caducidade e, assim, morte. O PT tem sido ameaçado por essa segunda idéia.

O partido não pode evitar ser responsabilizado pelo que fez e pelo que não fez. Como está no poder há 12 anos, enfrenta os ataques da oposição de direita, muito bem armada através da mídia e da influência ideológica das “elites”; mas enfrenta também investidas vindas à sua esquerda, desde grupos e movimentos que lhe fazem oposição até aqueles que consideram o partido um aliado. Fora desse eixo, existe o campo dos não-alinhados, que cresce cada vez mais, especialmente com os jovens adultos que ingressaram no mercado de trabalho já em tempos de PT.

Tudo o que o PT pode fazer é exagerar as diferenças entre ele e a oposição, além de superestimar os feitos da sua própria administração, assim opondo dois projetos tidos como os únicos possíveis: a continuidade entre o que supostamente está dando certo, ou o retorno àquilo que deu errado. O partido construiu para si mesmo o mito de um consenso, uma “pax social”, em torno de um modelo desenvolvimentista autônomo, sustentável e estável. Mas à medida que os sinais de que um terremoto se aproxima ficam evidentes, torna-se-lhe cada vez mais difícil esconder as rachaduras nesta construção mítica.

Em suma, como é o partido há mais tempo no governo, exibe a cara de cansaço, tem dificuldades em se recriar e leva porrada de todos os lados, ao mesmo tempo em que é chamado para prestar contas do que fez e não fez durante esse tempo.

O PSDB, visto como aquele que já teve a sua chance mas falhou, não conseguiu até o momento emplacar o nome do seu candidato à presidência, e com a ascensão da Marina essa possibilidade torna-se mais e mais distante. Os tucanos tinham interesse em incentivar a candidatura da ex-ministra do meio ambiente como meio de desorganizar o campo petista, já que os votos dela saem principalmente da base governista descontente, além dos independentes e novos eleitores. O problema é que o feitiço virou-se contra o feiticeiro, e a criatura mostra-se muito mais forte do que imaginava o criador. Como resultado, o PSDB pode amargar seu pior resultado a nível nacional em 20 anos, ainda que tenha força suficiente para barganhar e influenciar as pautas políticas.

No momento, seria temerário prever a vitória de Marina num provável segundo turno. É preciso esperar para ver se o fenômeno da sua ascensão meteórica não passará de fogo de palha assim que os ânimos se acalmarem, ou se o PT será capaz de reverter essa tendência. Um eventual governo Marina romperia com toda a sua retórica de “nova política” e escancararia a falsidade da tese da "terceira via". Seria obrigada a fazer alianças espúrias e de ocasião – o que ela já demonstrou não ter pudor de fazer –, e a questão da governabilidade seria o seu pé de barro, ainda mais do que foi para o PT. Lotada por razões pragmáticas e de conveniência numa sigla pequena como o PSB e coligada com outros partidos nanicos, depois da morte de Eduardo Campos, seu protetor dentro dela, Marina encontra-se isolada. Na hora de barganhar, seu apelo pessoal junto ao eleitorado de nada servirá.

Quanto ao seu programa econômico, nada há nele de novo, antes o contrário. Retoma a via neoliberal algo mais crua de FHC, que havia sido temperada com alguns poucos ingredientes socialdemocratas pelos petistas. A população, grosso modo, nada entende de política econômica. Mal informada e leiga em relação a problemas complexos, ela é presa das falsificações retóricas dos grupos dirigentes e do modo como a grande mídia (especialmente televisiva), autointeressada, filtra os embates entre eles. A população entende é do seu bolso. Por mais que a economia patine e arrisque descambar, enquanto isso não se fizer sentir no nível de vida do trabalhador médio (e o PT, sabendo disso, tem feitos esforços homéricos para maquiar a situação), ele se manterá fiel ao governo que, segundo entende, foi o responsável pela sua melhoria de vida na última década. Eis aí a frágil e única pilastra que mantém a Dilma, para todos os efeitos, ainda na liderança.
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