sábado, 30 de agosto de 2014

Eleições 2014 (I)

O resultado da eleição nacional deste ano, que parecia bastante claro, torna-se cada vez mais turvo. O fator Marina tem crescido nas últimas semanas, especialmente depois da morte do seu candidato à presidência, Eduardo Campos. Como e porque um evento trágico como esse pode refletir em votos para a ex-candidata a vice-presidente e agora sucessora “outsider” do falecido líder do PSB é uma questão de difícil resposta.

Parece uma resposta emocional dos eleitores, e de fato o é. Não é incomum que a população responda emocionalmente a um evento político trágico. Mas uma resposta emocional necessita, para se concretizar, encontrar determinadas condições que, estas sim, podem ser explicadas racionalmente.

A questão aqui não é se Marina representa uma “terceira via”ou não, ou seja, uma nova forma de fazer política, tão diferente e distante do PSDB quanto do PT. Não é. No fundo, a política é um museu de velhas novidades. Raramente há algo de novo sob o sol. A questão é se ela é percebida assim ou não pelos eleitores. E, para tanto, não basta a retórica da candidata, nem seu “sexy appeal”.

Desde a eleição de 2010 ficou evidente que a Marina tinha enorme potencial de crescimento. Muita água rolou de lá pra cá, e não é impossível que ela acabe alimentando o seu moinho. Progride uma crescente, embora difusa e vaga, onda de insatisfação popular. Por mais que os setores governistas tentem pintar um quadro róseo de desenvolvimento e avanços contínuos e sustentáveis, o modelo petista dá sinais evidentes de esgotamento. Sua base de sustentação, ainda muito firme em 2010 como provou a eleição de uma insossa Dilma, começa a vacilar.

De modo geral, 12 anos é uma idade avançada para qualquer projeto de governo e resistir a ela é um desafio enorme a qualquer ator político. Se recriar sem deixar o palco e voltar aos bastidores é quase impossível. Não adianta os governistas baterem na tecla do (quase) pleno-emprego e da redistribuição de renda. No exato momento quando a economia perde totalmente o fôlego e os problemas estruturais saltam aos olhos, as franjas marginalizadas da população que foram alçadas a uma situação relativamente melhor querem mais. As classes médias, por seu turno, estão aborrecidas como sempre, e a burguesia não tem mais feito o dinheiro que vinha fazendo na última década.

De diferentes maneiras, cada um desses setores expressa seu descontentamento, embora não necessariamente sua oposição. Por outro lado, o principal partido de oposição, e antigo antecessor, o PSDB, não conseguiu até agora se reorganizar durante a era petista, nem fazer-lhe frente, e portanto não se apresenta, ou melhor, não é visto como uma opção original ou viável.

A verdade é que o Brasil viveu, praticamente ao longo de todo este seu último período democrático, um sistema bipartidário de fato. Quando isso acontece, a tendência é que ambos os partidos hegemônicos se alinhem no centro do espectro político, ainda que se distingam tradicionalmente dentro do velho binômio esquerda-direita. Tão logo fatores externos – como uma crise econômica, por exemplo – ponham em xeque a estabilidade e a legitimidade desse arranjo, a percepção das diferenças entre os dois partidos desaparece, e a tendência do eleitorado é justamente procurar pela tal da terceira via.

Nem sempre ela existe. Se no Brasil houvesse um partido de extrema direita capitaneado por um líder populista, provavelmente teríamos aqui um fenômeno parecido com o que se observa em alguns países da Europa. No nosso caso, o fator de desequilíbrio é a Marina Silva. E ela provavelmente sabe de tudo isso. Não é inocentemente que ela joga PT e PSDB um contra o outro, ao mesmo tempo em que procura se apresentar como fora e acima do confronto entre eles. E, desgraçadamente para ambos, quanto mais miram sua artilharia nela, mais o fogo volta contra si mesmos. Até mesmo o grande bloco de oposição, que imaginava que alimentando a Marina criaria uma ameaça para a situação, a qual pudesse manobrar e controlar, percebe que a fera está ficando grande e forte demais.
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