quarta-feira, 9 de julho de 2014

Sobre a derrota da seleção brasileira

O legal de tudo isso é ver a reação das pessoas. Tem gente que chora copiosa e honestamente. Tem gente que faz troça, só pelo prazer de tripudiar ou pra não perder a esportiva mesmo. Uns sofrem de verdade, outros dão de ombros, com ou sem pesar, mas todos, afinal, têm de voltar ao ramerrão da vida.

A Copa mobiliza muitas pessoas diferentes, desde os fanáticos membros de torcidas organizadas, até aqueles que só torcem para a seleção de quatro em quatro anos. E como todo esporte, gera respostas emocionais e irracionais. A histeria é compreensiva, e muita gente dirá muita bobagem pra explicar ou justificar alguma coisa. Vão tentar encontrar culpados, de preferência um específico a quem possam pregar na cruz, com o alívio de consciência que só explicações simplistas podem oferecer.

O torcedor vai parecer desleal e incoerente, e eu quero acreditar que não por corrupção de caráter, mas por causa da comoção. E comoção passa. Sim, havia muita expectativa pelo fato de o Brasil sediar novamente uma Copa depois de 64 anos. Botaram chucrute na nossa pilsen. Eu não entendo nada de futebol, e deixo aos que entendem a análise crítica das causas e fatores da derrota.

Foi humilhante? Foi. Mas há outras coisas muito mais humilhantes pelas quais não nos envergonhamos tanto assim, como o nosso nível educacional, as taxas de homicídio que afetam a juventude negra e pobre, a índice de violência contra a mulher, a situação calamitosa nos hospitais públicos, e por aí vai. Nisso tudo o Brasil é hexa.

Mas também não entro na onda do "se você torce você é um idiota, porque enquanto te exploram você grita gol". A gente faz muita coisa enquanto somos explorados (e enquanto exploramos), e muita exploração, crimes e injustiças acontecem diariamente sem necessidade de haver Copa e de você gritar gol (e talvez se não fosse a Copa muita gente nem ia pensar nisso).

Deixa a comoção, a raiva e o espanto, passar. Pode falar bobagem. Só não vale cair no cinismo e no mesquinharia. Esperneou? Chorou? Praguejou? Então podemos voltar à razão e pensar nos problemas do país e da nossa gente, dxs pobres, dxs trabalhadores, das mulheres, dxs negrxs, dxs homossexuais, da juventude, dxs índígenas, dxs sem-terra e sem-teto; pensar no que a Copa deixou de legado, político e social; pensar no projeto de sociedade que estamos construindo e qual queremos.

Tem eleição esse ano. Eu, particularmente, não acredito que esse sistema político e uma democracia formal vão mudar alguma coisa (porque é precisamente isso que tem que mudar), mas é preciso começar de algum lugar e eis aí um bom momento pra discutir política e buscar se organizar de alguma forma. Quando a mesma atenção e engajamento espiritual for dado à política, então poderemos esperar um futuro melhor.
Postar um comentário