segunda-feira, 14 de julho de 2014

Pequeno-burguês ou pequena-burguesia?

Por favor, alguém me responda: a expressão “pequeno-burguês” é um conceito ou apenas uma imprecação que lançamos à cara de quem não compartilha dos nossos valores supostamente progressistas e revolucionários? Essa expressão assumiu uma infinidade de significados e intensões distintas ao longo da história, e, a despeito disso, a tomamos como dada, sem resgatar sua origem, ou, ainda pior, a utilizamos sem explicitar exatamente o que entendemos por pequeno-burguês. Ao que me parece, assim como outras expressões apropriadas politicamente, como fascismo ou democracia, ela foi também totalmente esvaziada de conteúdo, tornou-se uma casca vazia cujo interior preenchemos com qualquer noção preconceituosa. Mas, sejamos honestos, dentre tantos significados, apenas um pode ser seriamente considerado um conceito analítico e operacionalizado como tal: o conceito de pequena-burguesia, tal definido por Marx, isto é, como uma classe social determinada pela sua posição no interior da estrutura de relações sociais capitalistas. Neste sentido, trata-se de um conceito eminentemente sociológico, que difere da expressão “pequeno-burguês”, a qual já não remete ao campo social, estritamente falando, como a pequena-burguesia, mas ao campo político e ideológico. É certo que Marx não concordaria com esse entendimento, porque a ideia que ele fazia do comportamento ideológico e político da pequena-burguesia era deduzida de seus pressupostos teóricos, isto é, a pequena-burguesia é reacionária e mesquinha – filisteia Marx diria – porque se encontra em permanente tensão, esmagada entre o proletariado e a burguesia, o que a leva a sonhar com um capitalismo romantizado de livre-iniciativa incompatível com a própria evolução do capitalismo, necessariamente monopolista. Pode ser o caso de que esse conceito tivesse mais valor empírico na época de Marx – o que eu duvido, porque a estrutura de classe provavelmente era se não tão complexa quanto a nossa, não muito diferente –, mas o ponto aqui é que o comportamento da pequena-burguesia, deduzido da posição de classe, é uma hipótese que toda a água que já rolou de Marx para cá mostra ser inválida empiricamente. Assim, um comportamento “tipicamente” pequeno-burguês pode ser “encontrado” em todas as classes, estratos e grupos sociais que se quiser, e nas mais variadas formas concretas. Trata-se de uma hipótese inválida porque todos os valores e ideias que constituem uma identidade social não têm na classe seu fundamento último, nem são explicados por ela. Isso que era pra ser uma hipótese refutada (embora, talvez, continue sugestiva se utilizada com sabedoria), tornou-se uma noção aparentemente unívoca e sólida, mas que por detrás desta fachada esconde ideias equívocas, preconceituosas e, não raro, intensões demagógicas. Assim, podemos alcunhar pejorativamente de pequeno-burguês, imaginando estarmos amparados em um sólido conceito, a artista que supostamente compartilha de ideais “decadentes” burgueses, o militante político que busca uma “terceira via”, e, basicamente, todos aqueles que se desviam do programa “marxista-leninista”.
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