domingo, 6 de julho de 2014

O bom-mocismo hipócrita do torcedor brasileiro

De repente, não mais do que de repente, todo torcedor brasileiro virou adapto romântico e quase religioso do futebol-arte. Arrisco o palpite de que isso só porque foi colocado na posição de vítima. Algo me diz que, se fosse o contrário, estariam defendendo o golpe covarde do Zuniga ou, ao menos, fingindo joão-sem-braço. Agora é esse espetáculo piedosamente comovido de pureza e santidade no futebol: o futebol arte brasileiro, futebol moleque, contra o futebol ardiloso e velhaco do resto do mundo, o bem contra o mau. Como se lances do tipo que tirou o Neymar da Copa, premeditadamente mal intencionado, não fossem parte intrínseca do futebol. Diz o provérbio que no amor e na guerra vale tudo. É perfeitamente este o caso, uma vez que futebol é justamente uma história sobre amor e guerra. Tal como no amor e na guerra, nós tendemos a idealizá-lo como heroico e lírico, quando na verdade tem muito também de sordidez, de mesquinharia e de desonestidade. Isso não significa justificar o que o Zuniga fez. Ele tem que ser punido e pronto, fim da história. Mas também não justifica esse surto hipócrita do Brasil injustiçado e vitimizado. O partidarismo fla-flu do futebol – e a maior prova disso é que até ontem os que estavam prestando solidariedade ao Tinga vítima de racismo agora fazem a mesma coisa contra o Zuniga –, uma espécie de ultranacionalismo ufanista sublimado pelo esporte, cega para uma verdade simples como essa, e leva a um comportamento tão irracional quanto a própria ação que o motivou. Entre o golpe do Zuniga e o linchamento moral dos brasileiros não há diferença alguma: ambos são irracionais, injustos e covardes. Não se trata de fascismo, como alguns caracterizaram a reação do torcedor brasileiro. Fora o fato de que esse termo não tem mais qualquer conteúdo histórico e social definido, chamar alguém de fascista é um recurso retórico bastante utilizado para apartar um “nós”, os bons, idealizado de um “eles”, os maus, também idealizado, e serve como um analgésico para aliviar a nossa responsabilidade. Assim, de repente o torcedor ao lado se torna um fascista com o qual eu não tenho nada a ver. Mas tem. Afinal, ameaçar e ofender o Zuniga nas redes sociais é tão diferente assim de xingar a mãe do juiz? Futebol é isso. É bonito e feito, digno e vil, tudo ao mesmo tempo. Parem com esse bom-mocismo ridículo e hipócrita que vocês não estão enganando ninguém.
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