quinta-feira, 3 de julho de 2014

Moto, espaço urbano, juventude e favela

A moto, enquanto representação do ideal de liberdade, é mais do que um valor de alguns grupos que constroem sua identidade com base em um "estilo de vida sobre duas rodas", como é bem mais do que uma ficção hollywoodiana. Outrossim, significa bem mais do que a liberdade de ir e vir per se, porque a liberdade de ir e vir é uma variável dependente do espaço urbano. Não é à toa, portanto, que a moto exerce um fascínio tão forte sobre os jovens de periferia e de baixa renda. Não se trata apenas de possuir um símbolo de status, já que muitas vezes esses jovens nunca terão mais do que uma 125cc, quando tiverem (e muitas vezes como meio de trabalho), embora do ponto de vista de seu próprio meio social a moto representa decerto status. Trata-se, sobretudo, de poder, poder sobre o espaço urbano que lhes é negado. Não ter carro, depender de transporte público cuja finalidade é transportar trabalhadores e não cidadãos, viver nos guetos e periferias afastadas, tudo isso são formas de apartar determinados grupos urbanos do próprio espaço urbano onde vivem. A moto lhes restitui esse direito, o direito ao usufruto da cidade. Além disso, esses jovens nutrem de certa forma uma animosidade em relação aos privilegiados que dispõem de carro, e a moto lhes permite sobressair-se em relação a eles. Ela é ágil, rápida, e costura facilmente o trânsito. Ela zomba, por assim dizer, daqueles que sempre zombaram deles.
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