terça-feira, 22 de julho de 2014

Esse não é um texto feminista: é um texto feminista de um homem machista para outros homens machistas

Como a maioria dos homens, eu nunca me considerei machista. Aliás, considerar-se machista é como considerar-se fascista, homofóbico, de direita: não sou, mas... Talvez eu nunca houvesse pensado seriamente sobre o assunto. Sabia, obviamente, que acontecem estupros, assédio, violência doméstica (um eufemismo que hoje eu sei esconder as palavras mais terríveis e mais honestas de “violência contra a mulher e feminicídio”). Mas não ligava nada disso a mim. Assim, eu dividia confortavelmente os homens do mundo em duas categorias: os que estupram, violentam, assediam, ofendem, e os que não, onde eu, naturalmente, me encaixava. Inconscientemente, reduzia o problema do machismo a um problema de caráter, moral, individual.

Sem dúvida eu desconhecia a real dimensão do problema, uma vez que isso é algo do qual não se deve falar, do qual não se quer falar. Vivemos numa democracia, num Estado de direito, e tudo isso significa igualdade e ponto, assunto encerrado. Mas o ponto é que eu, uma pessoa instruída, progressista, crítica, jamais me consideraria um machista, assim como muitos/a maioria/todos os homens que eu conheço. Eles também não se consideram machista, e sem dúvida eles se indignariam honestamente diante do fato de um estupro, por exemplo, ou de uma agressão contra mulher. Mas até que ponto não poderiam ser eles mesmos um estuprador? Um agressor? Até que ponto não poderia eu ter sido? Sabemos que a maioria dos agressores são parentes, amigos, namorados, maridos, conhecidos.O que me autoriza a pensar que eu sou essencialmente distinto deles? Indignar-me com uma situação de violência contra a mulher não me fazia menos machista e um futuro agressor em potencial, assim como não faz você, homem, que se julga muito esclarecido e justo, e quiçá até feminista.

Provavelmente, eu ainda desconheço a real dimensão do machismo, mas aquela visão simplista, moralista, maniqueísta – que no final das contas blindava confortavelmente a minha consciência diante dos males de um mundo com o qual eu não teria parte ou responsabilidade alguma – eu não tenho mais. Antes eu era, de um lado, cético e reticente diante da terrível condição na qual nós colocamos as mulheres, e, de outro, superestimava demais meu próprio valor enquanto homem que não pertencia à categoria dos machistas. Olhando daqui eu percebo o quanto era inocente e autoiludido a respeito do problema, e o quanto ajudava a reproduzi-lo e perpetuá-lo. E eu sinto muita vergonha ao perceber isso. E isso é bom. Autoperceber-se como um machista é um processo doloroso; é como mergulhar nos abismos mais obscuros e sórdidos do seu ser e encarar os demônios que existem lá. Você sente nojo, ira, vergonha.

Você, homem, que se diz machista mas nunca passou por isso, lamento lhe informar, mas você ainda é machista. Nunca deixou de ser, afinal. Quanto a mim, não sei exatamente quando e como começou a mudança. Só pode ter partido de dentro de mim mesmo, porque eu percebi o quanto tudo é tão óbvio, como a realidade grita e esfrega a verdade na nossa cara e nós nos recusamos a vê-la. É como um gênero musical que você sempre detestou e um belo dia você começa a gostar: a música sempre esteve lá, do mesmo jeito, e é você que não tinha ouvidos para ouvi-la. Eu só sei que nos últimos três ou quatro anos comecei a me perceber como machista. De quebra, comecei a perceber o mundo como machista. A ordem de compreensão é exatamente esta: primeiro você, depois o mundo; primeiro o “eu”, depois os “outros”, e nunca o oposto.

O machismo é um problema radical e exige por isso soluções radicais. Antes de tudo, para compreendê-lo é necessário colocar-se numa perspectiva radical, e essa perspectiva é a da mulher, mesmo sabendo que, por ser homem, nunca conseguirei compreender a dor e a humilhação pelas quais elas passam diariamente, nem o que elas desejam. Mas posso tentar verdadeiramente através da empatia e de algum bom-senso. Primeiro, sendo sempre cético comigo mesmo, ou seja, partindo sempre do princípio de que eu sou machista, a mesma coisa valendo em relação ao mundo. Segundo, ouvindo o que as mulheres têm a dizer, e não falando a elas o que eu quero ouvir delas. Terceiro, mantendo sempre ao nível consciente o absurdo quase inimaginável que é a cultura do machismo. Quarto, dando o crédito e o benefício da dúvida a quem sofre com essa situação e não a quem se beneficia dela, mesmo que indiretamente. Quinto, leitura: existem teorias feministas e muitos dados e fatos disponíveis. Mas, acima de tudo, partir do princípio de que o machismo está em si e em volta nas coisas mais aparentemente banais.

Eis aí um bom programa inicial de desconstrução do machismo, uma tarefa que deve durar a vida inteira, muitas vidas inteiras talvez. Esse não é um texto feminista. É um texto feminista de um homem machista para outros homens machistas. É um pouco da minha experiência, um desabafo e um apelo.
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