segunda-feira, 30 de junho de 2014

Sobre feministos

Eu me pergunto o porquê da tamanha resistência que os homens impõem às mulheres feministas que querem se organizar aparte e independentemente deles. Será mesmo que o motivo é tão pragmático e isento de valores quanto divergências puramente teóricas e políticas? Primeiro, é preciso definir em que consiste essa “organização aparte e independente” em relação aos homens. Vamos admitir que se trata de uma posição mais moderada, que não exclui o homem da luta, mas defende que ele tem um papel subordinado nela, e ignoremos por um momento as posições mais radicais, que defendem a exclusão total do homem em relação à luta. Neste caso, é perfeitamente compreensível os argumentos e motivos das mulheres. As mulheres querem olhar para o lado e encontrar outras mulheres que sentem na pele o mesmo que elas, querem se identificar enquanto grupo, falar e debater abertamente com outras mulheres pelo fato de que são mulheres. Daí porque nos espaços de organização e decisão elas querem estar apenas entre elas, querem se sentir seguras, verdadeiramente livres. A presença de um único homem ali as vezes é o suficiente para desempoderar algumas mulheres, ou seja, um único homem pode ter efeitos psicológicos que enfraquecem as próprias protagonistas da luta. E quando esse homem fala pode cair em violência de gênero e em relações de poder que ele, pelo fato de ser homem, não percebe como tal, mas que prejudica a atuação das mulheres. É por isso que o debate entre posições divergentes nunca é feita num campo neutro e isento. O fato de quem fala ser homem ou mulher tem consequências reais, e esse fato não pode simplesmente ser ignorado em nome do direito abstrato a uma livre troca de ideias entre iguais. Pensemos em outros exemplos. Os indígenas não se opõem quando uma pessoa branca da cidade se soma à sua luta, mas essa pessoa branca da cidade nunca deixa de ser (vista como) uma pessoa branca da cidade. E parece claro que, exceto em casos específicos, as decisões principais serão tomadas pelos próprios indígenas, a despeito do que pensam seus colaboradores brancos. Além disso, todos os brancos são brancos, ou seja, opressores, até que provem o contrário. Isso quer dizer que não podem pretender que só pelo fato de somarem-se à luta isso já lhes dá o direito de discutir e decidir em pé de igualdade com os próprios indígenas. Precisam conquistar a confiança e mostrar seu valor. Isso tudo é muito inteligível, mas ainda assim os homens não dão o braço a torcer. Por quê? Eu suponho que exista motivos mais profundos, inconscientes e irracionais, do que os alegados. Afinal, se eles encontrassem a mesma posição das mulheres entre os indígenas, por exemplo, será que se incomodariam tanto quanto se incomodam quando se trata das mulheres? Algo me diz que é mais fácil para eles compreender e aceitar a posição de indígenas que os colocasse num papel de coadjuvante na luta, do que compreender e aceitar a mesma posição da parte das mulheres e da luta feminista. Por quê? Será que no fundo não se trata de uma resistência velada à autonomia e liberdade da mulher? Como se fosse um absurdo a mulher fazer qualquer coisa sem o aval do homem.
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