segunda-feira, 30 de junho de 2014

Os black blocs e o que aprendemos desde junho

O inusitado episódio envolvendo um pai exasperado e seu filho suposto black bloc é cômico. Não é a minha intenção aqui problematizar o discurso do pai, do filho ou as marcantes diferenças culturais entre gerações. Aconteceu, azar do garoto, será motivo de chacota, afinal é realmente engraçado. Não dá pra não rir e se divertir, conquanto que ninguém se esqueça que todos nós temos pais e já tivemos dezessete anos também. 

O que não é tão cômico é o uso político de um fato tão prosaico, que deveria dizer respeito apenas à comédia da vida privada ou, no máximo, ser noticiado através de uma crônica de Carlos Drummond de Andrade no Correio da manhã. A direita, entre progressistas e conservadores, regozija-se com o fato menos pelo ibope quanto pelas consequências ideológicas. Pintar os black blocs como crianças mimadas, rebeldes sem causa, é tão eficaz quanto pintá-los como arruaceiros violentos sem ética. O que me decepciona é como pessoas de opiniões de esquerda compram essa discurso e o reproduzem. Isso não significa condescendência total com os black blocs. O problema não é se colocar contra eles, mas fazê-lo pelos motivos errados. Para entender isso, vejamos o que aprendemos com as manifestações de massa de 2013.

Nessa ocasião, no calor dos acontecimentos, eu defendi intransigentemente os black blocs contra os ataques virulentos vindos tanto da direita quanto da esquerda, por mais equivocados ou ilegítimos que fossem algumas de suas ações. Àquela ocasião acreditava que era fundamental fazê-lo, porque tais ataques permitiam legitimar e instituir políticas repressivas e criminalizadoras que afetavam o movimento de massas como um todo, não apenas os black blocs, e restringia o próprio direito constitucional de manifestação política. Nem todo mascarado é black bloc e nem todos que entram em confronto com a polícia é vândalo. Mas essas categorias reducionistas, como eram construídas pelo discurso midiático, permitiam tomar a parte pelo todo. Isso ficou muito claro em algumas resoluções públicas que instauravam quase um estado de exceção. Com base nelas, manifestantes portando vinagre, somente para se proteger dos efeitos de um provável conflito, poderiam ser presos. Um manifestante fantasiado de Batman, por exemplo, foi preso por se recusar a tirar a máscara, depois que a proibição do uso de máscaras foi tomada. A questão, portanto, para mim não era se os black blocs agiam corretamente ou se tinham legitimidade para agir como agiam (afinal, num movimento de massas, espontâneo, sem lideranças, desorganizado, sem pautas definidas, quem age corretamente e quem tem legitimidade ou não?), a questão é como essas ações estavam sendo politizadas de forma a beneficiar os interesses contrários aos movimentos de massas.

O PSTU acusava os black blocs de não terem legitimidade diante da base, como se de fato existisse uma base do movimento. É verdade que a maioria da opinião pública se voltava contra eles, mas isso não significa deslegitimidade. Ninguém afinal havia votado um programa político ou, tampouco, uma liderança. Ninguém, portanto, tinha o monopólio da legitimidade de ação, a não ser que consideremos uma maioria difusa e abstrata como base. Nesse caso, o próprio PSTU deveria, para ser coerente, se retirar da luta, porque essa mesma “base” assim como se colocava contra os black blocs também se colocava contra os “partidários”. Mas é típico dos partidos políticos numa democracia, obrigadas a se legitimar pela maioria mas nem sempre de fato apoiados por ela, arrogar-se o direito de falar por ela. Quando essa maioria discorda, eles simplesmente a ignoram. Nessa hora, quando se veem contrariados, se valem de argumentos como “ditadura da maioria” para deslegitimar sua opinião ou para defender o direito da sua própria opinião minoritária, mas quando se veem apoiados ou percebem que seus interesses coincidem, se valem de argumentos como “legítima maioria” para deslegitimar a posição contrária minoritária. Esse comportamento seletivo e retórico é típico dos partidos políticos, obrigados a legitimar suas pautas e propostas com base numa maioria fictícia imaginada ad hoc.

Por isso, me espanta que alguns colegas cujas opiniões são de esquerda tripudiem em cima do fato inusitado e usem-no para acusar os black blocs como um todo, como se aquele adolescente fosse de alguma forma uma expressão representativa do grupo como um todo. Não sei é, não posso afirmar isso com base no “zoiômetro”, mas duvido muito, embora não se discuta que os indivíduos black blocs são muito jovens. Mas daí caracterizá-los como “filhinhos de papai, rebeldes sem causa” é um equívoco que deixa claro o tom emocional da crítica de quem não gosta deles. Não passa de puro preconceito que acaba municiando a crítica da direita a procura de pretextos para desacreditar os movimentos de massa, especialmente os grupos mais radicalizados.
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