segunda-feira, 30 de junho de 2014

Meus queridos marxistas que me perdoem

Se para os liberais a História chega ao fim em 1991, com a derrocada do socialismo soviético, para os marxistas ela já havia terminado em meados do século XIX, quando Marx lançou os fundamentos do materialismo histórico e dialético – por mais que, paradoxalmente, essa teoria conscientemente voltasse seu olhar para o futuro, nominalmente comunista.

Evidentemente, não quero dizer que os liberais sejam mais realistas ou menos retrógrados do que os marxistas porque supostamente teriam aguentado mais tempo o teste da História. Infelizmente, não existe “a” História, com “H” maiúsculo, nem ela é um laboratório científico onde se podem realizar experiências precisas e objetivas de validade universal.

Ambos têm suas raízes no século XIX, na revolução industrial, na filosofia iluminista e na ciência positivista, por mais que se digladiem e se queiram essencialmente distintos – ou por mais que, acicatados pela necessidade de (re)inventar memória e mitos, neguem essas raízes. São irmãos brigões, filhos de uma mesma época. Época que moldou o mundo contemporâneo e que ainda hoje tem importância decisiva para nós.

A prova disso está em que marxismo e liberalismo não estão nem um pouco envelhecidos, embora, paradoxalmente, seus discursos estejam desacreditados, talvez porque não consigamos vislumbrar alternativas concretas, de modo que, à mingua destas, só nos resta voltar, sempre contrafeitos, a adotar as velhas fórmulas que nos trouxeram a esse beco sem saída.

O que eu realmente quero dizer é que o marxismo, embora a princípio assuma a indeterminabilidade não teleológica da História, na prática age como se ela fosse determinista e teleológica. Tudo o que essa tradição de pensamento vem fazendo, no campo da ciência, nos últimos cento e cinquenta anos é reafirmar, sob novas expressões, velhas teses de Marx, as quais a própria “História”, que os marxistas tanto afirmam respeitar e ouvir, já mostrou infundadas.

E isso não é necessariamente ruim. Como contraponto e interlocutor teórico e político – como uma eterna “mosca na sopa” não apenas dos liberais, mas também de outras tradições de pensamento e daqueles que se arriscam a tomar um caminho independente –, o marxismo desempenhou papel importantíssimo como baliza nos debates que se seguiram ao longo do século XX. Se situar num campo é uma ação eminentemente relativa, e o marxismo sempre foi um ponto de referência importante que não podia ser meramente ignorado.

Descobertas importantes muitas vezes foram feitas não devido à sua colaboração direta, mas à sua oposição, o que prova que respostas “certas” podem ser encontradas também através de perguntas “erradas”.

Não estou argumentando aqui que o marxismo não produziu nada de novo desde Marx e só colaborou negativamente com a evolução do pensamento contemporâneo. Marxistas não são brutamontes abobados que só repetem frases prontas – ao menos não mais do que outras tradições de pensamento o fazem. Em muitos assuntos, especialmente econômicos e político-nacionais, os marxistas estiveram na vanguarda, antecipando-os ou analisando-os com mais perspicácia que seus concorrentes.

O ponto aqui é simplesmente fazer uma constatação dolorosa: atualmente, o marxismo, exceto algumas tentativas bastante livres e heterodoxas de atualizá-lo, não tem nada de substancialmente novo a oferecer, assim com o liberalismo também não.

É comum encontrar marxistas zombando dos liberais por repetirem princípios sabidamente equivocados como o da autoregulação dos mercados. Ora, e a ideia de que as contradições do capitalismo levarão necessariamente à sua ruína não é também, hoje em dia, motivo para zombaria?

Por mais que ambas as tradições de pensamento alterem aspectos secundários da sua visão de mundo a fim de acomodar, teoricamente, transformações concretas que não cabem em seus esquemas conceituais, o núcleo duro desses esquemas permanecem intactos.

Pautar, igualmente, a distinção entre elas como progressistas e conservadoras não é mais válido. Se é que algum dia o foi, tanto porque o liberalismo, evidentemente, foi e ainda é uma força social dinâmica, mas sobretudo porque atribuir a qualidade de progressista ao marxismo assim como a de conservador ao liberalismo pressupõe aceitar que o socialismo é uma possibilidade real e que somente em relação a ele se pode avaliar uma posição como progressista (a que quer construir o socialismo) e outra como conservadora (a que quer permanecer no capitalismo). É óbvio que tal possibilidade não pode ser demonstrada, e ninguém pode ser taxado, a não ser com fins de propaganda política, coerentemente como conservador pelo simples fato de não aceitar as premissas do pensamento marxista.

Talvez não exista nada de errado com esse julgamento em si, desde que se entenda que ele só tem valor dentro do quadro de pensamento marxista, e que ser progressista ou conservador não é uma condição objetiva senão um valor subjetivo. Do ponto de vista dos liberais, nada pode ser mais conservador do que uma tradição de pensamento associada ao comunismo soviético. Outras teorias, por sua vez, podem colocar ambos entre as forças conservadoras da história.
Postar um comentário