segunda-feira, 30 de junho de 2014

Eleição, Copa e estado de exceção

Neste ano de eleição os interesses políticos estão mais inflamados do que nunca, sensibilizados não apenas pela eleição presidencial iminente, mas especialmente pela nova conjuntura sociopolítica que se abriu há um ano. A hegemonia petista não está mais tão sólida, a sociedade civil deu mostras contundentes de seu descrédito e aversão à política tradicional e, por outro lado, nenhum ator novo assim como nenhum projeto ideológico novo surgiu e se afirmou. A oposição liberal (ou seria conservadora?, na medida em que estabelecer distinções entre os partidos e blocos de partidos brasileiros com base no critério ideológico é difícil e, quem sabe, enganador. Seja como for, a oposição liberal designa, como é de se supor, aquele bloco capitaneado pelo Partido da “Social democracia” Brasileira) sente que este é seu momento de retornar à ribalda da política nacional. A situação enfrenta pressões externas, à medida que se apresentam outros concorrentes, e internas, devido à tendência centrífuga da sua base partidária. Para simplificar, esse ano as apostas são altas, e isso influencia em muito o comportamento dos governos federal e estaduais. A repressão violenta às manifestações anti-Copa resultam dessa influência.

Embora os governos dos estaduais tenham interesses distintos e, possivelmente, conflitantes, assim como em relação aos interesses do governo federal, eles não podem se dar ao luxo de perder o controle sobre as ruas como perderam no ano passado. E isso menos por causa da imagem que vai ficar para os que nos olham “lá de fora” e muito mais pelo que uma festa azedada pode significar para nós aqui dentro, sobretudo, é óbvio, em termos eleitorais. Ante qualquer ameaça, por mais irrisória que seja, a resposta geralmente virá na estratégia de choque de lei e ordem, ou seja, reprimir na fonte e duramente. Portanto, a violência desmedida da polícia diante de manifestações pequenas e pacíficas, inofensivas em comparação com as do ano passado, não vem por acaso e não decorre das características típicas de uma polícia violenta e arbitrária. A polícia militar é um órgão estatal altamente verticalizado e disciplinado, cujo vértice superior é ocupado por ninguém menos que a maior autoridade do executivo estadual. Se essa polícia sai na rua pra espalhar o terror, a pretexto de contê-lo, o faz conscientemente e como parte de um plano. Já podíamos prefigurar qual seria esse plano ao constatar a dimensão do aparato policial e militar mobilizados para a Copa, ou seja, não é segredo que a repressão ia ser dura. Mas a pergunta que eu me faço é se os riscos dessa opção foram devidamente calculados.

À primeira vista parece um plano estúpido, tendo em vista as consequências inesperadas que produziram ano passado, levando a opinião pública a apoiar, ao menos num primeiro momento, os manifestantes. Mas as pessoas que controlam o poder político não são estúpidas, ao contrário. Sabem muito bem que agora, à luz das circunstâncias, a repressão mais dura possível é a resposta. E por duas razões: porque não vai botar a opinião pública contra si, e porque, de quebra, ainda vai disciplinar os “causadores de problemas” mais obstinados. As manifestações perderam força e suas razões e significados, desconexos, vagos e confusos, não são mais, per se, suficientes para mobilizar espontaneamente pessoas nas ruas. Elas perderam também a credibilidade devido aos “transtornos” que causaram e à campanha midiática massiva contra o “vandalismo”. Além disso, a opinião pública está entorpecida com a Copa e o máximo que quer saber de política neste momento é xingar a presidente em estágios. Os grupos que controlam os meios de comunicação farão também a sua parte: embora não possam ignorar completamente o que acontece fora dos estádios, não farão disso uma pauta central e o que puder fazerem para deturpar e deslegitimar as manifestações o farão. De resto, manifestações políticas de massa espontâneas e intensas como essas refluem rapidamente após a maré montante e no momento estamos de volta ao ponto de uma maré jusante. Portanto, os governos sabem que baixar o cacete covardemente em quem levantar uma faixa na avenida é a coisa certa a se fazer. Temos aí uma espécie de estado de exceção, mas não porque a FIFA exigi e tem poder ou autoridade para fazê-lo, mas simplesmente porque as elites políticas não são burras e sabem jogar muito bem o jogo político.
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