segunda-feira, 30 de junho de 2014

Desejo, consumo e (in)felicidade

Quem precisa de um som de 750 watts RMS pra colocar na sala de um apartamento? Quem precisa de um SUV 6 cilindros de duas toneladas pra ir da casa pro trabalho e do trabalho pra casa? Quem precisa de um tênis de corrida Mizuno profissional só pra correr aos fins de semana? Que ninguém se engane: ninguém precisa. E não se trata mesmo de precisar. O desejo, uma força irracional muito poderosa, não envolve necessidade. E o capitalismo consumista e midiatizado soube mobilizar muito bem esse sentimento. Apenas aparentemente hoje ele se tornou um fim em si mesmo. Na verdade, o desejo é sempre um meio para obter o prazer que a sua satisfação proporciona. E o prazer, sendo efêmero, reiteradamente recoloca o desejo, e ambos se retroalimentam aumentadamente, numa espiral alucinante de desejo-satisfação-prazer-desejo sem fim. O desejo é, portanto, um fetiche, não no sentido feuerbachiano que Marx lhe atribui principalmente, mas no sentido psicanalítico, espécie de tara, de compulsão. E, na medida em que o mundo desencantado e fragmentado de hoje (carente de sentido e isolador) cria expectativas na mesma proporção em que as frustra, o consumo de bens materiais carregados simbolicamente de prestígio, poder, liberdade, amor, serve de sucedâneo artificial a tudo que realmente nos falta. E quanto mais desejamos, mais nos falta. O desejo é uma força tão poderosa na vida das pessoas a ponto de ser a causa que move e condiciona seu agir e, sobretudo, o porquê agem. Muitos fatos típicos da vida cotidiana se explicam pelo desejo, nu e cru, de consumir. Entre um consumo e outro, ou melhor, ao longo da busca pelo consumo a gente acha algum tempo pra casar, ter filhos, fazer amigos, etc. Eis aí o significado da vida nas sociedades de consumo. Claro que algum sentido não materialista, ético ou espiritual tem que ser formulado e experimentado em alguma medida. Poucos seriam hedonistas e materialistas ao ponto de simplesmente admitir que o sentido da vida é consumir para obter prazer. Mas temos uma noção vaga de felicidade. Se nós vivêssemos conscientes dessa noção; se cotidianamente cotejássemos o ideal de felicidade e a vivência real, a vida seria insuportável. No entanto, quase sempre no cerne da noção moderna de felicidade está alguma coisa como a casa própria com um banheiro reluzente e uma cozinha planejada, um confortável carro zero km na garagem, viagens para o exterior nas férias e assim por diante. Podemos nos enganar acreditando que a felicidade não está nas coisas, mas no que elas proporcionam, afinal, assim como o dinheiro, elas são meios. Isso é um equívoco. A felicidade não está nem em um nem em outro, nem nos fins nem nos meios tornados fins em si mesmos. Estamos procurando no lugar errado
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