segunda-feira, 30 de junho de 2014

Crítica ao feminismo masculino

Tempos atrás eu expus aqui uma breve crítica da expressão “feminazi”. Como muitos homens que não se consideram machistas podem não se identificar com a crítica porque não se identificam com a expressão em questão, devo fazer a crítica também à expressão “femismo”, cujo significado é idêntico àquela.

Embora se apresente como uma crítica equilibrada e ponderada aosexcessos do movimento feminista, e, portanto, pode ser usada por homens que não se consideram machistas e, provavelmente, até mesmo se considerem feministas, a expressão “femismo” não passa de uma forma politicamente correta e diplomática de dizer às feministas: este feminismo é bom, aquele é ruim. Sobre essa aparência de juízo de fato, esconde-se na verdade um juízo de valor: este feminismo eu, homem, gosto, aquele eu, homem, não gosto. A estratégia implícita é evidente: trata-se de predelimitar um campo discursivo onde o feminismo pode agir e onde ele não pode.

Sociologicamente, essa estratégia pode ser definida como o poder do sujeito dominante no interior de um campo em disputa de impor os limites da ação do sujeito dominado em relação à sua disputa com o dominante. Ou seja, um sujeito dominante, parte de uma relação de poder, impõe as regras do jogo ao sujeito dominado, e o faz porque tem poder e porque tem interesses em jogo. Para ficar mais claro, o juiz ao mesmo tempo arbitra e joga o jogo. Claro que nem sempre é bem sucedido, mas sempre tenta, e a tendência geral é de que consiga.

Para ficar ainda mais claro, vamos pensar num exemplo concreto fora do campo do feminismo. A relação de dominação entre israelenses e palestinos exibe esse padrão. Assim, os israelenses, dominantes, definiram quais são as regras válidas que os palestinos, dominados, devem observar se quiserem questionar a sua dominação, e com isso podem excluir alguns grupos da disputa. Podem dizer: o Fatah vale, mas o Hamas não vale. A lógica por trás da expressão “femismo” é exatamente a mesma.

Eu gostaria de contribuir e participar do feminismo, ombro a ombro com as mulheres, e não ser sumariamente excluído da luta por ser homem. Mas o fato de ser homem tem implicações reais, e por mais feminista que eu seja não posso simplesmente alterar esse fato ou pedir que as mulheres o ignorem. Meu papel e possibilidades na luta feminista estão, portanto, necessariamente condicionados pelo fato de eu ser homem. Além de ser homem, sou hetero, branco, bonito, classe média, nível universitário, quer dizer, mais privilegiado do que isso só se eu fosse rico e filho de senador. Tudo isso influencia, e quando uma mulher feminista chama atenção para esse fato eu não posso simplesmente chama-la de “femista”, porque do ponto de vista dela faz todo o sentido definir a relatividade das posições.

Eu diria que a luta ganha quando se consegue conciliar essas diferenças, porque superá-las é impossível – na melhor das hipóteses, só é possível como resultado da luta, pressupondo-se que a luta tem um fim, e não durante se transcurso. Existem muitas visões do feminismo, e só quem tem legitimidade para determinar qual delas é a mais acertada são as mulheres. Eu sempre vou dar a minha opinião, no mais das vezes porque eu não consigo me calar afinal, mas sempre sabendo que não tenho autoridade nem legitimidade para decidir qualquer coisa em relação ao feminismo, e sempre não esquecendo que a minha posição de homem pode e fará na maioria das vezes eu me enganar a respeito dela.
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