segunda-feira, 30 de junho de 2014

Cognição e preconceito

Uma maneira exemplar de atinar para como o discurso dominante em uma sociedade determina a nossa percepção das coisas é o exercício mental de “jogar” palavras e associá-las com ideias. Em algum lugar eu ouvi que o cérebro não funciona de forma discursiva mas associativa. Isso parece correto, ao menos baseado na minha experiência. Meu cérebro é uma completa bagunça, e tirando os momentos em que eu conscientemente faço o esforço mental de desenvolver discursivamente uma ideia, na maior parte do tempo ele opera com associações livres entre imagens (imagens não necessariamente visuais, mas como se as ideias fossem uma espécie de objeto que as expressa), frequentemente de maneira espontânea, intuitiva e inconsciente. Se isso for correto, isto é, se for verdade que o cérebro humano funciona por associações na maior parte do tempo, então grande parte das teorias vigentes, bem como muitas das crenças cotidianas comuns, tem que ser revistas porque partem de pressupostos racionalistas, como se o ser humano agisse sempre ou normalmente com base em raciocínios lógicos, isto é, discursivos. Ao contrário, normalmente o ser humano age com base em ideias construídas através das experiências sociais, ou seja, com base em um repertório pré-fabricado e que são operacionalizados no cérebro como se fossem imagens. Uma vez construídas essas ideias, ainda que estejam ao mesmo tempo sempre em construção, elas se tornam como que imagens relativamente fixas que são acionadas intuitivamente e associadas entre si. Ninguém para pra pensar nas ideias, noções ou conceitos com os quais está significando o mundo e suas ações nele. A maior parte das ideias permanece ao nível do inconsciente – isto é, a parte lógica das ideias (digamos o interior da imagem ou do objeto-ideia), constituída por um encadeamento linguístico que constitui discursivamente a ideia –, e o que aparece ao nível da consciência é apenas a face exterior dessa ideia. Por isso que quando somos instados a explicar em que consiste determina ideia (qual o encadeamento linguístico-lógico que constitui discursivamente a ideia) enfrentamos invariavelmente uma dificuldade tremenda, o que nos obriga a concluir que não temos uma noção tão clara do significado essa ideia (o que tem por trás daquela face exterior). A despeito disso, por mais que não tenhamos consciência do significado das ideias com que nos orientamos e agimos no mundo, ainda assim nos orientamos e agimos. É mais ou menos como usar um computador ou dirigir um carro: não fazemos ideia de como esse objeto é constituído de modo a funcionar daquela maneira, mas sabemos que funciona e agimos com base nisso. Além disso, embora não tenhamos consciência das nossas ideias e de como elas se encadeiam associativa e intuitivamente, como elas são construídas com matérias-primas tiradas da cultura na qual se vive, a experiência cotidiana reafirma e valida essas ideias. Por mais que hoje em dia não seja mais possível agir racionalmente com base em discriminação de cor de pele, por exemplo, agir assim ainda é um padrão comum, e quem age assim não percebe, por mais que conscientemente não se veja como um racista. Eis porque é tão difícil desconstruir pré-conceitos e preconceitos. Portanto, as palavras não são neutras, mas associam-se a ideias que são automaticamente operacionalizadas quando as palavras surgem no discurso. Por exemplo, muito provavelmente se eu perguntar para um europeu o que ele pensa a respeito de “imigrantes”, seu cérebro irá associar imediatamente a imigração à criminalidade ou à pobreza que é exatamente o viés pelo qual o discurso dominante dá significado às pessoas de outras culturas/nacionalidades morando na Europa. Inconscientemente, portanto, o interpelado reproduziria preconceitos que não são vistos como tais porque não temos ideia de como essas ideias estão construídas e funcionando na nossa mente. Apenas as usamos. Vamos fazer uma experiência. Eu digo uma palavra e você me diz o que vem à cabeça: favela (crime? drogas?), empregada doméstica (negra? nordestina?), negro (favela?), agricultor (caipira? Ignorante?), indígena (primitivo?). Aqui focamos em elementos humanos explorados e oprimidos, mas o mesmo poderia se aplicar a palavras que designam pessoas importantes, poderosas, etc. Quer dizer, sempre agimos com base em ideias e em associações de ideias que são, por definição, preconceituosas
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