segunda-feira, 30 de junho de 2014

Ciência e neutralidade

Na análise do velho problema do estatuto do conhecimento científico, um ponto de partida possível é admitir que ele não é neutro. A ciência é uma complexa mistura entre ciência e ideologia, embora para se legitimar enquanto ciência ela teve de omitir a impureza dessa mistura, criando um mito para si mesma cuja validade a modernidade, industrializada e burocratizada, se encarregou de ratificar. Mas a verdade é que não existe ciência pura, muito menos no campo das ciências humanas, as quais lidam com “objetos” que pensam, falam, agem, desejam, do mesmo modo que com “sujeitos”, os cientistas, que pensam, falam, agem, desejam e, portanto, escolhem, tomam partido, etc. Além disso, existe uma dimensão histórica nesse problema, onde o que era ciência ontem é ideologia hoje (e quem poderá dizer que não voltará a sê-lo?). A ciência opera com pressuposições baseadas em crenças e valores que não são científicos, e a própria tentativa de excluir essas pressuposições do campo da ciência (Durkheim) já mostrou o quanto esse movimento tem de ideológico em si mesmo. Uma das soluções propostas foi tentar controlar, explicitamente e dentro de limites aceitáveis, esses pressupostos (Weber). Entretanto, eu não sei se descobrimos um modo claro e seguro de fazê-lo, nem se isso é possível. Existe uma metodologia capaz de garantir isso? Essa me parece uma solução muito técnica, cujos limites sempre há de esbarrar no elemento humano (variável, incontrolável, imprevisível) que necessariamente faz parte da equação. A questão é que, embora a ciência em si seja neutra e objetiva, porque é isso que confere sua especificidade enquanto forma de conhecimento, o “fazer” científico não é. O marxismo se apoia nessa tese para avançar a ideia de que se o fazer científico não é neutro, logo é necessariamente engajado, quer queira quer não, consciente ou inconscientemente. Este me parece um passo demasiado ousado. Admitir que não existe ciência pura não significa admitir a proposição diametralmente oposta. Lukács deu um jeito de preservar a premissa de objetividade ao mesmo tempo em que incorpora a tese da não neutralidade, embora de uma forma muito diferente de Weber. Mas não acho que exista um ponto de vista particular (sic) donde se pode, segura e inquestionavelmente, olhar para a totalidade (o ponto de vista da classe revolucionária herdeira da “História”). Todo ponto de vista é, por definição, particular. No fundo, o que os marxistas tentaram fazer foi legitimar cientificamente uma tese que é anticientífica: ou seja, tentaram usar a ciência contra ela mesma e, ao fazê-lo, justificar cientificamente sua própria concepção de ciência. Isso reflete muito bem a hegemonia que a ciência desfruta. Entretanto, esse movimento, embora hábil, é questionável. A verdade é que o engajamento e a não neutralidade do fazer científico não pode ser justificado sobre bases científicas, mas somente éticas, porque se trata de uma escolha. Razão pura e razão prática são absolutamente distintas, mas ambas existem e fazem parte de qualquer atividade humana. De alguma forma, escolhas éticas, baseadas em crenças e valores, são feitas a todo o momento enquanto se faz ciência, por mais que o fazer científico negue, por princípio, essas escolhas. Essa contradição é irresolvível. A “boa” ciência se faz não com a superação dessa contradição, que na prática não passa de escamoteação, mas, ao contrário, com a sua confissão. Entretanto, nenhuma escolha ética é melhor do que a outra, nem a que esposa a causa do proletariado, porque o valor de toda escolha ética é irredutível.
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