segunda-feira, 30 de junho de 2014

Carta aberta aos marxistas

Espero que não me levem a mal meus camaradas marxistas – sim, ainda somos camaradas, embora eu pense que a vida não se restrinja a trincheiras (de que lá estou?) e prefira a liberdade de poder circular entre a “terra de ninguém”; somos camaradas porque o que nos une é menos uma consciência de classe do que a utopia de que um mundo novo é possível –, com meus textos progressivamente “anti-marxismo”, se é que eu poderia caracterizá-los assim (porque, com efeito, não se trata disso).

Estou passando pela fase adolescente e a rebelião, às vezes imprudente, injusta e temerária, é da natureza dela. Não, essa metáfora naturalista definitivamente é uma merda. Mas vou deixa-la aqui para nos lembrar de ela implica muitas armadilhas, entre as quais a mais grave é que supõe, implicitamente, que quem ainda não “superou” o marxismo está preso à infância. Obviamente, também não se trata disso.

Hoje vejo o quanto o marxismo é uma camisa de força e para se livrar dela tenho que me debater – que outros não se riam do marxismo, contudo, porque, definitivamente, o marxismo não é a única nem a pior forma de camisa de força intelectual.

Em termos pessoais – e também impessoais –, continuo nutrindo o maior respeito pelos marxistas e, como dito, considerando-os meus camaradas, se não de armas ao menos de sonho. Abnegação, lealdade e ousadia são virtudes dignas de nota, embora eu não ignore vícios irritantes, como a pretensão a uma autoridade moral supostamente lhes conferida pela “História”.

Minha rebelião vai, antes, contra o marxismo enquanto visão de mundo, tradição de pensamento, teoria e assim por diante, embora isso implique, de alguma forma, abandonar também o barco da revolução e, especialmente, da ditadura do proletariado.

Ao criticá-lo, não me motiva ódio, ingratidão ou coisa parecida. Apenas preciso acertar as contas comigo mesmo. Para se alterar a rota é preciso ver em que ponto se está e onde se considera ter-se perdido. Enquanto se retoma o caminho, não há mal em praguejar um pouco.

A questão é puramente intelectual e, ao mesmo tempo, pragmática. Acredito que a melhor maneira de se seguir o exemplo de Marx é não sendo marxista, tampouco comunista, assim como ele não foi feuerbachiano ou proudhoniano.

Tenho certeza que Marx, caso ainda vivesse, se horrorizaria com a deferência às suas palavras, com o comportamento religioso diante da sua presença consubstanciada, com a tentativa obstinada de remendar a estrutura de seu pensamento ao invés de demoli-la – o que não significa, por suposto, não aproveitar os entulhos que sobrarem, afinal, nada é preto no branco, oito ou oitenta (Marx grita: dialética!).

Sei que “marxismo” é uma generalização simplista e enganadora. Têm marxistas e marxistas, e se, por um lado, é preciso distinguir Marx dos marxistas, por outro lado ambos se confundem e são inseparáveis. No fundo, minhas queixas se voltam contra uma abstração, uma ideia de marxismo. Mas essa ideia não deixa de ter implicações concretas.

Não teria qualquer ressalva ao marxismo de um Harvey, por exemplo, sem dúvida um dos maiores intelectuais contemporâneos, ou de um Hobsbawm. Mas me parece que a maioria dos marxismos exercitados por aí passam longe deles. Portanto, de alguma maneira essa “ideia de marxismo” – dogmático, preconceituoso, anacrônico, raso, estreito, intransigente, burro – têm implicações reais.

Marx foi um gigante, e devemos subir-lhe nos ombros, mas sem ter medo de pisar em sua cabeça. Houve história de lá pra cá, e essa história não se restringe à decadência do mundo capitalista ou à gestação de um mundo comunista. Hoje sabemos coisas que fazem Marx parecer um bobo. Coisas que não saberíamos sem Marx, é verdade, mas que mudam tudo o que sabemos sobre Marx.

A pergunta não é o que do pensamento marxista não serve mais para entender o mundo (pergunta que esconde o que nunca serviu), mas o que ainda pode servir. Marx ficaria deprimido com a nossa falta de imaginação. Talvez seja hora de ir adiante – verdadeiramente adiante – levando pouca coisa além da roupa do corpo e sem olhar para trás.
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