segunda-feira, 30 de junho de 2014

Alguns palpites sobre o futuro do PT

Para revestir seu governo de um caráter popular e classista, o PT inventou o mito de que chegou ao poder com base no apoio popular organizado e de massas. Não foi bem assim.

É claro que a militância de sindicatos e movimentos sociais, onde o PT está, ainda hoje, sobrerrepresentado, constituiriam uma base fundamental. É claro, também, que ele contou com apoio manifesto das massas, embora na forma puramente eleitoral e não mobilizada nas ruas. Mas a verdade é que o PT chegou ao poder quando as massas de trabalhadores precarizados, subempregados ou desempregadas se desencantaram com a política econômica – ou melhor seus resultados – do governo FHC, ou seja, quando o plano real, que o elegeu duas vezes, esgotou-se. O PSDB perdeu apoio e, naturalmente, essas massas voltaram-se para a única oposição expressiva, e cuja história e ideologia suscitavam sua simpatia.

Contudo, o PT também teve que contar com uma articulação com as antigas elites políticas simbolizada na sua aliança com o PMBD. Não se tratava, assim como ainda não se trata, somente de governabilidade, mas da própria condição de existência do governo petista. Isso mostra que a trajetória e as opções políticas do PT não podem ser explicadas unicamente em termos de função de classe. O partido não adotou a linha do transformismo simplesmente para administrar os negócios da burguesia, embora sem dúvida não se importe de colher seus frutos. O PT é um ator político de tipo weberiano: buscava o poder e, agora que o obteve, busca se perpetuar no poder, lançando mão, para tanto, de determinadas estratégias políticas.

Embora o apoio/participação dos movimentos sociais e sindicatos, ou seja, de organizações da sociedade civil tradicionalmente articuladas com o PT, esse apoio nunca foi essencial. Tanto é que uma vez alcançado o poder, o PT resolveu rapidamente o problema cooptando suas lideranças com cargos no governo e isolando as demandas vinda da base. Essencial ou não, sem dúvida o apoio e a participação dessas organizações no novo governo nunca foi suficiente. Foi preciso, como já disse, também o apoio das elites (ao menos de parte significativa delas) e da massa não organizada que fornece o grosso dos votos no partido.

Entretanto, dentre esses três pilares, o ponto de apoio mais importante é esta última. Se essa base ruir, bye bye PT. Poderá ruir? Em tese, sim, mas eu não apostaria nisso num futuro próximo (até a eleição nacional deste ano).

Antes de mais nada, é preciso ter em mente que o comportamento de cada um desses três atores (além, evidentemente, do comportamento do próprio PT) se influenciam reciprocamente, aos quais é preciso acrescentar um quarto, a fração das elites não alinhadas com o PT. Num cenário de profundo descrédito das instituições democráticas, e não tendo conseguido recuperar a influência que possuía outrora, a oposição “de direita” não representa nenhum perigo ao PT. Suas tentativas de deslegitimar o governo (vide julgamento do mensalão) têm sido infrutíferas.

Por outro lado, os movimentos sociais têm crescido em poder de fogo, e se mostrado uma ameaça crescente após as manifestações populares de junho passado. No entanto, a base eleitoral, cuja maior fatia é composta pelas camadas mais pobres e menos organizadas da população, continua sólida. Ela é impermeável aos ataques da oposição tradicional, tanto quanto dos novos atores progressistas.

Paradoxalmente, essas massas são muito leais e muito desleais ao mesmo tempo. O que pode fazer com que essa base se rompa é a sustação do crescimento econômico, mas especialmente das migalhas que sobram para as massas pobres (seja na forma de ganhos salariais ou políticas redistributivas). Sua lealdade depende, portanto, dos ganhos que elas recebem. Mas, no caso do Brasil, essa lealdade também está ancorada na figura carismática e quase santificada do Lula. Ele é a barreira última que protege o partido de um tsunami de descrédito e deslegitimação.

Mas essa barreira tem limites. A economia é o pé de barro do gigante. Se ela quebra, leva junto todo o governo, assim como aconteceu com o governo FHC. Para as camadas que compõem a base eleitoral do PT pouco importa as acusações de corrupção, de que não tem princípios, ou se ele se alia com antigos ou novos oligarcas políticos e empresariais para obter apoio político. O PT, afinal, se preocupa fundamentalmente com isto: governabilidade é só uma desculpa para hegemonia. Já que no Brasil essa hegemonia se sustenta sobre bases heterogêneas e antagônicas, sua união é frágil e mantê-la colada é difícil, de modo que a “governabilidade” é sempre uma opção arriscada na medida em que não é possível agradar a gregos e troianos – não indefinitivamente.

Mas o cenário no Brasil é tal que, não tendo nenhum ator que lhe represente ameaça, o PT pode se dar ao luxo de jogar em mais de um time ao mesmo tempo. O que interessa a ele é como as massas veem esse comportamento. Para elas, o PT é um pai provedor que pensa nos e age pelos pobres, pouco importando como ele faz para provê-los. Embora as massas nem saibam exatamente como funciona a política, têm uma vaga noção de que se o PT toma certas atitudes que parecem ir contra suas expectativas, ele o faz como um mal necessário. Ou seja, supõem que o PT suja as mãos pensando, no fundo, nelas. Não obstante, se o PT não mantém o provimento em dia, a lealdade pode vacilar, e se aparecer um ator político capaz de capitalizar os ressentimentos e fomentar novas esperanças, leva o governo.

Nada disso está, aparentemente, em vias de acontecer. Mas baseados na história passada, acontecerá. A desaceleração econômica deve estar deixando o PT com o cu na mão.
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