segunda-feira, 30 de junho de 2014

A prática como critério último da verdade

O marxismo defende que o critério último da verdade é a prática. Embora eu trocaria a palavra verdade pela palavra correção, estou de acordo com essa proposição em relação ao mundo natural. Em relação ao mundo natural, regido por leis, no sentido forte da palavra – ou seja, por relações fixas que, por mais que sofram interferência externa (por definição, humana), não mudam –, pode-se falar em verdade, muito embora a verdade seja sempre uma suposição útil porque nada nos autoriza pressupor que existe um ponto onde se chega à verdade última. E verdade pressupõe a ideia de verdade última. O marxismo contorna esse problema definindo a verdade como relativa, o que é uma contradição em termos. A verdade é sempre absoluta, do contrário não seria verdade. Até onde sabemos, ao ser humano só é possível construir ideias que de alguma forma e em alguma medida se aproxima da verdade. O problema é que se se pode falar em verdade e em ideia-próxima-à-verdade em relação ao mundo natural, isso não vale para o mundo humano, e o marxismo parece ignorar as diferenças epistemológicas irredutíveis entre essas esferas ontológicas (para usar a expressão de Lukács). Não se pode falar em verdade no mundo humano não apenas porque tal mundo é simbolicamente significado pelos humanos, mas também e sobretudo porque ele não é regido por leis fixas e imutáveis que constituem a verdade. Isso quer dizer que não há critério objetivo à ação? Não há como julgar de fato as ações? Voltamos aqui à prática como critério da “ação correta” (ao invés da verdade), ou talvez da “melhor ação” entre tantas ações possíveis. A resposta a essa pergunta depende dos fins buscados. A melhor ação para se alcançar um fim não é a melhor para se alcançar outro fim, e o mundo humano não é um organismo autômato que persegue um fim predeterminado (seja pela natureza ou pela história), mas uma infinidade de fins (de projetos) que se embatem através de uma infinidade de ações. Como determinar qual é o “melhor fim”? Eu parto do princípio que isso não é possível de ser determinado ou demonstrado, porque se trata de escolhas cujas consequências desconhecemos e porque não há nenhuma verdade última com base na qual se pode avaliar os fins em disputa. O marxismo aqui retorna novamente à prática como critério válido para avaliar a correção desses fins. O problema é que essa avaliação é sempre feita a posteriori, ou seja, a correção de uma ação é sempre feita após a ação. Entretanto, ela não serve de base para a ação seguinte justamente porque não estamos lidando com fenômenos do mundo natural que permanecem regidos pelas mesmas leis eternamente. No momento de passar para a próxima ação, a correção da ação passada tem pouca ou nenhuma influência na correção da ação seguinte. Como a correção da ação vai estar sempre atrasada em relação à própria ação, e como as condições sempre vão estar diferentes no momento da ação seguinte, ela não serve como critério objetivo para avaliar antes de agir se se age corretamente ou não. Isso só seria possível caso se tenha em mente um modelo evolucionista da história e da vida social humana, como de fato tem o marxismo
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