quarta-feira, 23 de abril de 2014

Primeiras impressões sobre duas rodas

Locomover-se de moto é tanto uma benção como uma dádiva. Há apenas um mês a moto é quem me leva pra cima e baixo e a impressão já é de que faz anos que eu andava de carro. Nem consigo mais me imaginar naquele trânsito modorrento, naquela competição por uma vaga para estacionar, no dinheiro que aparentemente não valia nada, esvaindo-se literalmente em litros por poucos quilômetros rodados. A moto acelera e freia mais rápido, consome infinitamente menos, é ágil e flexível. Mas nem tudo são flores. Todo o mundo sabe de seus perigos, amiúde fatais. Quem se utiliza do carro acusa os motoqueiros de negligência e imprudência; estes por sua vez acusam aquele de não respeitar o seu espaço. Existe uma guerra cotidiana entre motoqueiros e motoristas, para não mencionar outros sujeitos que igualmente têm de dividir o cada vez mais abarrotado e mal estruturado espaço urbano. Foi preciso eu me colocar fisicamente no lugar dos motoqueiros para sentir como essa guerra se manifesta para eles. Agora eu entendo pelo que eles passam. No entanto, os motoristas têm razão: somos imprudentes, de modo geral ao menos, verdadeiros malucos. Entramos em corredor, cortamos a frente, etc. Isso tudo é verdade. Mas é preciso ver que a moto é intrinsecamente fora da lei. Com ela não dá pra andar como um carro. Isso em si não é argumento legítimo para arrogar-se o privilégio de não respeitar as leis de trânsito ou para ser imprudente com a própria vida e a vida alheia. Contudo, coloquemos o problema numa perspectiva mais ampla. É muito fácil um motorista reclamar do comportamento dos motoqueiros do alto da sua F-250, por exemplo, camionete gigante que ocupa metade da vida, ou do seu carrinho que, ainda que popular, faz a maioria das suas viagens subutilizado, geralmente transportando uma única pessoa. Quer os motoristas queiram ou não, os motoqueiros – e isso vale para os ciclistas também – são os únicos sujeitos que, de alguma forma, ajudam a democratizar um espaço supostamente público mas que na, realidade, é altamente privatizado e, consequentemente, oligopolizado. A despeito disso, isto é, de contribuir com a democratização da cidade e de fomentar uma lógica de mobilidade mais racional e eficiente, são os motoqueiros – e os ciclistas – quem, por ser o sujeito mais fraco, pagam pela irracionalidade e privatização da cidade, irracionalidade e privatização da qual eles não tiram proveito, mas cujos prejuízos ajudam a saldar. Eis aí uma outra faceta da lógica perversa de privatizar as benesses da vida ultramoderna enquanto se socializam seus subprodutos negativos. Quem corre o risco é justamente quem não se beneficia das vantagens. Portanto, antes de criticar, ofender e atacar os motoqueiros é bom que os motoristas de carro tenham em mente que, na realidade, é bom para eles mesmos que existam pessoas que andam de moto (e bike); isto é, não são eles que fazem o caos, o caos está dado, e só não está mais caótico por causa deles. Escrevi isso pela compreensão que essa experiência de andar de moto me deu, e para incentivar uma visão de empatia nos motoristas de carro
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