quarta-feira, 23 de abril de 2014

Para entender o comportamento policial

Policiais não são monstros desalmados – ao menos não mais do que a maioria das pessoas o são. E a prova disso é que todos os dias integram-se novos membros a essa instituição que não podem ser considerados, clinicamente, como sociopatas ou psicopatas. Seria fácil e confortável supor que os policiais são pervertidos, sádicos, malévolos, na medida em que isso estabelece uma demarcação nítida entre “eles”, os bárbaros, e “nós”, os civilizados. Esse mito é um pouco o que aconteceu com a memória do holocausto nazista. Mas o que ele não explica é como pessoas normais, razoáveis, sensatas, de repente protagonizaram ou apoiaram o maior massacre sistemático da história. Do mesmo modo, ele também não explica como pessoas normais, razoáveis e sensatas se transformam em assassinos e torturadores ao ingressar na polícia. Parece-me mais lógico supor que as pessoas de modo geral têm predisposições à violência (o que não significa que sejam inatas) que encontram acolhida na vivência policial e são reafirmadas constantemente na sua prática cotidiana. É a própria instituição, suas práticas e valores, seus espaços de vivência e atuação, seus mitos e representações que produz e reproduz o policial como o ator insensível, por vezes sádico, que conhecemos. Eu arriscaria uma hipótese para compreendermos esse processo: o que define o policial é a honra e a ética do dever, sendo que a primeira caraterística subordina-se à segunda; isto é, o policial desonrado é aquele que não consegue cumprir com o seu dever. Não importa que esse dever entre em contradição com os valores morais pessoais de cada policial: deve-se cumpri-lo a todo custo. O dever aqui pode ser a simples ordem vinda de cima, ou seja, decorrente do respeito pela hierarquia (“missão dada é missão cumprida”), ou pode derivar de uma visão de mundo mais ampla: o policial acredita travar uma luta do bem contra o mau, de bandidos contra mocinhos, e que, para livrar a sociedade desse mal, valem expedientes que em outro contexto seriam considerados imorais, como o famigerado “saco”. Isso porque não me parece razoável acreditar que um policial ache correto invadir um barraco de favela e esculachar seus moradores. Acontece que, nesta perspectiva de dever, esse tipo de comportamento, moralmente condenável em outro contexto, justifica-se. Aqui pode-se fazer mais um paralelo com a experiência nazista: em nome da construção de uma sociedade superior, o genocídio, algo abjeto e criminoso, encontra legitimidade e desarma os entraves morais à sua consecução.
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