quarta-feira, 23 de abril de 2014

O paradoxo do tempo

Eu não flano mais como costumava flanar, quando garoto. Andar me angustia. Ficar de bobeira me angustia. Não vou daqui a ali se não for de moto, para não perder tempo. Não me demoro. Não me deixo ficar. Não esqueço nem por um minuto as utilidades a serem feitas. Não sou senhor do meu tempo. Em tudo que faço tenho como critério principal o tempo. E o tempo, bem entendido, não é senão uma variável da utilidade. Ser útil é conseguir gastar o menos tempo possível para fazer o máximo de coisas possível. Nada de diferente acontece no dia porque eu simplesmente não dou a oportunidade para que aconteça. Meu caminho está predefinido. E é preciso cumpri-lo o quanto antes. E deve ser feito o quanto antes para que me sobre tempo para fazer o que não está predefinido. Ironicamente, eu me preocupo tanto com o tempo justamente para que me sobre tempo para ter o tempo que não me sobra. E isso é uma bola de neve, um círculo vicioso: quanto mais busco tempo, mais não o encontro; quanto mais otimizo meu tempo, mais tenho que otimizá-lo; quanto mais tempo eu faço sobrar, menos tempo me sobra. Ora, isso porque não é aplicando a mesma lógica que me rouba o tempo que me fará ganha-lo de volta. Não vivo para mim. Vivo para a utilidade que eu proporciono. Sou meio e não fim. Sou uma máquina. Vivo o tempo da e para a máquina. Assim como ela, tenho que ser útil ou não tenho razão para existir.
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