domingo, 23 de fevereiro de 2014

Sobre o corpo

Hoje, durante ócio contemplativo na praia, duas crianças me chamaram a atenção e me fizeram meditar a respeito de uma questão de grande importância para entendermos o nosso mundo: a educação do corpo como um dispositivo de controle. Percebi como essa educação começa na tenra infância. A primeira criança corria de lá para cá com outras crianças, mas seu biquíni caía a todo momento. No calor da brincadeira, ela parava para subir o biquíni que teimava em ir ao chão. A outra criança era ainda mais jovem, um menino entre dois e três anos. Certa hora, enquanto ele andava, ao perceber que a sua bermuda estava caindo, teve o enorme trabalho de puxá-la para cima. Fiquei bobo em ver como uma criança que, apesar de não saber absolutamente nada do mundo que a cerca, sabe perfeitamente bem, mais por condicionamento do que por qualquer outra razão, que a roupa tem que ser mantida no lugar, que não é permitido ficar nu; ou seja, inconscientemente ela já se guia pelas noções de decência/indecência. Eu acho que a tendência natural da criança é recusar a vestimenta. Tem criança que você mal acaba de vesti-la e ela já está correndo pelada por aí. Mas, incrivelmente, duas delas ali naquela tarde na praia lotada, durante brincadeiras acaloradas, se preocupavam em manter seus trajes de banho no lugar. Não creio que a nudez seja a condição natural do ser humano, simplesmente porque o ser humano pouco tem de condição natural. E recusar, nesta altura do campeonato, um item tão essencial da cultura da humanidade seria no mínimo um desperdício. A questão aqui não se resolve de uma maneira simplistamente dicotômica: nu ou vestido, onde nu = bom e vestido = ruim (ou o contrário para os mais conservadores). A questão que se coloca é a relação que mantemos com o nosso corpo, a maneira que o vemos e como reproduzimos tais formas culturalmente através de uma educação social primária, supostamente natural e óbvia, cotidiana, e, por isso mesmo, inconsciente. Ainda vemos o corpo como algo sujo e feio, que deve ser mantido longe da vista durante as situações normais do dia-a-dia, senão, do contrário, correríamos o risco de contaminar as coisas (a exceção do sexo, embora aqui também essa concepção se manifeste da sua maneira, geralmente como pudor ou nojo exagerados). Também vemos o corpo como um pecado, como uma imoralidade; a famosa noção cristã do corpo como tentação diabólica. E, por fim, vemo-lo como uma coisa/objeto que, pelo fato de ser propriedade de alguém, só pode ser vista (porque ver o corpo é frui-lo, goza-lo) pelo seu/sua proprietário/proprietária, embora no caso da mulher essa posse implique também em dominação. Eis aí três concepções fundamentais acerca do corpo que se expressaram hoje naqueles gestos aparentemente tão banais de duas crianças inocentes brincando na praia.
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