terça-feira, 14 de janeiro de 2014

A juventude sem voz quer ser vista e ouvida: sobre os rolezinhos

Desde dezembro do ano passado, a elite burguesa e branca brasileira está incomodada com a ousadia da juventude mestiça e pobre. Os chamados “rolezinhos” escancararam o racismo, o elitismo e a segregação social que vigora veladamente em nossa sociedade, deixando a descoberto o abismo social entre brancos e negros, ricos e pobres.

A cobertura da grande mídia, pretensamente jornalística, é um festival a parte de desonestidade e hipocrisia, montada com o propósito deliberado de passar a ideia de que os rolezinhos são, se não criminosos, ao menos um convite à baderna e a ações criminosas, o que justificaria a repressão e a postura elitista dos empresários diretamente interessados em coibir tais manifestações. A tomada de posição aqui é evidente. A discrepância entre a descrição de observadores sérios e a narração jornalística policialesca é patente e enervante. Esta última dá forte e desmedida ênfase às ações da polícia, passando a impressão de que se trata efetivamente de um caso de segurança pública. Toda a narrativa – a forma de conta-la, a desproporção entre os fatos que a compõem, as premissas que a sustentam – é construída de modo a criminalizar os “roleteiros” e de legitimar as queixas de seus opositores.

Alegações de saques e vandalismo são recorrentes, embora tais coisas não tenham acontecido, ou, se aconteceram, foram feitas por uma minúscula minoria que não representa o espírito do movimento. Na verdade os rolezinhos buscam justamente o contrário, isto é, afirmar os valores burgueses de consumo e, vale dizer, por vias legais. Eles são compostos por jovens trabalhadores pobres que moram com os pais e preferem empregar seus magros salários em lazer e em bens que lhes confiram prestígio.

Não vou entrar aqui no mérito desses valores, ou melhor, não vou aqui valorar negativa ou positivamente a adoção desses valores por parte de um grupo social cuja condição de exploração está umbilicalmente ligada à vigência desses mesmos valores. Penso que se trata de uma ilusão, que lhes é negativa, portanto. Mas o consenso ativo dos oprimidos em relação às ideias que informam a visão de mundo de seus opressores é um dado generalizado, ou seja, não é exclusividade de uma juventude alienada e fútil.

A questão importante aqui não é se essa juventude busca um caminho potencialmente negativo, alienante e não-emancipatório, mas o que essa busca significa e o que ela nos diz sobre a nossa sociedade e o nosso país. O que esses jovens estão dizendo é: queremos ser iguais a vocês! Queremos consumir, queremos fazer parte deste mesmo mundo do qual vocês fazem parte! E o que a classe média, a burguesia, a elite, lhes dizem em resposta é: nunca farão! Esse mundo é nosso, exclusivamente nosso! Por mais que o país mude, nada muda.

A elite branca e burguesa brasileira sustenta ainda hoje, por razões históricas, uma mentalidade colonial, escravista, mentalidade de casa grande e senzala. Ela é elitista, segregacionista, racista, preconceituosa. Quer crescimento econômico, maior renda, investimento; quer viajar mais para os EUA a compras, quer trocar o carro por um maior e mais potente, quer mais luxo e conforto, mas não quer abrir mão de seus espaços e atividades exclusivos, seus símbolos de poder e status; aceita que o pobre tenha tevê de plasma e iPhone, mas não que ele frequente shoppings, restaurantes caros ou aeroportos.

Isso tudo, claro, é mais um temor decorrente de uma percepção enviesada do que um dado real. Noutras palavras, os espaços e estilo de vida da burguesia não estão ameaçados por um proletariado aburguesado crescente, como gostaria de fazer-nos acreditar a esquerda governista. O ingresso ao mundo do consumo por uma classe C recentemente alçada ao status de “nova classe média” (eufemismo para “classe trabalhadora com maior poder de consumo”) é menos um fato do que uma ilusão. Mas a elite branca e burguesa é, como toda elite, temerosa. Tem medo da miséria que a rodeia e para a qual ela de ordinário não olha e não se interessa, senão quando ela explode em violência. E qualquer manifestação social, cultural ou política que venha dos setores implicados nessa miséria, especialmente os jovens, é imediatamente identificada como violência.

O que ninguém pode esconder é a discrepância entre a cor/tom de pele majoritária (negra ou parda) e a origem social (bairros pobres e favelas) dos “roleteiros” em relação à cor/tom de pele e origem dos frequentadores tradicionais dos shoppings. É o encontro de dois mundos que coabitam, embora paradoxalmente estejam segregados. Os espaços urbanos não são neutros. Violar a convenção tácita que demarca qual espaço é de quem só poderia levar às deprimentes cenas que temos presenciado. É por isso que argumentar que o temor em relação aos rolezinhos deve-se ao fato de que estão compostos por maloqueiros e funkeiros, ou seja, por uma juventude transviada, não cola. O medo da burguesia branca é generalizado em relação aos pobres e pretos. Há alguns anos atrás uma espécie de rolezinho havia sido organizado com trabalhadores sem-terra e sem-teto na cidade de São Paulo. Eram famílias inteiras, e não apenas adolescentes. Adivinhem: a reação foi a mesma. Chegou-se até a pedir judicialmente pela proibição de sem-tetos entrar em shoppings.

Além do mais, sabemos que o problema não são os jovens baderneiros. Desde 2007 bichos da FEA-USP fazem algo muito parecido com o rolezinho no shopping (dado seus gritos de guerra ofensivos, eu diria que são ainda mais perturbadores). Mas, neste caso, são jovens majoritariamente brancos, filhos de empresários e profissionais liberais. Por que num caso se trata de diversão/comemoração sadia, e noutro se trata de vandalismo e perturbação da ordem pública? Justamente porque a questão aqui não é a baderna, é a cor de pele, é a origem social.

Ora, quando essa “gente diferenciada” adentra espaços exclusivos como os templos de consumo da elite ocorre um choque. Ninguém estranha a Casas Bahias lotada de gente pobre e mestiça. Mas um shopping! O shopping foi pensado precisamente como um enclave de segurança num mundo inseguro! Reparem que o shopping inspira-se na estrutura da cidade, com suas vias, lojas, praças. É a cidade perfeita, ideal, onde os "cidadãos de bem" podem andar a pé sem risco de serem assaltados ou incomodados com a visão da miséria. Quando esta adentra esse espaço, rompe-se assim a convenção tácita que demarca os espaços permitidos e proibidos. Acontece que é preciso violá-la; é preciso expor as fraturas de nossa sociedade injusta, opressora e desigual. A liminar conseguida do poder público pelas empresas donas dos shoppings não institui um apartheid. O apartheid já existe, mas não o percebemos como tal. O que os rolezinhos lograram fazer foi justamente torna-lo evidente.
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