quinta-feira, 19 de dezembro de 2013

O que as crianças têm a ensinar para os adultos

Os adultos estão tão seguros de sua superioridade e de seu modo de vida que mal se dignam a olhar para baixo, onde ficam as crianças, quanto mais a se colocar no ponto de vista delas para ver com seus olhos e tentar entender os seus motivos. A noção de que a criança é um adulto em potencial, e que, portanto, sendo ainda pouco desenvolvido, necessita desenvolver-se, é uma espécie de noção de progresso deslocada do gênero sobre o indivíduo. Tal noção de progresso, que supõe o sentido do desenvolvimento indo do simples ao complexo, do inferior ao superior, impede que enxerguemos na criança um ser completo em sua própria especificidade. Daí a justificava de que podemos fazer dela o que quisermos, isto é, que podemos (e devemos) fazer delas a nossa imagem e semelhança, o que implica, necessariamente, transformá-la em adultos. Este é exatamente o papel que acreditamos ter para com a criança.

Essa noção de progresso individual, que começa na infância e alcança o cume na idade adulta, é aceita pelos adultos como autoevidente, tal como a ilusão progressista e perfectível oitocentista também fora; ou seja, na medida em que se trata de um axioma, sua aceitação nos exime de problematizar a noção em questão. Temos até, por exemplo, um sentido pejorativo com o qual empregamos a palavra “infantil”, o qual denotaria algo como um comportamento frívolo e caprichoso que acreditamos ser típico da criança e que, como tal, é inaceitável em adultos. Assim, a linguagem é não apenas uma expressão de nossos preconceitos, como também um meio pelo qual tornamo-los reais, ou seja, a linguagem é um instrumento de coerção cuja finalidade é moldar o comportamento da criança e do adulto segundo os papéis, culturalmente construídos, que se espera de um e de outro.

Paradoxalmente, a infância é um conceito relativamente recente. Um de seus corolários estabelece que toda criança tem direito à infância. Ela não pode, portanto, trabalhar ou fazer outras atividades consideradas de natureza adulta. Deve, isso sim, fazer coisas de criança, notadamente brincar. Progressivamente o tempo da vida destinada à infância foi ampliando-se. Somada à adolescência, um conceito essencialmente moderno, chegou aos 18 anos de vida. Convencionou-se, por conseguinte, um momento de ruptura arbitrário, momento no qual se espera que a criança, num passe de mágica, torne-se adulto. A bem da verdade, existe um conteúdo material dando substância a essa convenção social abstrata: nessa idade ou próxima dela, a criança está para terminar os estudos, ingressar no mercado de trabalho e/ou estudos superiores, deixar a casa dos pais, etc. Esse processo implica em arcar progressivamente com mais e mais responsabilidades e obrigações. E é basicamente nisso que reside toda a nossa ideia de maturidade: responsabilidades e obrigações. Sintomaticamente, quando uma criança está no meio desse processo de transição, geralmente é cobrada em relação ao seu comportamento com críticas do tipo: “você não tem mais idade para agir assim”, “tem que tomar um rumo na vida”, etc.

Obviamente, não estou defendendo aqui que temos que nos eximir de nossas responsabilidades e obrigações. Apenas chamo atenção para a concepção mesquinha e estreita que temos da vida adulta – e, ao mesmo tempo, para o modo aviltante e arrogante com que lidamos com a criança. Tais concepções não me parecem naturais – como, desnecessário dizer, basicamente nada do que diz respeito aos seres humanos enquanto seres sociais o são. Estamos imersos numa cultura que dá valor desmedido à produção e à vida material; logo, ao trabalho. Em semelhante cultura, certamente, não há espaço para “infatilidades”. É preciso se empenhar em atividades monótonas e alienantes, ser parcimonioso, frio e calculista; numa palavra: é preciso abdicar dos prazeres da vida – e quando eu digo prazeres da vida não me refiro a essa ideia deturpada que se faz deles; tais prazeres não se resumem a beber e comer bem, mas se estende a vários aspectos da vida, como a família, as amizades, o ócio criativo, a natureza, as artes, etc. – para dedicar-se única e exclusivamente ao trabalho. Ora, é precisamente nesse ponto que começa a crise na vida de todas as pessoas. A vida, que ia bem até aí, estraga-se da noite para dia. Daí porque dizemos: “Ah, que saudade da infância! Eu era feliz e não sabia”.

A criança não se interessa por resultados, metas, objetividade, cálculo; desgraçadamente (para ela), a criança não nasce como um pequeno indivíduo tipicamente capitalista (da Era capitalista). Ela nasce simplesmente criança, e, como tal, interessa-se pela beleza, pela diversão, pelas pequenas coisas da vida. Antes que o mundo destroce seu espírito, ela tem todo um mundo para descobrir. A criança é por natureza uma filósofa, uma cientista e uma artista. Ela gosta de contemplar – uma faculdade que, por demandar tempo e paciência, caiu em descrédito diante de uma sociedade que cobra resultados ótimos em relação ao melhor custo/benefício possível –; é curiosa, se entretém com as mínimas coisas – aliás, o que vemos na criança como facilidade de distrair-se, a criança vê como interesse legítimo pelas coisas que, aos adultos, são invisíveis –; é criativa, sensível, ama a beleza e as formas. Diante disso, não é de estranhar que a sociedade se encarregue de suprimir todas essas qualidades na criança. Quando ela o consegue, passamos a chama-la de adulto.

E para voltar a essa questão, qual seja, a da passagem da vida infantil para a adulta, o ponto aqui não é defender que tal passagem é uma criação abominável, antinatural, e que deveria ser abolida (embora ao menos a forma como a concebemos deveria, em tese, ser abolida); a questão aqui é: porque precisa existir um ponto de ruptura e separação absolutas entre a criança/infância e o adulto/maturidade? Ou, noutras palavras e melhor dizendo: porque precisamos matar a criança para tornarmo-nos adultos? O que impede o adulto de ser mais parecido com a criança, ou, ao menos, de ouvi-la com sinceridade, de respeitá-la enquanto um ser legítimo, e assim aprender com ela? Será que não teríamos muito a aprender com ela?
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