sábado, 21 de dezembro de 2013

O machismo e a violência disfarçados de elogio e flerte

Eu acho (tragi)cômico os homens que pensam ser natural se irritar ou agredir, verbal ou fisicamente, outro homem que, por ventura, lhes passe uma cantada, enquanto se arrogam o direito de “elogiar” toda e qualquer mulher que quiserem. Eu pergunto: qual é a diferença? E de fato, diferença existe, mas não no que se refere ao comportamento em ambos os casos, e sim aos sujeitos envolvidos. A posição de poder ocupada por cada um deles é que permite a criação de um discurso que legitima a raiva num caso, e o “elogio” no outro. Mas antes de demolir essa noção estúpida de elogio, pensemos no efeito psicológico que sua prática gera sobre a mulher, e como tais efeitos se constituem num dispositivo de controle sobre ela e sobre seu corpo.

Para pensarmos essa questão, um exemplo concreto é sempre de grande valia. Certo dia, de madrugada, voltava eu sozinho completamente embriagado para casa, quando um carro parou ao meu lado. O motorista perguntou se eu queria uma “chupadinha”. Minha reação foi automática e intempestiva. Por pouco não parto pra cima do abusado. (Deixo claro que isso foi há muito tempo. Hoje não me comportaria assim).

E se a situação fosse diferente? Se eu fosse uma mulher, e o motorista fosse um homem hetero? Nesse caso não seria uma agressão, um desrespeito, seria um elogio, um flerte? Em primeiro lugar, se eu fosse uma mulher não estaria voltando para casa, de madrugada, alcoolizada e sozinha. Em segundo, se estivesse, não teria coragem de enfrentar o agressor, como eu fiz. Se tivesse, quem garante que a história teria acabado aí, sem o homem, um possível estuprador, tornar-se efetivamente um estuprador? Em terceiro lugar, esse fato não engendrou em mim um pavor de sair sozinho de madrugada. Diferentemente da mulher (e exatamente por ser homem), eu continuo me sentindo seguro para voltar de madrugada bêbado e sozinho para casa, certo de que, no máximo, serei assaltado ou, eventualmente, morto, mas nunca estuprado.

Ora, essa situação não é corriqueira na minha vida de homem. Ao contrário, é cotidiana na vida da mulher. E pelo fato de ser cotidiana, e de ser, de um modo ou de outro, legitimada pelo discurso machista, suas consequências são profundas: geram estados psicológicos de insegurança, apreensão e angústia que se consubstanciam em dispositivos de controle que determinam, internamente, onde e quando a mulher pode ou não ir, como se deve comportar e se apresentar, etc. Ou vocês, homens machistas, acreditam seriamente que as mulheres sentem medo e/ou angústia porque são naturalmente medrosas, frágeis, bobas? Garanto que se vocês sofressem a carga de abusos que elas sofrem todos os dias desenvolveriam quadros clínicos de perseguição e paranoia. As mulheres são criaturas estoicas, de uma bravura e tenacidade que eu, na minha condição de homem, não consigo sequer imaginar.

Mas, neste ponto, aparecem aqueles que refutam esses argumentos com a seguinte objeção: certo, concordo que abordar uma mulher dessa forma é desrespeitoso e invasivo, mas não é a isso que me refiro quando falo em elogio. Então o que seria elogio? Um aparentemente inocente “fiu-fiu” ou dizer “gostosa”, “delícia”, “gata”, embora sem acrescentar (o que geralmente acontece) “ai se eu te pego”, “te como todinha”? São termos realmente tão diferentes assim?

Em primeiro lugar, a diferença entre chamar uma mulher desconhecida de linda na rua, e chama-la de gostosa não passa de uma diferença de grau, de intensidade, e não de gênero, ou seja, não são coisas diferentes, mas idênticas só que em intensidades variadas. Assim também como ser mais agressivo, dizendo “te como todinha”, não muda em nada o problema. Trata-se apenas de um caso limite, cuja expressão máxima é consumar a ameaça. Isso porque o que importa aqui verdadeiramente não é a palavra que se usa para “elogiar”, mas o “elogio” em si, ou melhor, o que se acredita tratar-se de um elogio.

Ora, simplesmente não se trata de um elogio. Trata-se do exercício de um poder, o poder do homem sobre a mulher. Simples assim. Toda vez que um homem faz um “elogio” para uma mulher está basicamente afirmando o domínio de todos os homens sobre todas as mulheres. E quando esse elogio fica mais sério, quando é levado às últimas consequências, o homem acredita estar exercendo uma prerrogativa sua, isto é, de que ele tem o direito de subjugar a mulher, ainda que isso implique no uso da violência. Como isso não é feito de forma inteiramente consciente, e como existem barreiras morais para tal violência, toda uma série de argumentos espúrios surge para legitima-la, muitos deles acabam aceitos. Além do mais, eu gostaria de saber onde está a linha tênue que separa o “elogio” da agressão verbal? Essa linha não existe, simplesmente porque elogio e agressão verbal (cantadas de rua) são coisas inteiramente distintas.

Elogios existem? Quero acreditar que sim. E flertes? Também. Mas, seguramente, não é disso que estamos falando aqui. Estamos falando de violência pura e simples. Precisamos redefinir nossas ideias e valores, transformar nossos comportamentos e práticas, e descobrir como elogiar e flertar sem ser machista. Nada impede que um homem tente se aproximar de uma mulher desconhecida numa circunstância qualquer. Mas com respeito e gentileza. E ao primeiro sinal de que não é correspondido, pare. Você não é o último homem do mundo, e a mulher tem o direito sobre o seu corpo, tem liberdade e autonomia sobre sua vontade, ou seja, é um indivíduo com direitos e prerrogativas idênticas às dos homens. De resto, as mulheres não nos olham como pedaços de carne desfilando na rua, como os homens as enxergam. O machismo hiperssexualiza as mulheres, e é por isso que os homens acham que podem flertar com elas onde e quando quiserem, como se elas estivessem lá só pra isso. Por isso, meu caro amigo machista caçador de mulheres, nem sempre sendo gentil e educado não se está a cometer um desrespeito e uma violência à mulher, que tem direito de andar pela rua sem que um monte de galanteadores inoportunos a persigam, ainda que com rosas e não com pedras.
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