terça-feira, 10 de dezembro de 2013

A propósito de Mandela

Sua história, complexa e contraditória como todas as histórias, pode e deve ser vista e revista a partir de um prisma objetivo e científico. (Re)encontrar a pessoa de Mandela – quem ela foi –, parte necessariamente da análise desapaixonada do que ela disse e fez – antes, depois e durante. Somente a partir deste ponto de partida concreto pode-se fazer um balanço crítico de quem Mandela realmente foi, seu papel e significado para a emancipação da África e do povo negro.

Nem terrorista, nem revolucionário (coerente), Mandela foi, antes de tudo, um ser humano, que, como tal, nem sempre fez escolhas acertadas. Creio que, enquanto pessoa, enquanto ser humano, seu caráter, a honestidade de suas motivações, a abnegação e seriedade com que levou adiante o fardo pesado da luta contra o apartheid não podem ser questionados. Se hoje o CNA é acusado de trair a causa pela qual se propôs a lutar – que não se restringia ao fim do apartheid, mas se estendia à soberania nacional e à justiça social –, isso não deve ser creditado apenas a Mandela; ou melhor: sua parte de culpa, assim penso eu, deve-se a escolhas equivocadas e não à corrupção de seu caráter.

Mandela nunca traiu a causa negra, o CNA sim. Ele não foi comprado pela elite capitalista branca dominante, nem, tenho certeza, tinha por objetivo fazer surgir uma (pequena) elite capitalista negra enquanto a grande maioria do povo negro continuasse sob o jugo, agora velado, do apartheid. Mas aliar-se a seus algozes a fim de fazer uma transição pacífica não teve por efeito apenas evitar uma guerra civil; pagou também o preço de manter intacta as relações de poder que constituíam os alicerces do apartheid. Mandela optou pela pior opção quando todas as portas para uma profunda reformulação da sociedade sul-africana estavam abertas.

Mas, para além da análise objetiva de quem foi Mandela, temos de compreender como nós o vemos e porque. Aqui entra a questão da memória coletiva e histórica, que não necessariamente se confunde com os fatos. Mandela, como toda figura histórica de grande importância, transformou-se num mito. E esse mito, o Mandela-símbolo, está em disputa. Não é a toa que aqueles que há trinta anos chamavam o líder da resistência negra sul-africana de terrorista hoje tentam, hipocritamente, depura-lo – o Mandela Nobel da paz – em uma figura inofensiva, arrependida e absolvida de seus pecados.

Contra essa imagem de um Mandela santo, que sofreu no calvário e que, como Jesus, foi capaz de perdoar seus algozes, é contra essa imagem que temos de lutar. Mandela foi antes de tudo um revolucionário. Um dos mais importantes de todo o século XX. O que deve ficar para nós não é o Mandela pacifista, aberto ao diálogo e pronto a perdoar seus algozes fascistas. Para nós, fica a lembrança do Mandela antirrascista, antiimperialista e anticapitalista. Por isso, elites ocidentais conservadoras, tirem suas mãos sujas de cima do Mandela!
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