sexta-feira, 22 de novembro de 2013

Sobre mídia e mensalões

Não pode haver dúvidas que, não fosse o papel desempenhado pela mídia em armar o circo, não teríamos a ação penal 470 ou, ao menos, não da maneira que se desfecharam os fatos. Nada mudou. Não abrimos uma senda irrevogável em direção a novas searas da prática política, menos corruptas. Essa pode ter sido a razão aparente, mas existem motivações mais profundas – e menos confessáveis – envolvidas, agindo sob a superfície.

Seria uma inocência – para não dizer burrice – sem par acreditar que a ação penal 470 abre um novo momento, mais auspicioso, para o Brasil, seja na prática política, seja na judiciária. O STF que dessa vez condenou líderes importantes do PT é o mesmo que invariavelmente livra empresários corruptos da cadeia e engaveta processos contra agentes públicos do alto escalão. Seria no mínimo estranho que nossos magistrados supremos um dia acordassem com sede de justiça. 

De outro lado, nada mais risível do que o bom-mocismo do PT. De fato, não duvido que tenha havido aí, em sentido muito amplo, uma espécie de golpe. Mas um golpe da direita contra a direita, isto é, de uma direita mais à direita do PT. No jogo político que este aceitou tomar parte, esse tipo de jogada é, se não válido, perfeitamente normal. Quanto à hipocrisia da direita tradicional, ela é, para qualquer um pobremente informado, digna de asco. 

Entretanto, esses atores são, na minha opinião, secundários. O grande protagonista dessa história toda foi a grande mídia – ou melhor, o punhado de famílias que monopolizam os meios de comunicação praticamente desde que eles existem e que determinam o tipo e a qualidade de informação que se veicula no país –, na mais nova demonstração de força que ela exerce sobre os rumos da política. Essa mídia já fez um presidente se matar, fomentou um golpe que levou a uma ditadura de duas décadas, derrubou um outro que ela mesma ajudara a eleger contra um metalúrgico que tinha todas as probabilidades de vencer, e os exemplos se sucedem. 

Mas hoje é diferente. Hoje é o PT que dá as cartas, e ele é generoso e paga muito bem seus aliados por isso. Então a grande mídia é burra ao pretender, infatigavelmente, se desfazer da galinha dos ovos de outro? Não creio. Não se trata apenas de quem paga mais. É óbvio que a grande mídia, assim como qualquer outra organização capitalista, obedece a quem paga mais. Mas para além de interesses pecuniários, ela também esposa ideologias que se expressam num projeto de sociedade e que, portanto, tem também uma dimensão política. E a grande mídia, monopolizando os meios de comunicação, tem em mãos um grande poder para executá-lo. Não apenas tem o poder, mas também a vontade, como deixou muito claro certa feita Roberto Marinho, ao afirmar que sim, que ele usa(va) o poder. 

Não há instituição mais reacionária neste país do que a “nossa” grande mídia, esses malditos Marinhos, Mesquitas, Frias, Civitas, Saads, Abravanels. Por mais que os governistas, nomeadamente o PT, se esforcem em fazer dela uma aliada isso é impossível. O PT é um outsider, e sempre será visto com desconfiança. Ademais, os vínculos que a grande mídia mantém com as elites políticas são, por razões históricas, muito mais orgânicos com seus representantes tradicionais de direita, e, a não ser que PSDB, DEM e PP sejam completamente esmagados, dificilmente o legado de três mandatos petistas, tampouco um possível quarto, poderá mudar isso. 

Por outro lado, o STF foi, antes de mais nada, um joguete dessas forças em conflito. Não que em alguma medida seus membros também não sejam anti-petistas (e, por extensão, anti-esquerdistas, embora haja aí um equívoco de percepção), dado suas origens de classe e o sentimento que normalmente vige no seu ambiente jurídico. Mas, mais importante do que isso, o mensalão botou em jogo interesses pessoais, acicatados pela grande mídia, especialmente no caso do Joaquim Barbosa, que agora está a um passo de ingressar na política com um capital inicial já bastante elevado. 

Que não se pense que eu estou aqui comprando a briga do PT. Estou apenas tentando compreender um fato, que, como todo fato, pode ser iluminado a partir de vários ângulos. Os companheiros do PSTU fizeram já uma justa crítica ao PT, a qual eu compartilho essencialmente. No final das contas, o PT cavou sua própria cova ao aceitar as regras do jogo (não do jogo democrático em si, mas da maneira corrupta com que se jogam suas partidas). A condenação do STF foi justa, isso não se discute, embora por motivos errados. Mais do que a ação correta, são os motivos errados que devem nos interessar principalmente.
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