domingo, 13 de outubro de 2013

Todo apoio à Fran: mais uma vítima do nosso machismo de cada dia

As reações suscitadas na rede a propósito do caso da Fran, garota exposta publicamente em vídeo gravado durante uma transa, são muito ilustrativas no que se refere à mentalidade machista dominante. Entre as reações, há quem defenda-a, há quem a condene, mas o interessante mesmo é notar as reações ambíguas, que tentam compartilhar a culpa entre ela e seu algoz.

É tão incrível que alguém tente encontrar alguma espécie de culpa numa pessoa que foi, em todos os sentidos, vitimada por um ato criminoso alheio, que isto só se explica pelo nível e profundidade do sentimento misógino entre nós. Porque o fato de uma mulher ser vítima parece ilógico para muitas pessoas, e que, portanto, alguma culpa ela deve ter na história. Colocada a questão de forma abstrata, ninguém acharia moralmente correto que uma “pessoa” tornasse público imagens íntimas de outra “pessoa” sem o seu consentimento. Mas o fato de ser a vítima-culpada uma mulher, e o culpado-vítima um homem não é mera coincidência.

A lógica por trás dessa tentativa, aparentemente imparcial e razoável, de compartilhar a responsabilidade é a mesma que culpa as mulheres vítimas de assédio e/ou estupro em função de seu comportamento, tido como inadequado. Culpabilizar a vítima é o meio usado para recolocar a mulher no lugar dela. Essa lógica funciona mais ou menos assim: o homem não pode ser culpado por uma ação que ele está predisposto a fazer, de modo que cabe à mulher evitar que ele a faça.

Para que essa lógica funcione é preciso que determinados papeis sociais de gênero sejam bem definidos, de tal sorte que a culpa da mulher é ter faltado com o seu papel. Espera-se que a mulher seja recatada, seletiva em relação aos seus parceiros sexuais, que faça amor e não sexo, que se interesse por um parceiro reprodutivo ao invés de por um parceiro sexual. Quando uma mulher não age desse modo, cai sobre o ela o estigma de puta, de vadia, e, como tal, quando “ela se coloca” em determina situação, cuja posição normalmente identificaríamos com a vítima, pode-se transferir a ela a culpa, como se, ao não observar o comportamento adequado ao seu papel de mulher, ela tivesse possibilitado e jogado sobre si a responsabilidade pela situação. Logo, ela é culpada.

Nossos valores sexuais e de gênero invertem, desse modo, os valores morais mais básicos. O homem, neste caso, não é, evidentemente, considerado uma vítima, no sentido literal do termo, mas também não é considerado o culpado, uma vez que ele estaria apenas fazendo “o que todos os homens fazem”. Ele é apenas mais um garanhão caçador que apanhou outra vítima. A culpa é da vítima que não se resguardou, que não percebeu com quem estava lidando. Alguém aí já viu um vídeo íntimo onde o homem é quem é exposto e humilhado? Só se for um homem homossexual...

O fato de que vídeos como este se tornem virais é expressão da vontade profunda, ainda que inconsciente, de humilhar a mulher, de rebaixá-la, de submetê-la aos nossos desígnios machistas. Quase como um lembrete de que se ela se rebelar haverá consequências. Quer gozar? Não podemos te impedir como faz um clérigo xiita, ou te apedrejar em praça pública, uma vez que somos ocidentais civilizados, mas, cuidado, podemos te expor publicamente. Quer ter o corpo livre para ir e vir onde e quando quiser ou para fazer dele o que bem entender? Também não podemos te impedir, mas podemos te estuprar em alguma rua escura. É assim que criamos novos mecanismos de controle que, sendo sutis como são, não vemos como tal.
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