quinta-feira, 10 de outubro de 2013

Reflexões sobre nossa relação com a natureza

Um bom exemplo que nos permite visualizar a relação entre a sociedade contemporânea (e, por esta, entenda-se: ocidentalocêntrica e capitalista) e a natureza pode ser tirado do modo como a maioria de nós, enquanto indivíduos, lida com a água. De forma mais inconsciente do que consciente, de modo geral não estabelecemos nenhuma conexão entre a água que sai da nossa torneira e a água que corre nos rios, que escorre das geleiras, que cai da chuva. E olha que um dos conhecimentos mais martelados na escola é justamente o ciclo da água, embora talvez o mesmo não seja verdadeiro no tocante às técnicas empregadas pelos seres humanos na sua captação e devolução ao ciclo. Enquanto isso, seguimos destruindo um dos bens mais essenciais à vida e, obviamente, à nossa própria existência.

Não está em causa aqui se o principal culpado é a indústria ou o consumidor, a sociedade ou o indivíduo, até porque esse é um falso problema. As causas são múltiplas. À primeira vista, parece lógico que a indústria, em sentido amplo, consuma e polua infinitamente mais do que os indivíduos tomados em conjunto. Entretanto, não existe produção sem consumidor, e considerando-se que a nossa economia está baseada no excesso e no desperdício, os indivíduos, investidos no papel de consumidor, constituem um pilar tão fundamental nesse sistema quanto a própria indústria em si. Daí também a conclusão lógica de que não é possível transformar fundamentalmente esse sistema a menos que alteremos todos os elementos da equação, o que significa que apenas a responsabilidade pessoal não vai salvar o mundo.

Mas voltando ao nosso exemplo, este me ocorreu enquanto tomava banho e se trata justamente deste ato tão banal e tão importante no que se refere ao consumo de água. A maioria de nós, eu inclusive, não fecha a torneira para se ensaboar (se posso argumentar em minha defesa, às vezes fecho, às vezes não, mas sempre procuro não me demorar no banho). Como se trata de uma ação cotidiana banal, ninguém para pra pensar na quantidade de água que ela consome, ou em quê poderia contribuir para diminuir esse consumo. Se esse tipo de reflexão já passou pela sua cabeça, mas você continua fazendo do mesmo modo que fazia antes, provavelmente a discussão interna que se travou dentro de você acabou com a vitória de algum argumento espúrio usado para justificar a opção de não mudar. Ora, somos seres racionais e éticos, e por mais que uma pessoa esteja cagando para a natureza ela precisa justificar, com o mínimo de consistência lógica, a si mesma essa postura.

É precisamente nessas justificativas que podemos encontrar as representações que expressam as nossas noções de sociedade e de natureza (representada neste caso pelo elemento água), assim como da relação entre essas instâncias. Entre aqueles que pensam ou já pensaram criticamente na maneira como usam a água, uns podem se sentir mal, outros podem não dar a mínima, e outros ainda podem se importar mas não o suficiente para se incomodarem permanentemente com isso. Alguns irão justificar sua reação com base em uma ideologia individualista, seja sob um ponto de vista pessimista/fatalista, conforme o qual um indivíduo sozinho não pode alterar em nada a situação, seja sob um ponto de vista egoísta, conforme o qual ele se arroga no direito de usufruir o prazer de um banho mais demorado do que os outros. Outros irão pautar a sua justificativa em termos mercadológicos, afirmando que quem paga a conta é ele e, se o paga, está-lhe garantido o direito líquido e certo de fazer o que bem entender com a “sua” água.

Dessa breve reflexão, podemos ver como o núcleo em torno do qual giram as representações da relação sociedade/natureza é o indivíduo. Composta por sujeitos individuais portadores de direito, a sociedade se caracteriza assim por uma irresolvível tensão em seu interior: cada direito individual se coloca em antagonismo com todos os demais. Por isso, o individualismo típico da nossa sociedade é, por natureza e definição, egocêntrico. Para se satisfazer, ele tem que eliminar o direito individual alheio. Daí a concorrência que se estabelece e, necessariamente, a desigualdade entre eles.

Essa é uma forma de ver o mundo muito distinta dos povos ditos “primitivos”, cuja relação com a natureza se estabelece sobre bases radicalmente distintas das nossas. Em termos ideológicos, os indivíduos desses povos não compreendem a sua própria existência individual senão como uma função da existência coletiva e da natureza, a qual essa coletividade está organicamente integrada. Nenhum de nós, pessoas urbanas e “civilizadas”, se sentimos responsável pela mãe natureza como eles se sentem, muito menos sentimos que o simples fato de deixar a torneira ligada ou se esquecer debaixo do chuveiro representa uma agressão a ela. Esse senso de responsabilidade e de pertencimento a um todo maior, de fato, não pode surgir dentro de uma sociedade que toma o indivíduo isolado como sujeito e centro do mundo.
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