terça-feira, 8 de outubro de 2013

O romantismo facebookiano

Pode existir alguma coisa mais brega que infindáveis demonstrações de amor no Facebook? Quem diria que a manifestação do amor romântico se transladaria do mundo fictício da idealização artística, atualmente sob a forma de novelas melodramáticas, para a coletividade virtual criada pelas redes sociais da internet. Qual o intuito de promover uma exibição enjoativa de pieguice aos olhos de todo o mundo? E quando digo todo o mundo, quero dizer todo o mundo mesmo: não apenas amigos e familiares, mas conhecidos longínquos e, também, notórios desconhecidos. Durante um tempo, eu cheguei a imaginar que o romantismo estava destinado a acabar; que atualmente ele não passava de uma reminiscência de tempos mais, digamos, vitorianos. Hoje o romantismo voltou com força total. De duas uma: ou essa minha impressão é equivocada, e o romantismo nunca saiu de moda, ou efetivamente os tempos e, consequentemente, os valores e necessidades são outros. Talvez o romantismo nunca tenha saído de moda simplesmente porque isso não pode acontecer; porque se trata de uma necessidade humana intrínseca, a qual por força da ordem das coisas nunca se poderá alienar. A questão então é: porque o Facebook se tornou o lócus privilegiado onde o amor romântico é cultivado? Ou será essa também uma impressão enviesada, na medida em que encontramos, entre os casais românticos, demonstrações de amor tanto na vida virtual quanto na vida real? Não obstante, um espaço não se confunde com o outro, e cada um deles põe suas próprias regras de conduta e seus limites de ação entre o que é aceitável e o que não é. Não digo que não o seja demonstrar carinho na outrora inimaginável publicidade virtual do mundo cibernético. Mas eu não vejo porque ficar se pavoneando por ter encontrado um grande amor senão entre as pessoas queridas, que efetivamente se importam com isso. Se o olho gordo e o mau-olhado são forças que existem de fato, então os amantes estão cada vez mais sujeitos a serem acometido por elas. Talvez tudo isso seja secundário, racionalizações de um sentimento mais profundo e menos consciente. Estaria eu, com dor de cotovelo, deixando que meus rancores e frustrações obscureçam meu julgamento? Eu não quero ser – mas já sendo – o estraga prazer, o ranzinza mal-amado que não quer ninguém feliz ipso facto. Na verdade, nem sei porque estou a escrever essas linhas. Nada disso me incomoda tanto assim. Pergunto-me se a nossa vida virtual estaria tornando-se mais importante que nossa vida real? Porque, com efeito, o que somos e fazemos na internet é uma construção, não meramente um espelho ou uma extensão do que somos e fazemos na vida real. Por exemplo, a julgar pelo Facebook ninguém mais tem problemas familiares. E sabendo-se que esses problemas não acabariam assim tão repentinamente, é de supor que a vida virtual esconde a vida real ou inventa para ela outra realidade, uma “realidade fictícia” que nos satisfaça emocionalmente e sobre a qual temos algum controle. Mas, então, meu raciocínio cai numa contradição: se eu argumentava, acima, contra a tendência cada vez maior de expor publicamente a vida real no mundo virtual, agora não posso defender conscientemente a postura de que sejamos mais abertos e sinceros e que não criemos vidas fictícias neste mundo. Afinal, a que serviria, então, o Facebook? Certamente não é para ficar emitindo opiniões intrometidas, sem ser convidado a fazê-lo, tal como eu costumo fazer – e como eu vou fazer também com essa em particular. Aos amigos e amigas apaixonadxs e românticxs, de internet e de vida, por favor não levem a mau esses comentários estúpidos de um indivíduo carente e rancoroso. Trata-se apenas de mais tentativa de racionar esse mundo surreal que chamamos de redes sociais. Ainda estamos experimentando. Quem sabe no que isso vai dar?
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