domingo, 6 de outubro de 2013

Como veem o mundo as crianças?

Aborrecido, passeando pela casa, comecei a percebê-la de um ponto de vista diferente. Uma casa é bem mais do que um produto útil do trabalho humano. Mas não é essa obviedade que me intrigou. Me intrigou o fato de que uma casa tão pequena quanto a minha possa esconder tantos detalhes, espaços, contornos e objetos que a primeira vista não estavam lá. Só passam a existir a partir do momento em que nós reparamos neles. De repente, a casa cresceu, tornou-se muito maior e mais complexa do que eu jamais imaginaria. Isso me fez pensar no significado das diferenças entre o olhar de uma criança e de um adulto. Porque, para uma criança, o mundo é enorme, quase infinito, ainda que esteja limitado às proporções de uma casa. Naturalmente, isso não se deve à diferença de tamanho entre ela e um adulto. Lembrei de como as casas onde morei na infância eram enormes. Nela cabiam selvas fechadas coalhadas de guerrilheiros, desertos guardiães de segredos de civilizações passadas, montanhas encimadas de castelos mágicos. O espaço virtualmente infinito que existe entre os metros quadrados de uma casa e a mente de uma criança está dado pela fertilidade da sua imaginação. Uma das grandes questões filosóficas da humanidade é o porquê de geralmente perdermos essa qualidade tão maravilhosa ao chegar à idade adulta. Mas há outro fator envolvido na diferenciação de olhares entre um adulto e uma criança que não diz respeito apenas ou diretamente à imaginação. A criança é naturalmente curiosa e contemplativa. Tudo para ela parece ter um valor intrínseco, sendo, portanto, digno de atenção e, por isso mesmo, merecedor de ser explorado. Toda criança é uma cientista e uma filósofa nata. É por isso que tudo parece tão grande para uma criança, enquanto para um adulto parece pequeno: é porque uma criança vê nas coisas muito mais do que um adulto pode ver. Se eu olhar de longe para uma porta, por exemplo, vou ver apenas uma porta, com seus contornos bem definidos, textura lisa e material homogêneo. Essa imagem superficial só pode ser desfeita se eu me aproximo dela, percebo seus detalhes, o entrelaçamento das fibras, a variação de tonalidades nas cores da madeira, etc. Não sei se a analogia é pertinente, mas o ponto é que se você não olha para as coisas em profundidade, não pode perceber o quão complexas elas são. Os adultos, não tendo mais a curiosidade que têm as crianças, perderam essa capacidade de olhar em profundidade. Nunca aconteceu de você se ver num pequeno canto desprezado da sua própria casa e, num assomo de surpresa, ter de repente a sensação de que nunca estivera ali? Ou de você de repente olhar para um ângulo e se dar conta de que nunca tinha reparado nisso ou naquilo? Essa sensação de estranhamento em relação a um espaço que naturalmente tomamos por absolutamente familiar é incrível. A impressão que isso me dá é que nós, adultos, temos o olhar condicionado. Olhamos sempre para os mesmo lugares e coisas, e da mesma forma. Passamos sempre pelo mesmo lugar. Nossa visão vai ficando, com isso, tão viciada que acabamos perdendo a capacidade de discernir detalhes, identificar diferenças, de se estranhar com aquilo que parece familiar. Isso não acontece com as crianças. Elas estão a todo o momento procurando novos pontos de vista, explorando novos espaços, investigando o mosaico que forma o nosso mundo em seus mínimos detalhes. Os adultos se preocupam com a forma e a função desse mosaico. As crianças com o seu conteúdo e a sua essência. Adultos se relacionam com o mundo segundo critérios práticos. Já as crianças o fazem por motivos desinteressados. É por isso que o mundo parece muito maior a uma criança do que a um adulto. E o curioso de tudo isso é que aquela aparente relação antagônica entre a mentalidade de uma criança e de um adulto – a qual nos referimos acima; ou seja: a mente de uma criança estaria voltada para si mesma, vivendo no mundo fantástico da sua imaginação, enquanto a mente de um adulto estaria voltada para o mundo exterior, para a descoberta das coisas tais como são objetivamente – se inverte: enquanto a criança explora o mundo que a rodeia, um adulto vive com a cabeça no passado, remoendo seus erros e culpas, e no futuro, planejando um amanhã melhor, mas pouco no presente, a não ser por força de suas obrigações e preocupações cotidianas. Vive, portanto, em sua própria cabeça e torna-se incapaz de enxergar o mundo.
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