sexta-feira, 13 de setembro de 2013

Teoria marxista e fascismo

As teorias que explicam o fascismo com base no desenvolvimento econômico capitalista, situando-o especialmente dentro e como consequência de sua fase monopolista, ou na estrutura de classes e as lutas que travam entre si, são insuficientes e não podem fornecer uma explicação global e multidimensional do fascismo. O capitalismo, suas classes e a luta entre elas são categorias bastante gerais e, por isso, abstratas, de modo que não podem explicar porque o fascismo surgiu neste ou naquele país, porque tomou esta ou aquela forma em cada um deles, ou porque foi derrotado em um ao passo que em outro tornou-se um movimento de massas. Essa teoria não está errada, ela apenas para onde realmente começa a explicação; isto é, a seu favor está o fato de que numa mesma época e num amplo espaço político-geográfico (dentro e fora da Europa) surgiram movimentos políticos de extrema direita de um novo tipo, ou seja, diferente dos partidos autoritários tradicionais, ligados à Igreja, ao oficialato, aos altos burocratas e aos grandes latifundiários. Isso significa que a teoria do fascismo como consequência de certas condições históricas inerentes ao capitalismo em sua fase monopolista fornece um quadro bem geral dentro do qual podemos situar o fenômeno, mas diz pouco a respeito deste. Parece óbvio que um movimento como o fascismo não poderia ter surgido no Renascimento, por exemplo, assim como também não poderia ter surgido durante a consolidação dos Estados-nações e da economia de livre mercado ao longo do século XIX. Algumas das condições mais gerais para o surgimento do fascismo, como o parlamentarismo, a democracia liberal, os partidos de massa, a organização dos trabalhadores fabris, etc., estavam ainda sendo gestadas nessa época, e foi somente com o advento da Primeira Guerra e suas consequências catastróficas que o fascismo pode surgir. Por outro lado, o conceito de classe, em sua acepção marxista, e de suas relações contraditórias e antagônicas que se expressam numa luta de classes, são extremamente importantes para entendermos alguns dos mecanismos por trás desse surgimento. Mas há várias outros fatores estruturantes que atravessam uma sociedade, não apenas as classes. Se focarmos única e exclusivamente a classe, acabaremos caindo em certos reducionismos que apenas confirmam um dogma e não a realidade. Assim foi que praticamente todos os marxistas explicaram o fascismo a partir da luta entre as duas classes principais, ou no máximo, em suas versões mais refinas, entre três. É verdade que essa estrutura básica é fundamental, tanto na realidade quanto para explica-la, assim como também o é as suas divisões internas em camadas ou frações de classe. Mas outras categorias de estruturação social, mas dinâmicas e heterogêneas, também são. Não existe aí uma hierarquia explicativa ou axiológica. Isso seria cair num vulgar determinismo. Por isso, é fundamentalmente necessário levar em conta, por exemplo, as associações de militares e ex-veteranos de guerra, os grupos intelectuais e estudantis, a diferença entre os moradores da cidade e do campo, etc. Além do mais, existe, num nível teórico profundo e a despeito de suas ressalvas, uma tendência economicamente determinista entre os marxistas, segundo a qual a preeminência da explicação cai sempre sobre o pertencimento objetivo dos indivíduos às classes, deixando de lado em certa medida seus valores, crenças, expectativas, costumes, vivências. No máximo, esses intelectuais constatam uma disjunção, um descompasso entre essas ideologias e as que se espera que devam sustentar em conformidade com seu pertencimento de classe. Isso não é o suficiente para afirmar a autonomia ideológica que determinados marxistas, em desacordo com seus colegas mais deterministas, defendem, simplesmente porque o mundo das ideias acaba sendo sempre visto sobre o pano de fundo da estrutura de classe, de modo que as ideias estão, de qualquer forma, ancoradas a ela. Mas a realidade é infinitamente mais complexa, e vários outros fatores, para além das classes, estão mutuamente implicados na constituição dos discursos e práticas de um indivíduo ou de um grupo social. Assim, por exemplo, por uma infinidade de razões uma parcela significativa da sociedade não se considera vinculada a nenhuma classe em especial, e, por isso, na eventualidade de uma luta entre elas (o que efetivamente ocorria durante a época do fascismo), esses indivíduos e grupos podem assumir uma posição de oposição aos dois lados e, deste modo, tornarem-se sensíveis ao discurso de “terceira via” defendido pelo fascismo. É certo que esses sujeitos não estão desvinculados das classes, mas o fato de acharem que sim tem consequências reais. É preciso, portanto, compreender quais os principais fatores que ensejaram os vários discursos ideológicos e políticos que tomaram corpo naquele período da história do capitalismo europeu e que permitiram ao discurso fascista crescer e tomar o poder.
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