domingo, 1 de setembro de 2013

Sobre a intervenção ianque na Síria

Tudo indica que a intervenção estadunidense direta na Síria não é mais uma questão de "se", mas de "quando". Nos próximos dias ou semanas podemos esperar um ataque às forças de Assad. Como sempre fizeram, os EUA não estão dispostos a construir um consenso a propósito, e muito menos a respeitar as leis internacionais que eles mesmos criaram. Quando se trata de botar em prática suas agendas políticas internacionais, os EUA estão pouco se lixando para questões legais e/ou éticas - e eles têm poder militar e econômico para se darem a esse luxo. Não obstante, a recente declaração de Obama, de que vai procurar apoio no legislativo para um ataque unilateral (sem mandado do CS da ONU) ao regime sírio, tem como fito assentar um mínimo de consenso nacional e evitar o isolamento, já que, dada a atual conjuntura interna, não há consentimento popular que abone a ação. Independente disso, dificilmente essa ação terá apoio popular, internou ou externo, bem como de apoiadores ou de inimigos de Assad.

Diante do já requentado discurso de guerra humanitária, ou seja, de que uma intervenção na Síria visaria única e exclusivamente fins humanitários, como a salvaguarda de direitos humanos do povo sírio, é fácil ver que os EUA não fazem senão perseguir sua própria agenda política e econômica. Nada de novo até aí. É por isso que é inútil discutir o problema à luz de questões éticas ou legais. Os EUA obviamente não têm autoridade moral para falar em violações de direitos humanos por parte de seus antagonistas internacionais. Também não têm qualquer legitimidade ao aduzir preceitos jurídicos para fundamentar sua posição, uma vez que eles próprios deixam de parte tais preceitos quando lhes convêm. O critério de análise aqui deve ser as necessidades da revolução síria, e isso implica tomar um lado - vale dizer: o lado dos revolucionários. O problema todo, portanto, se resume em: se, ao intervir na Síria, os EUA podem ou não pesar a balança para o lado dos rebeldes. Isso depende de como tal intervenção será feita.

Se for desincumbida como um ataque pontual e rápido, visando destruir ou debilitar a capacidade bélica de Assad, sem ocupação do território com tropas, então pode ser que essa intervenção militar norte-americana seja, pela primeira vez na história, positiva. Tratar-se-ia, portanto, de uma intervenção bastante distinta daquela levada a cabo por Bush, no Afeganistão e no Iraque, pretextando uma cruzada contra o "terror". Repito, as motivações de Washington não são humanitárias. Visam perseguir objetivos particulares: impedir o fortalecimento do Hezbollah e dos grupos jihadistas que cerram fileiras com o campo rebelde; abrir espaço para uma transição negociada que não desequilibre o status quo geopolítico no Oriente Médio, etc. Mas, uma vez que a intervenção norte-americana não vai ocupar o território sírio, ficaria assim, em tese, resguardada a autonomia dos organismo políticos e militares dos rebeldes.

Eu sou absolutamente contrário ao imperialismo ianque. Mas impõem-se necessidades táticas urgentes que me obrigam a suspender esse meu posicionamento político geral. A guerra civil já se arrasta há dois anos e meio e, a continuar como está, arrastar-se-á por mais dois, cobrando seu inevitável preço em vidas. Daí porque o argumento de que os efeitos colaterais dos assim-chamados "bombardeamentos cirúrgicos" invalidam a si mesmos já que matam civis a pretexto de salvá-los, é relativo. Civis estão morrendo nesse exato momento. Por exemplo, 1.400 deles morreram semana passada sufocados por gás sarin, independentemente do culpado, se rebeldes ou governo. Quem sabe quantos mais morrerão. É por isso também que palavras de ordem abstratas não resolvem o problema. "Abaixo Assad! Não à intervenção imperialista! Viva a revolução síria!" Perfeitamente. Mas como colocá-las em prática senão mediante uma intervenção imperialista? O povo está exausto de tanto sangue derramado, o Hezbollah entrou no conflito ao lado de Assad, e enquanto o tempo passa as forças rebeldes têm que lidar, cada vez mais, com seus próprios problemas internos, como a influência de grupos islamistas sectários em seu interior. Pôr termo à guerra deve ser a nossa preocupação primordial. Só assim será possível que o conflito armado seja substituído pelo conflito político. Que tipo de Estado e de regime político nascerá daí é com o povo sírio.
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