quarta-feira, 11 de setembro de 2013

O tempo e o Facebook

O tempo é questão-chave para se entender o tempo – de hoje. Tempo, tal como mostrou Einstein em relação ao mundo físico, é relativo, e isto é ainda mais verdadeiro para o mundo humano, eminentemente histórico e social. Atualmente é um lugar-comum a ideia de que a modernidade, com suas revoluções e suas máquinas, acelerou exponencialmente o tempo. Até a emergência desse marco histórico, o tempo se arrastava na velocidade permitida pela natureza. Embora isto não seja de todo verdade – pensemos, por exemplo, no moinho hidráulico ou movido por tração animal: ainda que dependente de elementos naturais como força motriz primordial (a água, o boi), eram já avanços consideráveis na técnica e na tecnologia que permitiam a quebra relativa do tempo da natureza –, uma vez que, de uma maneira ou de outra, os seres humanos sempre determinaram em alguma medida o tempo em que vivem (o tempo é, sob o ponto de vista estritamente humano, sempre um produto da sua ação), nada do que aconteceu antes na história humana compara-se ao tempo vivido na modernidade. E o cerne desse processo, seu epicentro, sem dúvida encontra-se na produção social, na economia, e nas tecnologias e técnicas que a acompanham. Um exemplo curioso, que pode ser aduzido aqui de passagem, é o tempo decorrido entre o nascimento e o abatimento de um frango: enquanto um frango caipira leva em média 180 dias para atingir o peso ideal, um frango de granja hoje leva a metade desse tempo. Isto nos faz pensar como o tempo humano relaciona-se e interfere no tempo da natureza, e como a separação entre um e outro é abstrata. O planeta esquentou velozmente nos últimos dois séculos, e ainda mais rapidamente nos últimos cinquenta anos, com a industrialização do chamado Terceiro Mundo; há milhões de anos a natureza não presenciava semelhante aquecimento, e é a primeira vez que a causa são as mãos humanas. Bom, mas eu comecei esse texto não para discutir as questões filosóficas, historiográficas ou sociológicas relacionadas ao tempo, mas simplesmente para criticar uma noção muito comum e invariavelmente aceita como inescapável: a de que a aceleração dos tempos modernos, que Chaplin representou muito bem numa época em que todo o potencial tecnológico da modernidade ainda não passava de uma promessa, exige nossa adaptação, de que só nos resta acompanha-la. Esse tempo, que não é exatamente nosso, mas das máquinas, é um grilhão, e não uma benção. Na época de Chaplin, as máquinas e o crescimento da velocidade na produção e na comunicação prometia libertar os humanos do fardo do trabalho. Essa promessa não passou de uma promessa; ainda mais: não passou de uma mentira contada inescrupulosamente por quem dela se beneficia. Atualmente, a comunicação é virtual e instantânea, bens e pessoas circulam rapidamente dentro do mundo todo, as grandes cidades, para onde uma boa parte da humanidade se mudou, não desliga dia e noite. Estamos sempre em movimento, e não há tempo sequer para pensar em porque ou para onde nos movemos. Dentro do tempo cada vez mais escasso que individualmente cada um nós dispomos para sermos nós mesmos, o trabalho certamente consome a maior fatia. E ainda é preciso cuidar das necessidades mundanas, viver a vida familiar, ter amigos, fazer atividades extracotidianas, cuidar da saúde, apropriar-se da e produzir cultura, enfim viver plenamente uma vida atribulada e prenhe de inesgotáveis atividades. E se alguém não consegue ou recusa esse estilo de vida em favor de um outro onde não se esteja reiteradamente brigando com o relógio, este alguém é taxado de perdedor, aquele que não deu conta da modernidade, que não suportou-a e não tem o que é preciso para tanto. Por trás dessa crença generalizada está um juízo de valor de que esse tempo moderno é bom, de que quanto mais coisas fazemos mais desenvolvidos e mais completos somos. Como se correr contra o relógio e ganhar (ou achar que se está ganhando, ao menos em relação às outras pessoas, porquanto se trata de uma luta definitivamente perdida) fosse o critério da felicidade. E as coisas pequenas e improdutivas da vida? E a contemplação e o ócio criativo, onde ficam? Na universidade ouve-se o argumento: o que você faz da meia noite às seis? Pois não durma, estude! É claro que esse é um argumento extremo e fanfarrão, porém há nele um quê de verdade, e esse quê é justamente a ideia de que é preciso produzir, produzir e produzir em detrimento do lazer, do gozo, da fruição. Dormir sete horas é preciso. Falta tempo para fazer tudo o que se quer de modo que é preciso sacrificar alguma coisa? Então está na hora de pararmos de sacrificar o que realmente importa e fazer isso com o que não importa, há começar pela perda de tempo que é esse Facebook.
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