segunda-feira, 2 de setembro de 2013

As mentiras da Globo: as de ontem e as de hoje

Poucas coisas são mais repulsivas do que o cinismo dos "de cima". É como se, não bastasse pisar no pescoço dos "de baixo", ainda cuspissem-lhe à cara. É precisamente o que o grupo Globo acaba de fazer com o povo brasileiro, ao negar-lhe a verdade de sua história enquanto, supostamente, presta contas com ela. Com efeito, o recente editorial no qual, pela primeira vez, a organização admite ter sido um erro apoiar o golpe militar de 1964, nega a história, deturpa-a, como é de praxe, a pretexto de resgatá-la. Ainda mais: procura fazer da culpa de uma das organizações mais poderosas deste país, menos do que um simples erro, mas acima de tudo uma mea culpa, compartilhada com toda a sociedade e, portanto, compreensível e justificável.

Em primeiro lugar, é preciso dizer: erro é teu cu! Não se pode, conscientemente, assumir uma postura e tomar uma escolha a fim de satisfazer interesses pessoais e, depois de satisfeitos tais interesses, afirmar que cometera um erro. Isso é oportunismo, um duplo oportunismo, porque, mais uma vez, não passa de uma tentativa infantil de alienar-se da responsabilidade por seus próprios atos. Para começo de conversa, a Globo não seria o que ela é hoje (um dos maiores impérios midiáticos do mundo) sem a ditadura militar. Na época, ela era basicamente um jornal. Entre todos os aparelhos ideológicos da burguesia brasileira, a Globo foi a que esteve mais organicamente ligada ao golpe e ao regime ditatorial, e que mais lucrou com o desenvolvimento das telecomunicações nos anos 1970. Agora ela vem dizer que isso foi um erro? Se ela efetivamente se arrepende dele pode começar devolvendo suas inúmeras concessões de tevê ao poder público, assim como todo seu patrimônio. Erro mais cômodo esse, hein! Tão cômodo quanto admitir agora que fora um erro.

A simples e ululante verdade é que a Globo está acuada pelas manifestações populares que sacudiram e sacodem os poderes constituídos. Sendo um desses poderes, sendo um Estado dentro do Estado, ela é também alvo dos manifestantes. De início, tentou disfarçar essa animosidade contra si (e que entre os setores de vanguarda do movimento assumiu o caráter de pauta pela democratização da mídia) com táticas grosseiras. Ao mesmo tempo em que procurava direcionar a fúria popular contra seus inimigos, sobretudo o governo federal e o PT, a Globo procurava tirar o foco de si mesma. Mas como isso não foi possível, e diante da crescente manifestação contra ela, cujo ápice foi a chuva de bosta sobre o logo da emissora no RJ, ela se viu na contingência de ceder uma grande concessão à sociedade. Fazer uma autocrítica por suas ações durante a ditadura foi a melhor saída: primeiro porque se trata de uma grande concessão, e segundo porque diz respeito a um fato passado, que aparentemente nada tem a ver com o presente. Mas, como é óbvio e diferentemente do que ela tenta, explicitamente, defender, tem sim, e muito.

Isso tudo é muito óbvio. O que talvez não seja tão óbvio é que até mesmo na hora de fazer semelhante concessão, a Globo não deixa de mentir e de escamotear a verdade de forma desesperada a fim de preservar o que resta da sua imagem. Em termos simples, a ideia que ela procura passar no editorial em questão é: apoiamos a ditadura sim, e isso foi um erro, mas não fomos só nós que a apoiamos e, consequentemente, não somos os únicos errados nessa história. À primeira vista, pode parecer verdadeiro semelhante argumento. A ditadura foi saudada pela maioria da população brasileira, e o fato de que a grande maioria do meios de comunicação tenha feito o mesmo parece corroborar a opinião de que esse foi um erro geral.

Ora, a questão se resolve muito facilmente quando se tem em conta que são os meios de comunicação, oligopolizados e geridas como um negócio privado, que determinam em grande medida (talvez em toda medida) a opinião pública. Se a maioria da população estava a favor do golpe foi porque as grandes empresas de comunicação mobilizaram todo o seu aparelho para isso. Apoiados pelas classes proprietárias, que tinham interesse em depor Jango (e que já vinham há tempos tentando orquestrar um golpe), empreenderam uma campanha cuja finalidade era estigmatizar seu governo e colocar todo o povo contra ele. Se o povo cometeu, portanto, o erro de apoiar o golpe, isso se deu porque foi manipulado pelos construtores de consenso, pelos intelectuais orgânicos da burguesia, pelo aparelho ideológico de Estado: a grande mídia empresarial. Dito isso, compreende-se que a Globo não pode usar como desculpa um sentimento que ela mesmo criou conscientemente e com finalidades claras.

De resto, é muito claro que o editorial "autocrítico" do jornalão O Globo faz exatamente o contrário do que se propõe a fazer: diz que quer esclarecer a história, mas não faz senão obscurecê-la; diz que quer resgatar a verdade, mas não faz outra cousa que não negá-la. Num certo ponto da sua "confissão", o editorialista afirma que o que aconteceu aconteceu, e que não se pode negá-lo porque se trata de história. Desnecessário dizer que quase trinta anos após o ocaso do regime ditatorial a Globo vem ainda, exitosamente, negando a verdade. É por isso que a história não é simplesmente um conjunto de fatos: ela é um processo sempre ressignificado; o que aconteceu, aconteceu da forma como o lembramos. A pretexto de corrigir essa lembrança, a Globo não faz senão ratificar o significado corrente dado à ditadura: de que sua causa foi o clima ideológico da Guerra Fria e de que havia a ameaça iminente de um golpe do campo ideológico oposto: a instauração de uma "república sindical", o que quer que isso signifique.

Enfim, o editorial em questão é um festival de impropriedades historiográficas, e de mentiras e deturpações deslavadas e cínicas. Deixo aos mais capazes do que eu a tarefa de demolir ponto a ponto as falácias dos Marinho. Essas falácias não são, contudo, uma surpresa. A Globo, bem como seus parceiros-concorrentes midiáticos da direita e a burguesia brasileira, depende delas. Não é de esperar que não lançaria mão, num momento de grande ameaça, das mesmas táticas vis e velhacas de que sempre se valeu para manipular a opinião pública e para manter a ordem econômica e política excludente e exploradora deste país.
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